CARNAVAL

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Entrevista/Anísio Rodrigues: De músicas tradicionais ao mais prestigiado carnaval do país com composições inéditas 15 Agosto 2021

Quem conhece a música “ê tud ê bada” ou “Tud manera ê ba dvagar”, certamente conhece Anísio Rodrigues, menino de Santo Antão, mais precisamente de Povoação de Ribeira Grande. A sua carreira iniciou com géneros musicais mais “terra a terra”, mas acabou por se destacar em composições carnavalescas. A sua trajetória com mais destaque está relacionada principalmente com o carnaval de São Vicente, onde juntamente com seu companheiro JC souberam deixar as músicas carnavalescas na boca do povo durante ano inteiro, através dos grandes sucessos e alguns merecedores de prémios. Anísio veio de uma família de músicos, onde aos poucos foi ganhando o gosto pela coisa. Com a pandemia, o ritmo já não é o mesmo, mas espera o mundo recompor-se e tudo voltar a normalidade.

Entrevista conduzida por: Arménia Chantre/Redação

Entrevista/Anísio Rodrigues: De músicas tradicionais ao mais prestigiado carnaval do país com composições inéditas

Asemana - Para começar, quem é Anísio Rodrigues?

Anísio Rodrigues - É um rapaz, um menino da ilha de Santo Antão, mais precisamente do concelho da Ribeira Grande, Povoação. Cresci no seio de uma família de muitos músicos, nomeadamente meu irmão Manuel Rodrigues que vive em Luxemburgo e era músico e tinha uma banda musical naquele país. Aquela coisa de ouvir que tens um irmão que faz música estava sempre em discos e cassetes, fez com que o bichinho da música crescesse mais em mim e querer fazer igual. Por isso, esse gosto pela musica veio da família e minha mãe e as minhas irmas também …

Como músico, com destaque para os ritmos de carnaval, a inspiração ainda se mantém para criar?

- Sim. A inspiração sempre existe. É claro que não está naquele ritmo como era antes da pandemia, mas é sempre criando alguma coisa desse género, até porque neste ano, nos dias que não houve carnaval, eu criei junto do meu parceiro, João Carlos Silva, músicas de carnaval que foi feita também videoclip em que povo rebatizou ou apelidou de “Cabra Mafe. Este nome por causa do refrão que dizia “ê kabra mafé”. Mas o nome da musica é “ Assim ke min ê” , pois letra refere às pessoas que gostam de carnaval de São Vicente. Agora estamos a criar uma outra música juntamente com o grupo Cruzeiros do Norte e brevemente a música vai sair em comemoração do carnaval de verão.

O desafio da pandemia

A pandemia colocou stop na forma de viver o carnaval. Isto é um desafio para si?

- Está sendo um desafio enorme. Esta pandemia nos apanhou de jeito que ficamos sem saber como vamos viver. Nós somos uma classe que lida com a massa, com a população. São os desfiles, as festas, shows na Rua de Lisboa, na Baia das Gatas, que fazem as pessoas vibrar e infelizmente, neste contexto de pandemia é impossível. Em relação aos desafios, eu entrei com tudo para superar e suprir o vazio que eu estava a sentir. Eu juntamente a outras pessoas, outros grupos, acabamos por criar novas formas de fazer shows e isso foi uma novidade que veio crescer com a pandemia que são os Lives Streams. Esses lives na internet, nomeadamente no facebook , fizemos lives de carnaval que ficaram muito famosos, onde convidamos todos os grupos com as bailarinas e os cantores de carnaval para estarem connosco. Portanto foi um desafio imenso, onde aprendi muito como apresentar um programa ao mesmo tempo ser o cantor do programa. Escrevi tudo, fiz roteiro, as entrevistas e tudo mais. Foi interessante e nós aprendemos algo mais com essa coisa de reinventar.

Como descreve a falta de carnaval em São Vicente, já que praticamente é vivido durante o ano, não somente o desfile em si, mas tudo aquilo que diz respeito ao carnaval?

- São Vicente é uma ilha que respira o carnaval durante o ano inteiro que não é somente o dia dos desfiles e que depois vai alem deste dia. Também temos durante todo o ano, onde há qualquer tipo de festa tem aquela batucada, tem que haver musica de carnaval tocando mesmo com os Dj’s. Chegar o verão é muita festa, é Baia das Gatas e tem que ter sempre aquele projeto de carnaval. São Vicente vive o carnaval de forma muito intensa e deixa muita falta neste momento existindo assim este buraco enorme. O carnaval traz turistas, movimenta hotéis, trazendo algum dinheiro para a ilha, mas também não podemos esquecer que há peças que vivem disso e que é o sustento da família. Pensando nesta ultima observação, é uma das partes mais difíceis.

Composições, destaques e preferências

Tem a noção de quantas músicas já compôs?

- São muitos temas. Em relação aos temas dos grupos oficiais já compôs 15 temas. É claro que nos anos de carnaval juntamente com o meu coprodutor João Carlos Silva “JC” fizemos também músicas para algumas escolas do Mindelo. Eu também já vivi 2 anos na ilha do Fogo e participei em alguns grupos oficiais e até que ganharam um prémio de melhor música. Nesta ilha também participei com outros produtores.

Quais são as músicas que tiveram mais sucessos?

- Já temos algumas músicas de sucesso bem notáveis. A primeira música que fez bom sucesso foi o segundo tema do segundo ano que nós fizemos música oficial do Cruzeiros do Norte que foi “80 loucuras”. A partir dai as pessoas vieram nos perceber e que a mesma foi premiada. Logo veio o interesse de pessoas em saber quem somos nos novos do carnaval a fazer música. No ano seguinte, fomos trabalhar com os Vindos do Oriente com a música “Rota da Seda”. No ano seguinte temos o “Seda Fina” do Vindos do Oriente. No outro ano temos o “Tud manera ê ba dvagar” que é um dos primeiros grandes sucessos. A música “ Ê tud ê bada” que também foi um estrondo na boca das pessoas. Em 2020, temos o “ume te otxa dritin”.

Por isso ganhou alguma vez o prêmio de melhor composição do carnaval de Mindelo ou recebeu alguma menção honrosa.

- Sim, tivemos a sorte de ter 2 prémios de carnaval, em 2016 com a música “80 loucuras” dos Cruzeiros do Norte, e, em 2018, com o tema “sabura sem frontera”, também para o mesmo grupo. Esta música foi apelidada de “ê tud ê bada”.

Já editou ou pensa editar em CD as suas melhores composições do carnaval?

- Sim. Este é um sonho e é um desafio que nós em querer reeditar estas músicas no CD com uma compilação dos melhores temas ou mesmo também nesta compilação ter um ou dois temas inéditos neste registo de músicas de carnaval.

Que outros gêneros musicais costuma compor?

- Eu veio de uma cultural musical de música tradicional ou de “música de terra” como costumamos dizer. Para além de músicas de carnaval, tenho composições de mornas, coladeiras, baladas. Portanto, são muitas músicas já feitas com composição do meu companheiro, João Carlos Silva. Eu tenho músicas também que fiz sozinho e tenho aquelas que foram feitas por encomenda de alguns artistas. Portanto, eu e o JC somos uma equipa inseparável, diga-se de passagem, e temos muita música diferente, nomeadamente de Cremilda Medina, Grace Évora, entre outros artistas.

Tem alguns projetos em curso?

- Por agora estou numa fase de recolha de músicas ou de seleção e brevemente tenciono ir ao studio para registo de músicas fora do contexto carnavalesco. Portanto, não posso avançar muito coisa sobre isso por agora. Mais a frente podemos falar sobre isso, pois ainda é muito verde esta questão.

Quais são os artistas nacionais e internacionais da sua preferência e porquê?

- Os artistas internacionais são muitos, tais como Maickon Jackson, Bob Marley, Prince. A primeira música que cantei na escola primária foi “Chocolate” da Xuxa. Em termos nacionais sou muito da geração de Pantera e depois vem o Txeka, Vadu, pois eu consumi muito esse tipo de música naqueles anos e agora já fiz mais ou menos música do tipo. Hoje eu estou um bocadinho mais longe, mas sou daquela “raizada”. Artista como Ildo Lobo e já mais recente o sucesso de Mirin Lobo com um musical muito boa.

Mensagem aos amantes do carnaval

Que mensagem deixa aos seus fãs, com destaque para os que amam o carnaval?

- É uma mensagem de força, pois eu sei que não está sendo fácil nesse ano e meio de pandemia. Mas é dizer que vamos sair dessa e que daqui mais um tempo vamos estar livres das mascaras, do distanciamento, destas restrições e voltar a conviver daquela forma que sabemos fazer com folia com festivais e não só. Vamos continuar e não baixar os braços nessa luta. Vamos cumprir com todas as regras impostas pelo Ministério da Saúde para sairmos dessa pandemia e voltar com força.

Os artigos mais recentes

100% Prático

publicidade


  • Mediateca
    Cap-vert

    Uhau

    Uhau

    blogs

    publicidade

    Newsletter

    Abonnement

    Copyright 2018 ASemana Online | Crédito: AK-Project