NOTÍCIAS

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Entrevista/José da Silva: Os novos tempos da Harmonia, “filha de Lusafrica” 25 Abril 2021

A Lusafrica, que foi criada e situada em Paris por José da Silva, é notavelmente a produtora de Cesária Évora, Lura, Bonga, Elida Almeida, Ildo Lobo e muitos outros músicos. No entanto, a empresa Harmonia, “filha de Lusafrica”, sediada no Mindelo, tem vindo a criar condições para se adaptar aos novos tempos, através da tomada de decisões e dar um destaque aos jovens talentosos. Numa época em que a pandemia e a forma de consumir música tem-se transformado, a direçao da firma defende que torna-se necessário reinventar com urgência e manter-se no mercado da música. Numa conversa descontraída, com o Asemanaonline, o criador da Lusafrica e proprietário da Harmonia, José da Silva, traz-nos a real situação da empresa.

Entrevista conduzida por: Arménia Chantre/Redação

Entrevista/José da Silva: Os novos tempos da Harmonia, “filha de Lusafrica”

Asemana - Qual é a história por detrás da Lusafrica?

José da Silva - A Lusafrica começou em Paris. Desde os 13 anos eu residia na França. Com 21 anos comecei a participar na música, através Associação Cabo Verdiana, com vários jovens. Gostei e comecei a tocar com eles, criando assim uma banda e iniciamos gravações, mas isto implicava ter uma etiqueta. Em 1981, gravamos um álbum para Lusafrica. Durante os 40 anos que residi em França produzimos muita música, principalmente desde a descoberta da Cesária Évora em 1987 - foi aí começamos a ter sucesso. Em 1992, gravamos muitos discos da Cesária. Em 1996, abrimos a Lusafrica em vários outros países africanos (artistas da Costa do Marfim, Senegal, Guiné Konacri, Mali). Foi assim que a Lusafrica transformou-se em uma etiqueta de World Music. Tivemos um escritório em Cuba, onde gravamos vários artistas durante 10 anos. Lusafrica é uma etiqueta de música do mundo. Durante os 40 anos gravei 250 discos. Há 4 anos vim para África, onde geri Sony Music na Costa do Marfim até este mês de março e agora estou em Cabo Verde para relançar a Harmonia.

Com a sua chegada em Cabo Verde, quais eram os próximos passos?

- Quando regressei a Cabo Verde houve a necessidade de vender as músicas que produzia e Cabo Verde não tinha lojas de discos. Foi neste contexto que criei a firma Harmonia, onde acabamos de abrir 6 lojas em vários pontos do país, nomeadamente na ilha do Sal, na Boavista, em São Vicente e na cidade da Praia. Na Capital também ficava uma central onde tínhamos stock. Depois de 10 anos fomos instalar a sede da Harmonia na Praia. O stock principal da empresa era também na Cidade da Praia que fornecia a outras ilhas.

O impacto da pandemia

A pandemia mudou muita coisa. Que impacto teve a pandemia nos novos negócios?

- Com o início da pandemia, podemos notar que as lojas vendiam muito pouco CD’s ou quase nada. E tivemos que as encerrar : primeiro na Boavista, depois no Sal e aeroporto de São Vicente. Mas os funcionários continuaram com as vendas por conta própria, comprando assim as nossas lojas.

O negócio da música mudou completamente. Há 3 anos, mudamos a estrutura da firma Lusáfrica na França, adaptando a novos negócios, mas a Harmonia continuava com o sistema antigo com grande stock de discos. Com essa pandemia notamos que, de fato, era preciso tomar decisões, desde o encerramento de lojas, o fechar de stock e destruição de centenas de CD’s que já não vendiam, entrega dos espaços que tínhamos alugados e que custavam muito. Passamos a sede para São Vicente, na minha casa, que tem muito espaço e com um custo é menor. A pandemia obrigou-nos a isso, mas talvez era algo que precisava ser feito para que adaptássemos a firma a novos negócios da música.

Como é constituída a vossa equipa?

- Aqui em São Vicente, há um mês estamos a trazer jovens para trabalharem connosco. A missão deles é digital. Um é para plataformas, outro trabalha a imagem, entrevista, fotos e vídeos e o outro o seu trabalho é marketing digital ou a promoção digital. São jovens da área. O que não têm são os conhecimentos da área da música, e eu é que os ajudo a entender, já que a música é a minha área.

Apostas na era do digital

Estamos também em épocas em que o digital está a tomar grandes proporções. Como está a ser este processo para vocês?

- Não abandonamos a forma tradicional a 100% e ainda 10% da firma é tradiocional, porque ainda temos stock de discos míticos com todas as coleções de Cesária Évora, Ildo Lobo e Bulimundo. Portanto, foram guardados e ainda fornecemos a sítios turísticos. Com a retoma do turismo, esperamos que continuem a vender. Já começamos a receber pedido de vinis, que é algo que algumas pessoas querem ter. Estamos a investir no fabrico de discos míticos, alguns em vinil para poder fornecer no mercado e os turistas são os que mais fazem os pedidos. Digamos que hã 5 anos, os turistas são os que mais comprem discos em Cabo Verde. Os caboverdianos comprem muito pouco, mas já houve tempos que compravam muitos discos. Já vendia quase 20 mil CD’s de Ildo Lobo só aqui no país. Hoje em dia é quase impossível um artista vender 20 mil discos.

Anteriormente, falou-se na destruição de CD’s. Qual é o sentimento?

- É negócio. O sentimento seria se eu destruísse o master. O importante para mim é o master. CD’s são meras copias ou um pedaço de plástico. Não é de agora que destruo discos. Neste negócio, destruímos discos na França quase todos os anos, porque há um sistema de negócio de discos que anualmente tem-se que fazer um inventário do stock e uma parte desse stock é considerado invendável e sempre é destruído. Destruímos discos que não tiveram sucesso.

Relançamento da Hormonia com jovens artistas

Quais as novas ideias para Harmonia?

- Atualmente, a nossa politica é assinar contratos com jovens artistas. Estamos a relançar a produção de Harmonia ligado a vários jovens. Temos 4 jovens com contratos assinados e que estamos a trabalhar com eles e que os seus discos vão sair a partir do mês de maio.

Com a pandemia descobrimos um novo negócio de música como o show live-streaming que se está a firmar no mercado e já existe sites especializados. Estamos a pensar em fazer o mesmo e pensar na forma de o fazer e dar rendimento. Estamos a preparar um espaço para isso. Estamos a readaptar a firma a novo negócio. Hoje em dia a venda de música faz-se, sobretudo a partir do digital. São jovens sentados a frente de um computador durante um dia inteiro a virilizar o máximo possível vídeo de um artista, música do artista, redes sociais, e isso é um trabalhão. No início pensamos que só digital é mais simples, mas dá muito trabalho porque são muitas plataformas e cada um é diferente e temos que adaptar e entender todos eles, pois todos os dias são coisas novas e temos que seguir a evolução. Também queremos chegar nos turistas através de música ao vivo. Queremos trabalhar com os jovens, promover novos artistas, descobrir novos talentos. Todos os dias recebemos propostas de várias ilhas e estamos abertos a todos os estilos de músicas.

Como se vê daqui há 5 anos?

- Espero que consigo, dentro de 5 anos, fazer da Harmonia a mais grande empresa da música de Cabo Verde e talvez da região ocidental africana. A minha ambição sempre foi grande. Por enquanto, estamos a concentrar em Cabo Verde, mas com ideia de abrir para a costa de África. Espero que tudo retoma a normalidade e que os nossos artistas consigam fazer shows a turistas nos vários espaços como hotéis, bares, restaurantes e várias zonas do país. A nossa ideia é também fornecer as unidades hoteleiras conteúdo musical para turistas.

AC

Os artigos mais recentes

100% Prático

publicidade


  • Mediateca
    Cap-vert

    Uhau

    Uhau

    blogs

    Copyright 2018 ASemana Online | Crédito: AK-Project