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Escritor José Luiz Tavares lança três novos livros e critica postura do ministro da Cultura 15 Outubro 2019

Já estão nas bancas os três novos títulos do poeta e escritor José Luiz Tavares, anunciados há já algum tempo. Tratam-se de «Ku Ki Vos/Com Que Voz», «Instruções para Uso Posterior ao Naufrágio» e « Arder a Vida Inteira ». Segundo o seu autor, são três livros muito diferentes. Critica que, apesar de os lançamentos referidos ocorrerem na semana do Dia Nacional da Cultura e da nova edição do Morabeza, Festa do Livro, não foram incluídos em nenhum desses eventos - salientou que recusou participar nos mesmos porque o atual ministro da Cultura não se demarcou ainda de afirmações polémicas, sobretudo as de natureza racista alegadamente encomendadas e postas a circular.

Escritor José Luiz Tavares lança três novos livros e critica postura do ministro da Cultura

Os livros «Ku ki Vos/Com que Voz» e «Instruções para Uso Posterior ao Naufrágio» foram apresentados na abertura do Festival Internacional de Literatura de Óbidos, FOLIO, com a presença do Presidente da República Jorge Fonseca. Já « Arder a Vida Inteira» foi lançado na mesma Vila Literária (assim classificada pela UNESCO) de Óbidos, em maio, durante o festival de Viagens e Viajantes, Latitudes.

José Luíz Tavares descreve que «Ku Ki Vos/Com Que Voz» é um volume de traduções de Sonetos de Camões, iniciadas em 2004, trabalhadas durante os últimos quinze anos e só agora dadas à estampa. «Trata-se de um trabalho ambicioso, no sentido não só de dar a ler Luís de Camões aos cabo-verdianos, mas dar à poesia em língua cabo-verdiana um alto modelo que lhe permita uma outra conformação literária e dar o salto para um modelo erudito, cortando com um modelo muito ligado ainda à tradição oral e à fala popular».

Para a mesma fonte, trata-se de um projecto levado a cabo sem nenhum tipo de apoio, quer da parte portuguesa, quer da parte cabo-verdiana, quer para a tradução, quer para a edição, ou divulgação. «A edição é da editora portuguesa abysmo, o que é bem uma bofetada à covardia e negligência das autoridades políticas e culturais cabo-verdianas, quando não mesmo, da parte de alguns, ao nível do ministério da educação, no passado e no presente, duma activa oposição à dignificação da nossa língua materna. A tradução é dedicada à memória de Eugénio Tavares, Cónego Teixeira, Sérgio Frusoni e Arnaldo França».

José Luiz Tavares revela que o outro livro é «Arder a Vida Inteira [Fados e Canções Baldias]». «É um livro diferente de tudo quanto já escrevi, e já nasceu da intenção de abordar certos temas ligados à tradição da canção e também ao fado. Estes temas não são estranhos à minha poesia (eles aparecem em Lisbon Blues, em certas sequências de Agreste Matéria Mundo e também em Desarmonia), mas neste livro eles têm uma intenção e um tratamento estilístico e formal diferente. Embora quisesse aligeirar um pouco, no final, constatei que mantêm ainda aquela minha marca de submeter a palavra à máquina da memória e da reflexão, numa combustão em que nada escapa à percuciente pinça duma oficina que nunca por nunca afrouxa no rigor formal e na profundidade analítica».

Diferente na sua intenção é, segundo o escritor, «Instruções para uso Posterior ao Naufrágio», obra que ganhou o Prémio Vasco Graça Moura da Imprensa Nacional Casa da Moeda 2018, entre cerca de 400 originais concorrentes. «Trata-se, na minha opinião, da minha obra mais robusta, quer na sua intenção e profundidade reflexiva, quer no rigor formal e trabalho oficinal que denota. É uma obra que vem na linha do meu segundo livro, Agreste Matéria Mundo, e que quem já o leu, como Arménio Vieira, diz que é a minha «opus magnum, uma síntese perfeita entre o clássico e o moderno».

Destaca que o subtítulo da obra é «Meditações Éticas, Estéticas e Dialógicas», o que é todo um programa poético e poetológico. « Na feliz definição do Osvaldo Silvestre, referindo-se a Agreste Matéria Mundo (cujo núcleo essencial, A Deserção das Musas, este livro retoma amplia e robustece), «poesia do pensamento, sem deixar de ser poesia».

Ministro da Cultura e questão de transparência, ética e verticalidade

Apesar de estes lançamentos ocorrerem na semana do Dia Nacional da Cultura, e da provável nova edição do Morabeza, Festa do Livro, José Luiz Tavares critica que estes lançamentos não se encontram enquadrados em nenhum deles. «Eles são da iniciativa do autor e custeados por ele. Aliás, o autor recebeu um convite do ministro da cultura (Abraão Vicente) para a edição do Morabeza deste ano, mas aceitá-lo seria renegar tudo aquilo por que tem batalhado. Enquanto não houver reparação ou demarcação das graves afirmações que foram proferidas em 2017, sobretudo a de racismo, encomendado pela booktailors, nem pensar em convidar o José Luiz Tavares para tal evento».

Para o escritor, cometem o mesmo erro cometido anteriormente: tentar explorar o lado do show, da vaidade ou do interesse, quando deviam pensar em valores de transparência, ética e verticalidade. «Aqueles que, quando interrogados acerca da ausência do José Luiz Tavares na primeira edição do Morabeza, responderam que ‘uma andorinha não faz a primavera’ deveriam saber que este autor é e será sempre um condor a pairar livre nos céus da literatura cabo-verdiana», contesta.

Comportamento vergonhoso da vereadora da Câmara de Assomada

José Luiz Tavares também critica a postura da vereadora da Câmara Municipal de Santa Catarina de Santiago, que sequer respondeu ao seu pedido para lançar as suas obras na cidade de Assomada. «Outro assunto que queria tornar público é este: tendo enviado um email à directora da cultura e à vereadora da mesma área da Câmara Municipal de Santa Catarina manifestando interesse em lançar os livros no Centro Cultural Norberto Tavares, nem uma simples linha de resposta obtive. É vergonhoso e inaceitável que pessoas que ocupam lugares e cargos tais se comportem desta forma com quer que seja, mormente com um destacado e reconhecido criador desta República», conclui José Luiz Tavares.

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