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A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Eternidade para o velejador Topade 30 Setembro 2018

António da Cruz, Topade de nh’Antoninha, nascido em Ponta do Sol, Santo Antão, e adolescente "adotado" na Suíça, estava no dia 22 a ultimar o seu "fim de semana da Regata 2018" em "dupla SWAN 44". Sábado seguinte Cabo Verde chora-o, esse vencedor das ondas que um AVC levou antes de poder instalar-se na sua terra onde "ergueu casa, mandou barco e carro, e contava abrir um centro náutico e de assistência à navegação de recreio", como descreve o seu amigo David Leite na homenagem publicada na internet e que transcrevemos a seguir:

Eternidade para o velejador Topade

Requiem por um amigo que morre cedo demais

"Adivinha qual é", disse-me Tôpade, desafiando-me a acertar no barco que lhe servia de casa.
Os veleiros motorizados e outras embarcações de recreio pareciam multiplicar-se à medida que avançávamos pelo atracadouro de Versoix, uma cidadezinha encantadora nas margens do lac Léman (lago Genebra, na Suíça). Mas um deles ostentava no casco as cores de Cabo Verde, num dos mastros uma bandeirinha discreta: ora aí está!

Portador da bandeira

Onde quer que fosse, Tôpade fazia questão de levar consigo a bandeira das ilhas, tal um talismã, um sinal distintivo que o ligava ao seu umbigo. Foi nessa procura das raízes que ele me procurou, vai para uns 20 anos, no meu trabalho em Paris.
Conversámos muito, e ofereci-lhe uma bandeira. Ganhei um amigo de coração limpo e fino trato, afável e alegre com todos, um gentleman. Éramos ambos de Ponta do Sol, terra onde as ondas falam mais alto, “a vila dorme e o mar murmura”.
Viesse ele a Paris ou fosse eu a Antibes, ficávamos na casa um do outro, mesmo estando o outro ausente. Nos nossos serões que se alongavam madrugada fora, falava, com certa euforia, de ir viver para Cabo Verde. Era o sonho da sua vida. Não por desamor do mundo ou para cumprir algum destino de emigrante, nada disso! Em Versoix pareceu-me o meu amigo uma pessoa realizada, de bem com a vida: o seu trabalho era a sua vocação, bons amigos tinha ele, a vida no porto era simpática e festiva. No aconchego da sua casa flutuante, embalada pelas suaves ondulações do lago Genebra, desabafou comigo a sua plenitude: - "Nunca me senti tão bem como aqui na Suiça". E citava, com um sorriso malicioso, os amigos que a brincar lhe "invejavam" a sorte:
- "T’es un p’tit malin, toi, t’as tout compris à la vie".
Nos dois dias que passei em Versoix, vi um Tôpade acarinhado pela comunidade lacustre ligada às actividades náuticas. Aqui chamavam-lhe Toniô. O mesmo Toniô que eu já tinha frequentado em Antibes, cidade balnear da Côte d’Azur onde ele vivia antes de ir juntar-se a Pauline, jovem suíça que conheceu em… Cabo Verde! Caboverdeano tão popular e tão querido no seu meio, como Tôpade nunca vi! Por onde passasse deixava a sua marca de simpatia, estampada num sorriso perene e natural que seduzia tudo e todos.
Contagiante era também a humildade com que contava a sua história de mnine d’praia d’bôte que um dia abalou num iate e foi adoptado, em França, por uma família de Cherbourg. Uma história pungente e palpitante - “conto contigo para a escrevermos um dia”, dizia-me.

Pinote ’na vapor’ aos 13 anos

Na ponte do seu navio onde passámos a noite, o meu filho, então 13 anos, escutava empolgado a história do navegador solitário, contada na primeira pessoa. Fascinado com o pequeno "capitão de areia" que se fez homem nas azáfamas do mar e virou capitão do seu próprio barco e destino. Sozinho no exíguo habitáculo de um iate, velejando por esse mar fora em diferentes "Route du rhum" e outras grandes competições transatlânticas.
O miúdo, extasiado, fazia perguntas de mares e barcos, e nele se reflectia o meu amigo que aos 13 anos só tinha um sonho: dar pinote num navio! Não no imaginário dos miúdos de agora, mas em cata da vida como os de outrora! "Queres pilotar?" - perguntou-lhe Tôpade confiando-lhe o leme! E o puto, louco perdido por navios, não cabia em si de "pilotar" um iate de verdade!
E ficaram os dois bons amigos… de verdade. O meu amigo Topade guardava esse quê de criança que às vezes nos falta quando viramos “gente grande”.

Regresso sonhado … traído

De-riba de água do mar ou em terra firme, Tôpade impressionava: homem do mundo, educado por uma família francesa, exprimia-se bem. Falava inglês com fluência. Muitas terras conhecia o homem dos mares, mas sonhava voltar à SUA terra. Os planos que não tinha para se instalar em S. Vicente! Ergueu casa, mandou barco e carro, e contava abrir um centro náutico e de assistência à navegação de recreio.
Com vida e saúde, dizia. Cigarro nunca mais, álcool, já nem socialmente... e não é que vem um AVC e leva o rapaz! Um AVC! Assim, sem mais nem menos, aos 52 anos. Bolas que não somos nada nesta vida! E o campeão dos mares com tantos projectos… e eu que pensava escrever sobre o intrépido skipper que hasteava a bandeira de Cabo Verde nos portos da França, das Caraíbas...
Topade irá em breve despedir-se de S. Vicente, derradeira escala na sua viagem sem retorno. Não num barco mas numa urna! Nesta hora de despedida e de dor, peço amparem nh’Antoninha sua mãe, que ele venerava. Je suis de tout cœur avec ses enfants Alexis (na Bélgica), les petites jumelles Mélissa et Satine qui étaient la prunelle de ses yeux. Bon courage !
E a ti, meu eterno Amigo, bon vent! Até sempre.
Mantenhas da terra-longe, 28 de setembro de 2018 (David Leite)
— -
N.R. Entretítulos da Redação. Foto da página de Facebook do malogrado António Cruz.

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