OPINIÃO

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Figuras e lugares de preito: Pico d’Antónia de Santiago 20 Fevereiro 2018

...no sobranceiro de solar do mais altino sítio enlevo e sobrepujando os reluzentes candelabros de Rui Vaz, o fecundo vale de São Jorge e seu virente alfobre em barda, Covada dos Teclados, lugares de eleição de um nosso amigo advogado, um outro estroso politólogo, mais um insigne docente. A partir dali, visualizar Santiago em peso, desde a mítica baía do formoso por do sol, dos nossos magnos amigos e vizinhos, Virgílio irrebatível e Cícero moderno, tal que mágico Barbosa de outro tempo. É certo que de fora fica sempre a masmorra de emblemática memória, a extenuosa catacumba dos vários egrégios nacionalistas.

Por:Domingos L. Miranda Furtado de Barros

Figuras e lugares de preito: Pico d’Antónia de Santiago

A nossa grande ambição na vida é a de um dia poder galgar o elevado Pico d’Antónia. Estando ali no cume de sua crista, num esteio claro e prodigioso, cheio de fulgor e de fascínio. Assim, no sobranceiro de solar do mais altino sítio enlevo e sobrepujando os reluzentes candelabros de Rui Vaz, o fecundo vale de São Jorge e seu virente alfobre em barda, Covada dos Teclados, lugares de eleição de um nosso amigo advogado, um outro estroso politólogo, mais um insigne docente. A partir dali, visualizar Santiago em peso, desde a mítica baia do formoso por do sol, dos nossos magnos amigos e vizinhos, Virgílio irrebatível e Cícero moderno, tal que mágico Barbosa de outro tempo. É certo que de fora fica sempre a masmorra de emblemática memória, a extenuosa catacumba dos vários egrégios nacionalistas. Passando de seguida pela virtuosa Embocadura dos Navios, malgrado um seu nefando palhabote, a Treva dos Oceanos, que se amuara no maciço pesadelo, em pleno mar de encrenca, do jeito de uma mula refilona, para trair e conspirar contra os intrépidos valentes da resistência antifascista.

Ribeira dos Navios que seria mais tarde lugar de preito indefetível e donde sairia uma suprema magistratura da nação, e ainda músicos radiantes desta insula de berço. Depois, deitar a vista a escorrer pelo Ribeiro Montanhês de Nhô Nené, Enseada de Horizonte, em frente ao Maio, a concha de dois coevos compatrícios da palavra e um malogrado jurista amigo da nossa escola. Dali em diante é encarar a sumidade em todo o seu esplendor, desde a serra de picante e de graciosa, baia de cruz de nome e do esbelto cavaleiro até a outra do genuíno tocador de concertina. Depois, da praia da ourela de marisco ao epicentro de singela velha urbe, a base tumular do nosso umbigo, partindo para ribeiras de Rincão e de Sam João, ladeiras de Belém e de Cumbém, a Praia de Maria e de Vitória, do palácio da concordia e do divã de heroicidade, cutelos de Rebelo e de Serelho, barragens de Faveta e Boaventura, as vargens de Santana e Rocha Lama, o despontado cesto a vir do nédio Nunes, nosso perene dador de mão na Academia. E após tudo isso, respirar com lividez de coração e devotado apego à ilha, para dizer: - até que enfim, o suado cosmo da minha visão está dentro de uma obra, todo ele -.

E isto sem esquecer as imensas referências às outras ilhas e a toda uma vasta lusofonia dos nossos dias: de paisagens fabulosas, de famosas quedas de água e de florestas que se perdem na lonjura dos campos, verdes e tingidos e vívidos; de fragas e de íngrimes falésias, que se quedam junto ao mar, fazendo-se de trave dos oceanos; e de destrinos animais, como ágeis anfíbios e felinos, ou águias acrobáticas de bicos aduncados, que fintam e fustigam o reino dos demais, tais que pesados elefantes, caídos na armadilha de lestos predadores. Inda de nomes memoráveis, de músicos, pintores, escultores, poetas e videntes, editores, prosadores e eminentes pensadores de mil áreas do saber, que serão sempre uma constante da nossa inteira literatura. Porém, por vezes, desatamos a estranhar em solilóquio: - «eu que sou escriba, que escrevo com tinta preta, que visto camisa preta, que uso chapéu de riscas, de evidente mimetismo das chitas africanas; eu que cultivo a despesa de prestígio e me deleito a descrever a ambiência do africano, a fibra e persistência do africano, o esforço ao rubro do africano, a lívida esperança do africano, o magnífico sorriso do africano, aberto e luminoso, como pedras de diamante na montra do futuro ou brilho das estrelas no alto das esferas.

Mas o ideal da refulgência seria enorme ter acesso ao topo de vulcão, na esguia e diletante ilha do Fogo, de uma outra suprema magistratura, do então e do hodierno polemista, da leda e pulcra voz de cisne, da nossa antiga prestigiada excelsa mestre e de um prezado nosso amigo economista. Dali divisar a mimosa e mui querida ilha franzina, a do patriarca da cultura do país, lustroso punho. De seguida, apanhar o nosso veleiro e rumar em direção ao norte da aventura, mas antes, passando pela ilha de Aeronave e pela serena bela vista dum lídimo escritor e do saudoso presidente inaugural desta república. A partir dali, seguir caminho adentro e assentar arraias na ancora do porto mais moderno. E sem perda de tempo, trepar o topo de Coroa, na ilha de acentuado declive mesmo, enxergar a estância toda, a do mentor do nome Hespéria, do físico primevo desta terra, dum poeta obsessivamente apaixonado, de um nosso elã antepassado, de uma consagrada criadora da atualidade e de um reputado velho amigo.

E de volta à procedência, escalando o amplo porto, de permeio, empurrando o peito para de cimo do monte espelho, mirando a face do planeta na baia, de cima para baixo, tendo o justo meio-tom, o luzente neuro- cientista, pão e solfejo no palato e na retina, a inspirar e a dar-nos mote para o resto da jornada, que terá a próxima paragem na ingente ilha bonita do jurista-professor e do maestro de harmonia. Estando ali, subir afoitamente o Monte Gordo, divisar ribeira anciã do dileto e sacrossanto seminário, a dianteira do estalajadeiro e a umbrosa retaguarda da choça de recuada outra senhora e aclamar, alto e bom som: - agora, sim, toda a minha terra cabe dentro desta lente de aguerrido peregrino -. Contudo, já sabemos que isto jamais será possível. Então, contentemo-nos com as pequenas pinceladas e vagas referências a a pessoas e lugares, aqui e ali, que nunca faltarão à nossa lide. Porém, hoje, ficamos por aqui, já que a pôs modernidade, a líquida, na significação lhe atribui Zygmunt Bauman, não suporta longas narrativas, densas, cansativas.

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