Crioulo

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Filhas de Sião — Passeio Público 09 Mar�o 2022

Será o centro desta arena o Passeio de nome Presídio. Que nome para o Passeio Público onde secularmente passeamos as vaidades. Aqui olhamos em frente a Brava, para onde se foge quando o fogo se desentranha das profundezas da terra. À sombra do vulcão, o sono será dos justos?

Filhas de Sião — Passeio Público

Chã de lavas, arena da discórdia baseada na barreira que traçou a fortuna ou a raça. Quem chora mais? Quem chora por quem?

Fogo. Vulcão, a metáfora do homem esquentado, de rompantes, não espirra, antes estrondeia: Oiá cma min é fogu, oiá fogu ca ta brincá spiá /spirrá na mar, spiá /spirrá na rocha ca bo spiá /spirrá na min//Oiá kma min e fogu, oiá fogu ka ta brinká spiá /spirrá na mar, spiá /spirrá na rotxa ka bo spiá /spirrá na min. Xpiá? Xpirrá?

Com o Bana nunca se sabe: com ele a epifania de novos sentidos, novas semânticas, novos universos de sentido. Tudo porque percebeu um som a mais ou a menos. Nha Mãe é/e fraca/fraka, nha pai é/e malòndre, a substituir nha pai é/e morte. E se calhar tem razão, quanto aos que se demitiram os Ques-que-sões/Keskesonj, para maior glória da progénie dos que não desistiram.

Isto pensa ou diz — frente ao cemitério que olha para a Brava — esta voz através do fio (aliás, wireless) que liga à nossa capital global, do outro lado do mar, a Merka, nesta manhã de Agosto (duas décadas longe de agosto). Dentro e fora, muitas histórias, estórias dirão preferentemente os portugueses do Ultramar, que já não o são pois se independentizaram.

Estórias /Stórias geradas pela História – cuja factualidade talvez nunca se possa vir a provar. Mas já são parte de nós, da nossa mitologia, desde a infância que ouvimos a Mãe, esta que do povo voz de Deus é, a pregar dita prègar lições às filhas sobre a conduta: Não, filhas, não é pelo cônjuge que nos abandona a meio da noite, pela negra, talvez cativa escrava ou princesa, balanta ou etíope, ou só uma bela de ébano, e talvez já nem isso, uma parda de olhos verdes ou azuis, que nos venceu, e nos obriga a armar a mesa-de-pano-verde onde jogar iremos as fazendas, os cafèzeiros, os vinhedos, as lojas, o sobrado onde moramos e que vocês sem perder o orgulho hão-de um dia ter de deixar, e quando vocês, filhos, já no Maria Amélia para a metrópole onde hão-de morrer soberbos mas indigentes, indigentes mas soberbos, há-de ser entregue ao ganhador.

Não, filhas minhas, Sobrado: símbolo da nossa raça, a última torre que preferimos deixar cair antes de ser entregue ao ganhador. Não vocês, filhas minhas, não se entreguem nem para salvar o sobrado, morram invictas, arrisquem-se às varas que reserva às virgens o santo das portas do paraíso. Prefiram-nas, a conhecer o amor de perdição que dá um negro (de raça ou social, que negro é o branco dessobradado).

Voz da Mãe. Faltando esta, a Voz é de Aniceto Brasão, o Lear a quem a codê (era-o?) salvou na sua progenitura, estes netos nascidos albardas da Mriflipa na casa patriarcal. Lear que não queria ser assim perpetuado. Foi-o. Ah se foi! Uma catacrese, esta Esmeralda filha de Aniceto.

Também foi-o, uma catacrese, o erro derivado da maneira de ser deste povo e que o metropolitano enviado da Sociedade da Geografia deixou transcrito no seu Relatório, no índice corográfico. Assim o que o nome do lugar não dizia, o que o povo não quis, este vale, depressão entre montes que é ribeira que desagua no mar. Ribeira tornada vale, a que se chega após avistar do alto dos montes a barca baleeira no alto-mar.

Horas de caminhada para chegar ao mar, ribeira feita vale, em honra de cavaleiros que nunca se soube que aqui existissem. Por aqui, navegaram sim barcas baleeiras, com baleeiros, fura-vidas embarcando nestas frágeis naus rumo ao Norte. Fra-vidas que se ca bado, ca ta birado/si ka badu, ka ta biradu.

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