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França: Filha de ex-ministro Kouchner denuncia violação do seu gémeo pelo padrasto Olivier Duhamel —"Todos sabiam" 24 Janeiro 2021

Sobre a violação do seu irmão gémeo por Olivier Duhamel (1ª foto, à esqª), diz a autora: "Tinha catorze anos e deixei acontecer". Camille Kouchner, filha do médico Bernard Kouchner que foi várias vezes ministro — Saúde, Assuntos Sociais, Negócios Estrangeiros — entre 2007 e 2012 e é o co-fundador das ONG ’Médicos Sem Fronteiras’ e ’Médicos do Mundo’ faz o ’mea-culpa’. "Tinha catorze anos, sabia e calei-me", denuncia 31 anos depois, no livro publicado a 7 deste mês. Em poucos dias, a França já viu surgir um movimento "MeTooIncest" que está a expor um dos crimes mais silenciados.

França: Filha de ex-ministro Kouchner denuncia violação do seu gémeo pelo padrasto Olivier Duhamel —

A autora conta que o seu gémeo lhe implorou: "Ajuda-me, para eu poder dizer-lhe que não". Havia quase um ano que o padrasto usava o enteado como objeto de prazer. Antoine não o repelira, convencido do que Duhamel lhe ensinara: "Todos o fazem. Ninguém tem nada com isso, é a esfera privada de cada um".

A partilha com Camille (foto à direita em traje académico) torna-a cúmplice do crime. Aos catorze anos, ela não sabe o que fazer senão partilhar do silêncio que o irmão lhe impõe: "Não contes a ninguém, senão mato-me... a vergonha... Ajuda-me, para eu poder dizer-lhe que não".

Aos quinze anos de "Victor" (pseudónimo do gémeo no livro), o padrasto deixa de entrar no quarto do enteado e parece que o incesto foi só um pesadelo de dois anos.

Nos vinte anos seguintes, os gémeos não tocam no assunto que continua a fazê-los sofrer a ambos. Até que em 2008 decidem falar com a mãe.

Mas a mãe Evelyne preferiu proteger Duhamel de quem se divorciou em 1994 e pediu-lhes para esquecerem. Os gémeos começaram a falar. A partir dali, "todos sabiam": a mãe Evelyne Pisier, o pai, os amigos — como Elisabeth Guigon (foto, à esquerda em baixo) que porém nega —, a tia Marie-France Pisier.

Julien Kouchner, o primogénito de Evelyne, tem hoje 50 anos e contou ao Le Monde que a atriz Marie-France Pisier — que se suicidaria em 2011 — "deixou de falar com a irmã", indignada com a escolha dela que preferiu salvar o marido e deixar o filho em sofrimento.

"Ela insistia com Evelyne para deixar o marido. Mas a minha mãe escolheu proteger Olivier, e isso foi completamente insuportável para Marie-France, que passou um ano a tentar convencê-la. Por fim decidiu afastar-se", disse Julien que é editor.

Pai distante, padrasto adorado

Porque é que a mãe Evelyne se calou? Camille conta que tudo ia bem na família recomposta desde 1984, com a saída do pai (Kouchner na foto de fato) e a entrada de Duhamel: "Ele era diferente do nosso pai, que nos aterrorizava".

"Nós adorávamos o nosso padrasto". O cientista político de 34 anos era uns dez anos mais novo que Evelyne quando entrou na vida dela e dos três filhos. Em 1987, três anos depois de se divorciar de Kouchner, Evelyn casa-se com Olivier Duhamel, com quem vivia desde 1984 e com quem teve dois filhos adotivos, Aurore e Simon.

Mas em 1988 tudo derrapou, com a morte por suicídio do pai, Georges Pisier, antigo governador da Indochina, seguido do também suicídio da mãe. Evelyn "mergulhou na dor e tornou-se alcoólatra".

Evelyne Pisier, constitucionalista, namorada de Fidel de Castro

Evelyne Pisier, de 28 anos, e Bernard Kouchner, de 30 anos, casaram em 1970 e tiveram três filhos: Julien, Camille e Antoine. Mas antes do casamento, a irmã da famosa atriz Marie France Pisier viveu uma história de amor com Fidel Castro (foto a preto e branco), entre 1964 e 1968.

Em 1964 um grupo de estudantes franceses, entre os quais Evelyne e Bernard Kouchner, visitou Cuba. Sobre o romance de quatro anos, Evelyne falou ao Paris-Match em novembro de 2016, apenas três meses antes da sua morte: "Comandante ou não, estou convencida que ele é o homem que eu amo. Eu tinha quase 23 anos e comecei um romance que ia durar quatro anos".

"O Fidel era um homem incrivelmente carinhoso. No momento em que ele deixa o uniforme e as armas, esqueço o herói, o Líder Máximo e ele é só o homem que eu amo". A mãe de Evelyne Pisier tenta fazer a filha "cair em si", dizendo-lhe: "Ele tem cem amantes. A primeira chama-se Cuba e contra ela... nada podes".

O término do idílio acontece ao fim de quatro anos, marcados também por muitos pontos de discordância. Entre eles, "não suporto o facto de que, em Cuba, as mulheres e sobretudo os homossexuais são tão maltratados". "Não aceitei que ele não condenasse a invasão da Checoslováquia", Evelyne recordou em 2016, apenas três meses antes da morte.

#MeTooIncest#: grito contra França "complacente com a pedofilia"

O livro La familia grande lançado a 7 de janeiro provoca um sismo. Atinge não só Olivier Duhamel que, visado pela justiça, teve de se demitir de todos os cargos de topo em institutos científicos e órgãos de comunicação social.

Os efeitos fizeram-se também sentir em toda a França: em poucos dias, o silêncio é quebrado e o tema do incesto torna-se um grito em toda a França. O próprio Senado anuncia na quinta-feira, 21, um projeto de lei para criminalizar o ato sexual sobre menores de menos de 13 anos.

O debate centra-se ainda na questão de saber se é mais culpado o pedófilo ou os familiares e amigos que sabendo se amuralham no silêncio, num ambiente de complacência e amoralidade por negligência.

Fontes: Le Monde/L’Obs/Le Point. Fotos: Próxima de Duhamel, Elisabeth Guigou, que foi ministra dos Assuntos Europeus, Assuntos Sociais, e da Justiça entre 1990 e 2002, foi forçada a demitir-se no dia 13 da presidência da Comissão Independente sobre o Incesto e Violências Sexuais.

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