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França: Imã controverso alvejado 4 vezes na mesquita após ’selfie’ com atirador que logo se suicida 29 Junho 2019

O imã da mesquita Sunna, em Pontanézen, perto da cidade de Brest no noroeste francês foi, na tarde de quinta-feira, um dos dois feridos por um atirador que depois de lhe pedir uma ’selfie’ atirou seis ou sete vezes. O agressor pôs-se em fuga, de carro, e pouco depois foi encontrado morto, por suicídio, segundo a polícia local. O imã, na casa dos trinta, ferido com dois tiros no abdómen e mais dois nas pernas, e o fiel, de 26 anos, atingido com dois tiros e talvez um terceiro na mão, estão fora de perigo, segundo comunicado oficial da prefeitura na manhã de sexta-feira.

França:  Imã controverso alvejado 4 vezes na mesquita após ’selfie’ com atirador que logo se suicida

"Ouvi seis ou sete disparos e quando saí da farmácia vi duas pessoas caídas no chão, os dois estavam feridos nas pernas e na barriga", contou o dono da farmácia próxima à mesquita.

"Foi tudo muito rápido", segundo o farmacêutico Thierry Ropars, que foi o primeiro a socorrer os feridos. Ajudados por uma cliente, ele e outro técnico da farmácia fizeram compressas para estancar a hemorragia.

Uma fonte policial disse ao Huffpost que junto do corpo caído do suicida autor presumido, identificado pela polícia como ’não fichado" e "sem qualquer antecedente criminal’, foram encontrados documentos escritos. Além disso, o suposto autor deixou nas redes sociais elementos de identificação, segundo a mesma fonte policial.

O imã Rachid Abu Eljay, também conhecido por Rachid Abu Hudeyfah, é uma figura controversa em França, muito por conta de tiradas como ’música criatura do diabo’, isto numa cidade cujo maior cartaz turístico é o seu festival de música que inaugura o Verão.

Os questionamentos do tipo fundamentalista ao estilo de vida francês começaram a dar nas vistas desde que, em 2014, o jovem imã — nascido em Brest de pais marrroquinos — é gravado em vídeo numa aula de ensino religioso a dizer a um grupo de crianças o que lhes pode acontecer se elas continuarem a ouvir música.

O labelo de radical islâmico ficou-lhe logo colado com a popularização do vídeo, que ainda pode ser visto online, no qual as palavras do jovem religioso aterrorizam as crianças com a perspetiva de virarem macacos ou porcos.

O labelo valeu-lhe, no pós-atentados de Paris de 2015, ser detido para investigação e a sua mesquita invadida pelas forças antiterroristas. Em 2017, pelo contrário é o seu progressismo e apelos à integração nos valores da República Francesa que levam o Estado Islâmico a lançarem-lhe uma fatwa (a condenação à morte, tal como ao outro Rachid, o Salman Rushdie que escreveu os Versículos Satânicos). A fatwa implica na prática que qualquer muçulmano será, mais que perdoado, glorificado por o ter assasinado.

Ameaças de origens diversas

O imã ’fundamentalista’ — pelo menos na perceção da opinião pública e nos média, embora desmentido pelo perito em salafismo (abaixo identificado) que mostra a evolução do imã em dez anos — "Rachid El Jay recebeu ameaças do Estado Islâmico, por causa dos seus discursos alinhados com os valores da República. Se ele fosse a favor do fundamentalismo, o Daech (EI) tê-lo-ia elogiado", disse à AFP, na sexta-feira, o delegado-geral da CFCM-Conferência francesa do culto muçulmano.

As ameaças ao imã provêm tanto de grupos de extrema-direita como também do salafismo atual, segundo o especialista francês Romain Caillet. Rachid El Jay "é tanto alvo dos pró-djihad, quanto de grupos de ultra-direita por causa dos seus vídeos" que se tornaram virais, disse o perito em salafismo moderno ao Huffpost.

"Todas as hipóteses são possíveis. Há 10 anos, este imã seguia uma linha salafista não-djihadista, mas pró-saudita [sunita] e progressivamente na linha tradicional marroquina" enquanto que "hoje ele está numa lógica de prática do Islão que não está em rutura com o meio envolvente", o que segundo o perito se vê "na barba cada vez mais curta" e no "estilo vestimentário que mudou".

Mas para "a opinião pública e media" ele continua a ser "associado ao Islão radical e, portanto, é um inimigo de dentro" para os franceses, remata o perito em salafismo contemporâneo.

Reação de Castaner via Twitter

"Mandei aos Edis que reforcem a vigilância dos lugares de culto do país", tuìtou o ministro da Administração Interna, minutos depois da ocorrência.

Festival gratuito e para todos os estilos

"Capital da Música" desde há quase quarenta anos, todos os 21 de junho a inauguração da época estival é feita através da música — o cartaz turístico da cidade.

Famosa desde o século XIX pela ’Volta de Bicicleta Paris-Brest’ em 1200 km, a cidade mais a noroeste da França tem sido cantada em músicas que correram o mundo como "La tonnerre de Brest". A mesma que consta na expressão "mille millions de mille sabords de tonnerre de Brest" [traduzível por (entre outras possíveis): mil milhões de mil saídas de canhão de Brest] que os fãs de Tintin/Tintim conhecem na boca do irascível capitão Haddock.

A expressão é ainda um trocadilho entre um fenómeno atmosférico, a trovoada, e a designação popular dada à prisão local, por causa do troar dos canhões sempre que havia evasão de presos.

Note-se que de acordo com a historiografia em curso, da prisão de Brest partiram para as colónias muitos franceses condenados à morte. Foi-lhes dada a alternativa do degredo para as Antilhas francesas — embora fosse uma segunda oportunidade que nem todos almejavam.

Entre os degredados que escolhiam esse destino do sul também tenebroso, constaria o controverso francês que matou o irmão. Esse que a família nunca perdoou, como conta um governador luso que, há uns cem anos, resolveu após a sua comissão colonial visitar a família do degredado em Paris para só ouvir duma irmã do condenado que o nome dele fora riscado da família e que nunca mais seria pronunciado.

Esse francês degredado e degradado social e afetivamente — bem diferente do degredado político, que provinha da metrópole lusa — bisou a sua ’segunda chance’ quando o navio aportou ao Porto Grande e ele, decerto com alguma cumplicidade, rumou para uma das ilhas do sul de Cabo Verde, onde a sua descendência o mantém vivo.

Fontes (da notícia): AFP/Reuters/Huffpost. Fotos (AFP e Huffpost): Faces de Brest 27.6.2019 — Festival da Música, imã, mesquita. LS

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