ACTUALIDADE

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

França: Pena perpétua para assassino da lusodescendente de 8 anos 20 Fevereiro 2022

Maëlys Araújo, de 8 anos, filha de emigrantes portugueses em França, desapareceu durante a festa de casamento do tio na noite de 26 para 27 de agosto de 2017, na região do Jura, leste francês. O seu raptor e assassino, um ex-militar que a polícia identificou seis meses depois, ouviu esta sexta-feira a sua condenação à pena capital.

França: Pena perpétua para assassino da lusodescendente de 8 anos

Nordahl Lelandais, ex-técnico cinético (canino) no exército, reconheceu ser o autor do assassínio da criança que tinha raptado durante a festa de casamento, para a qual foi convidado na véspera pelo noivo, seu amigo de outrora. Mas continuou a alegar que a morte foi “acidental”.

Na última sessão do julgamento, o réu, de 38 anos, voltou a pedir perdão aos pais da sua vítima. Entre lágrimas, disse que "foi um acidente". Mas continuou a recusar dar detalhes sobre o trágico evento que provocou.

Foi em vão que Jennifer Araújo pediu que lhe falasse do que realmente aconteceu nessa madrugada trágica, das últimas palavras da filha. Foi a mãe que às três da manhã viu que a menina — deixada com outras crianças a cargo de babysitters contratadas para a festa — em poucos minutos tinha desaparecido.

A investigação apurou que Lelandais convidou a criança para ir ver os cães que estavam dentro do seu Audi A3. Câmaras de vídeo mostraram o veículo às 02H47 da madrugada a deixar o local. Pouco depois, regressou ao local da festa e "até ajudou na busca". Voltou a sair antes da chegada da polícia às 04H15.

6 meses depois, ex-militar confessa

A investigação policial teve Lelandais na sua mira, tal como muitos outros presentes na boda. Durante seis meses, Lelandais escapou, mas por fim a equipa forense encontrou no seu carro uma mancha de sangue que provou ser da menina desaparecida. O ex-soldado confessou aos investigadores que a menina tinha começado a chorar e ele, para a calar, a agredira na face várias vezes.

Enquanto decorria a investigação do caso Maëlys, o ex-técnico cinético (canino) confessou outros crimes. Revelou onde enterrara um soldado de 20 anos com quem entrou numa luta após um encontro num clube gay, em abril de 2017. Além disso, revelou ter violado duas crianças do seu círculo familiar, de cinco e seis anos.

No tribunal de Grenoble, Lelandais confessou que se tornou "viciado em pornografia", após ter contraído uma doença ocular que o fez deixar o exército. A prova: o seu telemóvel dotado dum aplicativo especial ocultava cento e trinta fotos pedopornográficas, uma das quais na lista da Interpol. Tinha-as apagado após abandonar na floresta o corpo sem vida da criança.

A sua presença na boda deu-se por acaso. Ele e o noivo eram amigos que não se viam havia uns seis anos quando se encontraram na véspera do casamento. O noivo convidou o ex-militar a aparecer, o que ele fez cerca da meia-noite. Mas o seu principal objetivo seria entregar cocaína a dois convidados que lhe tinham encomendado a droga.

"Posso ir ver os cães do meu amigo?"

Em entrevista ao Le Parisien e TF1, Jennifer Araújo afirmava esperar que ‘o outro’ — como se refere ao assassino "que atirou a vida à minha filha, que a jogou como lixo" — lhe contasse toda a verdade. "Vou olhá-lo nos olhos e pedir-lhe para me dizer tudo, toda a verdade". Isso não iria acontecer: Nordahl Lelandais repetiu a versão de que, na noite da festa do casamento, Maëlys entrou no seu carro para ir ver os seus cães, só que depois a menina entrou em pânico e ele deu-lhe uma bofetada que se revelou fatal.

Nessa entrevista no dia 31-1, na véspera do julgamento — que decorreu entre 1 e 19 deste mês — , Jennifer Araújo contou sobre o divórcio que se seguiu: "Não conseguimos superar esta tragédia e divorciámo-nos".

Disse sobre os últimos momentos com a filha: "Ela pediu-me ‘posso ir ver os cães do meu amigo?’ Eu achei estranho, e ela indica onde está ‘o outro’ na mesa dos noivos. Ela disse-me: ’É ele que tem os cães no seu telemóvel. E eu acompanhei-a até ele, foi a primeira vez que o vi".

"Pelas duas horas da madrugada, ela veio sentar-se ao meu colo. Eu perguntei-lhe se queria um pouco da sobremesa, dei-lhe um beijo no rosto. Foi a última vez que a vi", disse a mãe em lágrimas.

Sistema prisional em xeque

Além das questões sobre os crimes que só se tornam conhecidos após a confissão do seu autor, e puseram a nu as deficiências do sistema francês, emergiu por estes dias mais outra, reportada pela imprensa britânica.

Segundo o Times.co.uk, o detido dispunha de dois telemóveis e a namorada em visita conjugal levava-lhe cocaína e rum, como a própria confidenciou.

Fontes: Le Point/Guardian/... Fotos: Pais, Joaquim e Jennifer Araújo, e irmã de Maëlys, numa marcha-branca em Pont-de-Beauvoisin.

Os artigos mais recentes

100% Prático

publicidade


  • Mediateca
    Cap-vert

    Uhau

    Uhau

    blogs

    Copyright 2018 ASemana Online | Crédito: AK-Project