DIÁSPORA

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

França2022: Antes de se registar, já o querem desregistar — "Zemmour é inelegível por racismo" 08 Novembro 2021

A presidencial francesa acontece dentro de cinco meses e no Top-3 das sondagens — em que só a candidata lepenista se declarou — a segunda e terceira posições são ocupadas pela extrema-direita: Marine Le Pen e Eric Zemmour. A surpreendente ascensão do potencial candidato, um jornalista polemista islamófobo, está neste novembro a ser alvo de debate em que desponta a hipótese da sua inelegibilidade à luz da Constituição por ter sido condenado por injúrias racistas.

França2022: Antes de se registar, já o querem desregistar —

Em certos círculos académico-intelectuais franceses de amplo espectro político (centro, esquerda, direita) entende-se que essa inelegibilidade — com prazo definido — seria menos uma punição e mais uma oportunidade que a Justiça concederia a Eric Zemmour.

Inelegível por cinco anos, esse período de tempo seria o necessário para educar o futuro candidato presidencial nos valores democráticos.

Uma educação democrática necessária, dado o histórico de Zemmour que enquanto jornalista difundiu ao longo das últimas duas, três décadas, uma série de mensagens xenófobas, racistas, islamófobas, que têm tido eco num certo estrato da sociedade francesa, como demonstram as sondagens e as manifestações de eleitores (foto).

Eric Zemmour, de 68 anos, tem em nome duma egocêntrica "identidade francesa" vindo a apresentar propostas para a assimilação cultural dos imigrantes e descendentes. Entre elas, destaca-se a defesa que fez há pouco mais de um mês, em fins de setembro, da proibição de nomes estrangeiros nos assentos de nascimento e do seu "afrancesamento".

Sem mencionar o adversário, o presidente francês deu a resposta (foto). "A nossa identidade nunca assentou sobre o entrincheiramento nem sobre os nomes próprios me. sobre formas de crispação" e que "a França sempre escreveu a sua própria história mundial, universalmente".

Segundo Macron, o "epicentro" da Francofonia deixou de estar "nas margens do Sena" mas sem dúvida que está "mais na direção da bacia do rio do Congo".

Violação da liberdade de imprensa

Eric Zemmour foi diversas vezes condenado por "provocar a discriminação, o ódio racial, a violência racista. Porém só teve de pagar multas, cujo montante ascende a “alguns milhares de euros".

Em setembro de 2019, era notícia que "Eric Zemmour foi condenado em última instância por afirmações contra muçulmanos”, nomeadamente quando afirmou na estação France 5 que os muçulmanos tinham de fazer "a escolha entre o islão e a França".

Entre outras, a Justiça já o condenara em 2011 por ter declarado perante as câmaras de televisão que "a grande maioria de traficantes são negros e árabes, é isso mesmo, é um facto".

Em França questiona-se sobre o efeito que teria uma condenação mais firme, dissuasiva. A prisão firme é uma punição possível à luz da lei de imprensa de 2020 (com base na de 1881), que prevê "punir com um ano de prisão e 45 mil euros de multa" a difusão de imagens dum polícia ou militar "com a finalidade manifesta de que seja atacado na sua integridade física ou psíquica".

Contudo, os efeitos dessa condenação — mandar prender alguém por algo defensável como um seu direito — podem ser contraproducentes e os juízes têm sido muito parcos na sua aplicação.

Seria contraproducente, à luz do valor supremo que damos à liberdade de expressão, o condenar ao cárcere quem alega exercer a liberdade de expressão inerente à liberdade de imprensa.

Com isso, o preso passaria a mártir e com essa aura tornar-se-ia um novo Mandela. Uma aura, sublinhe-se, imerecida para o reincidente, virulento na sua mensagem de ódio, em tudo oposto à mensagem de construção que esperamos de quem usa do verbo para melhorar a nossa sociedade (cada vez mais glocal).
— -
Nota: Sita na Diáspora, interpretando-a como lugar do diálogo com quem ficou (ou já voltou).

Os artigos mais recentes

100% Prático

publicidade


  • Mediateca
    Cap-vert

    Uhau

    Uhau

    blogs

    Copyright 2018 ASemana Online | Crédito: AK-Project