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Gafanhotos no prato: Portugal dá luz-verde a insetos comestíveis 30 Junho 2021

A plataforma internacional de empresas ligadas à produção de insetos para a alimentação humana e animal obteve a sua primeira vitória em Portugal com a autorização que a DGAV-Direção-Geral de Alimentação e Veterinária emitiu esta segunda-feira, 28, para a inclusão de sete variedades de insetos na lista alimentar.

Gafanhotos no prato: Portugal dá luz-verde a insetos comestíveis

Larvas, gafanhotos e outros insetos que são alimentos comuns em outras culturas vão agora poder ser encontrados também em alguns supermercados e em algumas iguarias no prato dos portugueses. A DGAV autorizou a produção de duas espécies de grilo, uma de besouro, duas de larvas e duas de gafanhotos.

"No âmbito do artigo 35º – medidas transitórias – do Regulamento 2283/2015, relativo a novos alimentos, é possível comercializar insectos que cumpram as seguintes condições:. Terem sido legalmente colocado no mercado, num país da EU, antes de 1 de janeiro de 2018", lê-se no respetivo site.

Segundo os promotores da introdução dos insetos comestíveis na dieta, estes contêm "proteínas de alta qualidade, vitaminas e aminoácidos" indispensáveis aos humanos.

A vantagem na produção alimentar é grande, comparada à produção de carne convencional. Os insetos precisam de seis vezes menos de alimento que o gado bovino, quatro vezes menos que o ovino e duas vezes menos que os suínos e galináceos.

Estes dados encontram-se nos sites: www.dgav.pt/destaques/noticias/colocacao-no-mercado-de-insetos; www.fao.org/edible-insects; International Platform of Insects for Food and Feed-IPIFF.org.

Janela de oportunidade?

No último setembro, vimos qualquer pequeno canteiro de plantas tornar-se pousada de gafanhotos, insetos saltitões difíceis de apanhar. Do deserto saariano chegam-nos em hordas agressivas, em certas condições ambientais de mudança como a passagem de um longo período de seca para uma chuvada súbita.

A ’Janela de oportunidade’ explica-se assim, segundo a entomologia, ciência dos insetos: os gafanhotos como Acrididae, da família dos ácrides, pertencem à mesma família dos camarões. Camarões do mar, mariscos apreciados e de preço elevado. E mais sazonais os de água-doce, como os das nossas “passagens de água”, loci amoeni que são palco de trovas brejeiras.

Ciclo migratório

O comportamento dos gafanhotos, dependente da fase em que o saltitão se encontra no seu desenvolvimento e das condições ambientais, tanto pode ser inócuo como prejudicial à atividade agrícola.

São em geral animais solitários, nas condições ambientais sem mudanças significativas. Mas se ocorrer uma mudança como um longo período de seca seguido duma chuvada súbita que faz surgir uma densa vegetação, os solitários tornam-se gregários, além de que se dá uma mudança morfológica que os faz procurar mais fontes alimentares.

Em busca de fontes alimentares, os mais robustos tornam-se então migratórios, o que explica as invasões de pragas em Cabo Verde vindas do Saara.

Úteis e inofensivos, sem qualquer sombra de ameaça para as culturas, é como surgem na descrição bíblica de Marcos. No Êxodo, ao contrário, a sua aparição surge como uma das sete pragas do Egipto. Mais adiante, conta Marcos no seu evangelho que no deserto foram alimento para João Batista (perdido o ’p’ que não se diz). “João Batista apareceu no deserto e pregava”, “alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre”.

Regime alimentar. A descrição factual desse modus vivendi nada nos diz sobre se esse regime alimentar era ou não condenável. Necessário era, para quem no deserto não teria outras fontes de proteínas necessárias à vida.

E isso explicará o porquê de em certas regiões do mundo, como o Norte de África, Próximo de Médio Oriente, Arábia, partes da Ásia, se continuar ainda hoje a comer gafanhotos — sob diversos modos de confeção, mas de preferência assados, fritos, fumados.

Vejam-se as célebres espetadas num restaurante de Beijing/Pequim (foto). A capital chinesa terá capitalizado o conhecimento de mais de três mil anos.

Extermínios. Em contraponto, fontes históricas indicam que no século nono antes de Cristo havia na China oficiais reais que tinham a missão de combater as pragas de gafanhotos.

Esse combate há três milénios não anda muito longe da brigada de extermínio ordenada sazonalmente pelas autoridades. Ou da “matança de gafanhotos”, para a qual a administração chamava a população da Boa Vista nos anos de 1930-40, e que na morna “Maria Barba” a cantadeira desse nome (Maria Bárbara) invoca para interromper a serenata da despedida do tenente ’metropolitano’.
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Fontes: Referidas/ Literárias e históricas e da cultura nacional. Relacionado: Gafanhotos – Matança? Janela de oportunidade?, 02.set.019; Praga de gafanhotos continua — Sudão prepara-se para receber ’inimigos’ da segurança alimentar, 03.fev.020. Fotos: Gafanhoto, ao centro, da família Acrididae, como o camarão, ao alto. Em formato espetadas e outros em Pequim.

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