MUNDO INSÓLITO

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Geólogo "branco" e esposo "preto" da ex-escrava Ada que só soube por carta póstuma 20 Mar�o 2021

A ama de crianças Ada e o carregador James Todd casaram em 1888, pouco depois do seu primeiro encontro, numa rua de Brooklin onde ela morava. Ele apresentou-se como "negro" de pele branca e olhos e cabelos claros. Os casamentos inter-raciais eram proibidos e durante 13 anos — até à revelação feita em carta, entregue após a morte dele, por tuberculose, em 1901 — Ada e os cinco filhos desconheciam que o marido e pai James Todd, "negro" e humilde bagageiro da empresa Pullman, era afinal o "branco" Clarence James King (1842–1901), primeiro diretor da Sociedade de Geologia dos Estados Unidos.

Geólogo

As fronteiras inter-raciais são ténues, ainda mais nos contextos pós-escravocratas. Como no Brasil, Portugal ou Cabo Verde e também nos Estados Unidos da chamada ’época dourada’ (Gilded Age, 1870-1910), ilustrado pela biografia do famoso cientista Clarence King que apesar de "branco" de olhos azuis e cabelos louros pôde passar por "preto", incontestavelmente.

Os livros de Clarence James King — Report of the Geological Exploration of the Fortieth Parallel, Clarence King Memoirs, entre outros — retratam-no como o ideólogo de "uma nação americana sem raças", tese que defendia em público.

Teórico da "igualdade", todavia o homem da classe alta de Boston, dos clubes de Manhattan e amigo íntimo de governantes, "não teve a coragem" de assumir que praticava o que pregava: casou com uma mulher "preta", ex-escrava que emigrara do Sul para Nova Iorque, e tinha cinco filhos mestiços.

Como disse o seu amigo, John Hay que foi ministro de Abraham Lincoln, "seria uma vergonha, um escândalo social de que ele jamais reergueria. A nossa sociedade teria sido tolerante, se ele tivesse escolhido uma nativa polinésia semi-selvagem. Uma negra, nunca".

Encontro na rua, casamento na igreja do reverendo James H. Cook, vida dupla entre Brooklin e Manhattan

A viver em Brooklin, Nova Iorque, a ama de crianças Ada era uma ex-escrava nascida provavelmente na Geórgia e que cerca de 1885 integrou o contingente dos recém-libertos que emigraram para o norte industrial.

Os historiadores dão-na como nascida entre 1860 e 1870. Certezas só existem acerca das datas do casamento, setembro de 1888, e do óbito, 14 de abril de 1964 (o que torna quase improvável o nascimento em 1860).

Provedor de duas famílias

O marido de Ada em Brooklin era também o chefe de uma família "branca", da burguesia de Newport, Nova Inglaterra. Era Clarence que, desde 1866, sustentava a mãe duas vezes viúva e as duas meias-irmãs nascidas do casamento com George S. Howland em 1860.

Em 1848, como registado nas memórias do filho primogénito, tinha morrido o pai de Clarence, numa viagem de negócios à China. No mesmo ano, a família perdeu os dois únicos irmãos de Clarence.

Foi o padrasto Howland que pagou os estudos de Clarence, na Sheffield Scientific School-Yale College entre 1860 e 1862, e o salvou da depressão em que mergulhara adolescente quando os negócios da família faliram em 1857. Não admira que em 1866, ao saber da morte do padrasto, tenha interrompido a expedição iniciada em 1882 na área da Serra Nevada e regressou à Nova Iorque para o enterro.

Ao assumir o novo papel de chefe de família e, mais tarde ainda mais ao acumular duas famílias, Clarence iria "viver o resto dos seus dias, revelam vários historiadores, a recorrer à bolsa dos amigos ricos. Entre eles, John Hay, Henry Adams, o filho e bisneto de dois presidentes dos Estados Unidos".

Geólogo

Clarence King formou-se em geologia e física e especializou-se em química aplicada em Yale, com o grau de licenciado em 1862. O encontro com geõlogos de renoe foi determinane para a sua viragem científica: apoiado por... .... decidiu que ia ser naturista, geólogo e explorador.

Entre 1867 e 1872, King liderou o Inquérito ao Paralelo 40/ Fortieth Parallel Survey, que fez a primeira descrição geológica do oeste dos Estados Unidos, desde o norte da Califórnia, através da Serra Nevada e até ao leste do Wyoming.

Em 1879, o ministro (secretary) da Guerra autorizou a criação da United States Geological Survey/Sociedade de Geologia dos Estados Unidos e Clarence King, nove anos antes de passar a viver como homem duplicado, foi indicado como o seu primeiro diretor até 1881.

Dois filhos ’negros’, duas filhas ’brancas’

Na cromoestratificada América, "Negro/preto", "branco" são categorias em constante mudança, como qualquer recém chegado aos Estados Unidos se apercebe ao preencher o seu primeiro formulário oficial.

A fronteira ténue em 2021 pouco difere da de 1921, ano em que as duas filhas da "preta" Ada foram declaradas "brancas", após provarem que o eram com apresentação de testemunhas "brancas".

Ambas casaram com homens brancos, entraram para a classe dos privilegiados. Uma delas preferiu adotar crianças brancas, como disse a mãe, Ada, numa entrevista dos anos de 1950 ... e a História perdeu-lhes o rasto.

Sorte diferente tiveram os dois irmãos, classificados doravante como "pretos/negros", uma designação que desde o fim da década de 1880 englobava as anteriores categoriais raciais de mulato, mestiço,... Mais tarde, depois de regressarem da I Guerra Mundial e voltarem a viver com a mãe em Brooklin, acabaram por ser legalizados com a recém-recuperada classificação de "mulato".

Nem o nome se sabe dum deles. Mas Wallace Copeland-Todd foi notícia ao lado da mãe em 1933, na famosa contenda da herança de Clarence King — que nunca viram.

Estado negou entregar herança? Hay foi benévolo?

Ada Copeland King seguindo as indicações da carta póstuma — que Clarence redigiu longe de casa no Arizona in limine no leito da morte — reclamou os títulos do tesouro para si e os quatro filhos sobrevivos.

A viúva debalde lutou trinta anos na justiça. A última tentativa foi em 1933, quando deu entrada a mais uma queixa contra os executores testamentários de Clarence King. Ela alegava que o defunto marido tinha um património considerável, mas que foi negado à viúva e órfãos dele.

O Juiz Shientag declarou que Clarence King tinha morrido pobre. Ficou assim definitivamente decidida a contenda, em favor do executor testamentário John Hay, amigo íntimo de King e ex-ministro do presidente Lincoln até à morte por assassinato do 16º presidente dos EUA em 1865.

Hay é tido como um amigo que preservou a memória de King e evitou o escândalo de se saber do seu casamento inter-racial. Desde 1901 e até morrer em 1905, Hay sustentou a viúva de King e os seus quatro filhos sobrevivos. Passou a obrigação para a filha Helen Hay Witney, que a manteve até a descontinuar possivelmente em 1933.

Os historiadores, até agora, não se detiveram na questão de saber se havia ou não herança de Clarence King. Se Hay e a filha foram generosos durante tanto tempo e em que montantes. Uma "mente brilhante, o maior cientista dos Estados Unidos" teria mentido no seu leito de morte, na sua última carta?


Pelos jornais

A historiadora Martha Sandweiss relata: "Em 1900, como sabemos por um artigo de jornal, Ada deu uma festa em casa. Uma "festa de mascarados" teve a cobertura jornalística negra. Acredito que, soubesse ela que o marido não era negro, jamais teria permitido tal escrutínio da sua vida privada".

Fontes: Sites online /Bibiografia referida. Fotos: O cientista Clarence King em 1889. Retrato imaginado de Ada na juventude. Ada e o filho em 1933. Mais de 10 mil bagageiros e 200 empregadas da companhia ferroviária Pullman eram na sua maioria ex-escravos de várias categorias raciais que depois seriam classificados todos como "negros" e originariam a classe-média negra. Os viajantes podiam dar-se à ilusão de serem senhores com serviçais, o que era uma experiência inédita para a classe-média branca dos Estados Unidos.

Os artigos mais recentes

100% Prático

publicidade


  • Mediateca
    Cap-vert

    Uhau

    Uhau

    blogs

    Copyright 2018 ASemana Online | Crédito: AK-Project