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Gualberto do Rosário analisa impato da pandemia de Covid-19 na economia: “Se não fosse o turismo, Cabo Verde estaria no grupo dos paises mais pobres do mundo" 07 Mar�o 2021

O Presidente da Câmara do Turismo de Cabo Verde defende que a primeira medida que se deve tomar, quando se fala da retoma do turismo, é a de garantir a segurança sanitária do país, a começar pelas emergências médico-sanitárias, na perspetiva do turismo, e terminar na vacinação massiva da população. Em entrevista exclusiva ao jornal Asemana, Gualberto do Rosário, que foi Primeiro-minisitro na década de 90, afirmou que se essas medidas não forem tomadas, «a economia continuará a sofrer um choque», com todas as suas consequências, realçando que « se não fosse o turismo, este país (Cabo Verde) estaria no grupo dos mais pobres do mundo".

Entrevista conduzida por: Luciana da Cruz/Redação

Gualberto do Rosário analisa impato da pandemia de Covid-19 na economia: “Se não fosse o turismo, Cabo Verde estaria no grupo dos paises mais pobres do mundo

Asemanaonline - O que a pandemia trouxe de negativo à economia cabo-verdiana?

Gualberto do Rosário - Trouxe tudo o que é imaginável. Cabo Verde tem uma economia pequena, insular e arquipelágica. Nas economias deste tipo, a tendência é para os países se especializarem num número muito reduzido de atividades económicas. A maior parte dos pequenos países insulares tem como eixo principal e dominante da sua economia as atividades que resultam do consumo induzido pelo fenómeno turístico. É esta procura induzida pelo turismo que determina a oferta dos mais variados setores da economia, da hotelaria à restauração, da agricultura às pescas, da indústria à oferta cultural, do comércio às atividades lúdicas. E o turismo é ainda responsável pela grande dinâmica induzida pelas viagens no domínio dos transportes: movimentos aeroportuários e geração das mais diferentes taxas, comercialização/exportação de petróleo, prestação de serviços vários nos aeroportos, tais como serviços financeiros, de restauração, de comércio, etc. Obviamente que tudo isto cria muitos empregos e, no limite, significa rendimento para as famílias, o que estimula o consumo e, obviamente, a produção. Estes efeitos determinados pelo fenómeno turístico não se resumem às ilhas ditas turísticas: impactam diretamente a economia nacional no seu todo. Por exemplo, impactam diretamente a agricultura, a pecuária, as pescas, o artesanato, os transportes, em todas as ilhas. Impactam as finanças públicas significativamente, as receitas de exportação, em elevado grau, e a Balança de Pagamentos. Impactam, e de que maneira, o emprego e as condições sociais, de modo geral. E têm efeitos notáveis no domínio da dinâmica empresarial, nomeadamente no que respeita às micro, pequenas e médias empresas.

Pode-se, então, perceber que a pandemia, ao determinar a forte deterioração das condições de segurança sanitária, absolutamente necessárias para que haja turismo, significou um crescimento negativo do Produto Interno Bruto, que se estima entre 11% e 15%, em 2020. Se somar aos 15% os 5% ou 6% que deveria ser o crescimento do PIB em 2020, na ausência de pandemia e em condições normais, conclui ser um choque violentíssimo, negativo, de 20% ou mais, com efeitos diretos no emprego e em todos os domínios sociais, designadamente na pobreza. É um enorme prejuízo.

A Câmara já fez um balanço das empresas que estão a funcionar em regime de lay-off ou que encerraram as portas?

- Não. A Câmara de Turismo não tem este inventário. Até porque o choque não se resume apenas às empresas entendidas como turísticas. O choque é geral e atinge, direta ou indiretamente, a todos.

Medidas para a retoma do turismo

O que Cabo Verde deve começar a fazer para a retoma, de uma forma segura, de um sector fulcral para a economia cabo-verdiana, o turismo?

- A primeira e mais importante medida é a garantia da segurança sanitária. Neste domínio, há tudo por fazer. A começar pelas emergências médico-sanitárias, na perspetiva do turismo, e a terminar na vacinação massiva da população, para reduzir a vulnerabilidade dos residentes ao vírus e, assim, à propagação do Covid-19.

Enquanto isto não se fizer, a economia continuará a sofrer o choque, com todas as suas consequências. Se for feita tempestivamente, ou seja, se fizermos parte do conjunto de países que estarão na linha da frente dos considerados seguros do ponto de vista sanitário, arrancaremos com forte dinâmica. Porém, se tal não acontecer, ficaremos para trás e a retoma será incompleta e muito lenta.

Deve-se apostar na imagem, na qualidade e segurança, já que o mundo está cada vez mais competitivo e os turistas poderão procurar um lugar onde confiam e se sentem seguros?

- Evidentemente. Mas a imagem, o ‘marketing’ só resulta se refletirem uma realidade efetiva. De outra forma é perda de tempo e de dinheiro.

Em relação aos projetos que tinha para fazer antes do vírus nas ilhas do Sal e Boavista, como ficarão?

- Creio que todos os promotores de projetos os mantêm. Alguns estão a ser desenvolvidos. Outros, em preparação. Os investidores, de modo geral, continuam a acreditar em Cabo Verde. No domínio do turismo, o país reúne um potencial notável, ainda muito longe de ser minimamente explorado.

Futuro da Cabo Verde Airlines e aumento de desemprego com fim de lay-off

Muitas das companhias não estão a trabalhar neste período. Acredita que a Cabo Verde Airlines pode sobreviver a esta crise?

- O futuro da Cabo Verde Airlines depende dos seus acionistas. Seguramente, também depende do governo, pelo facto de o Estado continuar a ser o segundo maior acionista e pelo facto de o governo ser a instituição responsável pela política dos transportes. A pandemia suspendeu as condições gerais, neste domínio, mas não as eliminou. Regressando a normalidade, o que é expectável é que a CVA retome os seus projetos, incluindo a sua participação na construção da plataforma aérea. Há aspetos a corrigir, certamente. Não se pode, por exemplo, construir uma plataforma com aviões descontinuados: pelo contrário, é necessário apostar no que de melhor existe em termos de mercado, de procura e, consequentemente, em termos de qualidade da oferta.

Acredita que as coisas possam piorar depois do regime lay-off terminar, poderá haver despedimento coletivo de trabalhadores?

- Eu acredito que, na ausência de vacinação massiva da população, a situação se degradará a um nível que prefiro não dramatizar. Prefiro ser positivo e acreditar que as autoridades cabo-verdianas sabem o que fazem por isso, tomarão as medidas adequadas e em tempo oportuno.

Como viver na ilha do Sal e Boa Vista sem turistas?

- É impossível, no presente, viver em Cabo Verde sem turismo. Se não fosse o turismo, este país estaria no grupo dos mais pobres do mundo, com taxas de desemprego incomensuráveis e com a miséria a bater à porta da maioria esmagadora das famílias cabo-verdianas. Nesta conjuntura, vamo-nos safando com medidas que são, na essência, paliativas, como o lay-off, as moratórias de crédito, etc. São medidas boas, para dar tempo e não tirar o fôlego necessário para se tomarem medidas adequadas na perspetiva de projetar e dinamizar a retoma. Mas são absolutamente insustentáveis no médio prazo.

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