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Guerra Rússia/Ucrânia: Irracional, isolado ou descontrolado? Todos querem saber qual o estado mental de Putin 03 Mar�o 2022

Para a comunidade de informações norte-americana, avaliar o estado mental do presidente russo Vladimir Putin tornou-se uma prioridade máxima nos últimos dias, para tentarem estabelecer como isso afeta a forma como ele lida com o rápido aumento da crise ucraniana, de acordo com duas fontes que conhecem o meio.

Guerra Rússia/Ucrânia: Irracional, isolado ou descontrolado? Todos querem saber qual o estado mental de Putin

Os esforços surgem depois de observadores de longa data de Putin terem especulado publicamente que o seu comportamento se tornou cada vez mais errático e irracional. Desde que iniciou a invasão russa à Ucrânia, na passada quinta-feira, agentes seniores norte-americanos pediram às agências de informação para reunirem todos os dados que conseguissem sobre a forma como o líder russo está a lidar com a situação e como a sua mentalidade tem sido afetada pela inesperada resposta unificada e resistente dos vizinhos europeus e aliados de todo o mundo.

A comunidade de informações norte-americana passou décadas a decifrar o antigo agente da KGB, que governa a Rússia desde 1999. Mas apesar de os Estados Unidos terem um enorme conhecimento institucional sobre o homem, têm uma visão muito pobre sobre as decisões que este toma diariamente. O Kremlin continua a ser o que os agentes de informação chamam de “alvo difícil”. É incrivelmente difícil penetrar a espionagem tradicional.

Não houve nenhuma nova avaliação que indique uma mudança específica na saúde de Putin, disse um agente norte-americano. Os agentes têm estado atentos à possibilidade de a estratégia de Putin poder ser a de criar instabilidade, para tentar que os EUA e os aliados lhe deem o que ele quer, com receio de que faça pior.

Mas o súbito interesse reflete uma sensação existente entre alguns agentes de informação, de que a tomada de decisões de Putin na Ucrânia não tem sido coerente com a sua personalidade, talvez devido ao que alguns relatórios anteriores sugerem ter sido um isolamento prolongado durante a pandemia da covid-19.

“Tudo o que os EUA têm (está) no domínio das conjeturas porque as decisões e declarações de Putin não parecem fazer sentido”, disse uma fonte familiarizada com os recentes relatórios sobre o tópico. “Durante anos, décadas, Putin tem agido segundo um padrão bastante específico”.

Numa nota informativa confidencial para legisladores, na segunda-feira à noite, Avril Haines, diretor dos Serviços Nacionais de Informações, disse que a comunidade norte-americana não tem uma boa perceção do estado mental de Putin, segundo um legislador que esteve presente.

O senador republicano Chuck Grassley, do Iowa, que participou na reunião no Senado, confirmou que o estado mental de Putin tinha sido mencionado, mas não quis elaborar o que foi partilhado.

Contudo, ele disse que, independentemente da reunião, está preocupado com o estado da mente de Putin.

O que dizem as avaliações

A comunidade de informações tem realizado avaliações de relatórios de informações não corroboradas a partir de fontes que relatam dados sobre a guerra. Um dos relatórios que tem circulado por mais de uma dúzia de agências cita uma fonte que tem dito que o comportamento de Putin se tornou “altamente preocupante e imprevisível” nos últimos dois dias, de acordo com uma cópia obtida pela CNN.

Mas, uma indicação do quão difícil é obter esta informação diretamente, a descrição chegou ao FBI em segunda mão, de uma fonte que falou com uma outra fonte desconhecida com “excelente acesso”. O relatório constata que esta pessoa tinha, no passado, fornecido informações que as agências conseguiram corroborar de forma independente.

A fonte por detrás do relatório disse ao FBI que Putin “manifestou uma raiva extrema” quanto às sanções ocidentais aplicadas em resposta ao seu ataque contra a Ucrânia e “sentiu que as sanções pioraram a situação ainda mais rapidamente do que o esperado, além do que considera apropriado”. Não se sabe que sanções específicas enfureceram Putin, essa parte do relatório foi eliminada.

O relatório também constata que a circulação de informações precisas sobre a guerra tem sido extremamente limitada dentro da Rússia, mesmo nos mais altos níveis da sociedade.

Por exemplo, muitas pessoas e indivíduos com boas ligações e meios para deixar a Rússia antes de os aeroportos e fronteiras serem fechados, permaneceram no país, segundo o relatório, o que sugere que eles não teriam conhecimento do seu encerramento.

O relatório, que teve origem no FBI, tinha duas advertências: reconhece que a fonte que forneceu a informação ao FBI “pode ter fornecido a informação para influenciar e informar” a tomada de decisões dos EUA. Por outras palavras, pode ser uma operação de informação concebida para manipular os Estados Unidos.

E os agentes alertam que a informação não corroborada não deveria ser considerada como facto. Não foi avaliada a sua fiabilidade ou analisadas as suas implicações.

Mesmo assim, o relatório tem feito com que outras agências da Administração Biden peçam ao FBI para manter o contacto com esta fonte para informações adicionais.

O gabinete dos Serviços Nacionais de Informações, a CIA e o FBI recusaram-se a fazer comentários.

Uma longa história

A especulação sobre a saúde mental de Putin começou depois de este ter feito um discurso na quinta-feira, apresentando uma história distorcida e revisionista que supostamente justificava a sua intervenção na Ucrânia. O senador Marco Rubio, um republicano da Florida, tweetou na sexta-feira que Putin "sempre foi um assassino, mas o seu problema agora é diferente e significativo" e sugeriu que estava a basear a sua avaliação nas informações que lhe foram dadas como vice-presidente do Comité de Informações do Senado.

"Quem me dera poder partilhar mais, mas por agora posso dizer que é bastante óbvio para muitos que algo de errado se passa com #Putin", escreveu Rubio. "Seria um erro presumir que este Putin reagiria da mesma forma que reagiria há 5 anos atrás".

Para alguns, a ousadia da decisão de Putin de invadir, assim como a sua ameaça implícita de armas nucleares, é uma rutura com as campanhas militares cuidadosamente calculadas e muito mais limitadas do passado. As imagens de vídeo do presidente russo sentado a dezenas de metros de distância dos seus conselheiros militares superiores durante as reuniões e, alegremente, a dar uma reprimenda a um dos responsáveis por espionagem na televisão, apenas sublinharam a imagem de um líder isolado, agindo apenas com o seu próprio consentimento.

No domingo, as comportas abriram-se. O antigo embaixador na Rússia, Michael McFaul, tweetou que Putin tinha "mudado" e soava "completamente desligado da realidade" e "descontrolado". O antigo diretor dos Serviços Nacionais de Informações, Jim Clapper, um analista de Segurança Nacional na CNN, também chamou Putin de "descontrolado" e avisou: "Preocupo-me com a sua acuidade e equilíbrio".

Outros observadores de longa data de Putin argumentam que as recentes ações do presidente russo são relativamente consistentes com o homem em quem os serviços secretos norte-americanos se fixaram durante décadas, observando que há muito que ele tem demonstrado uma vontade de arriscar a derrota militar em operações que os Estados Unidos pensavam não oferecer qualquer hipótese de sucesso, incluindo ordenar uma segunda invasão da Chechénia em 1999, apenas três anos após os militares russos terem sido ali derrotados.

"Isto não é diferente de tudo o que ele disse anteriormente, apenas está a dizer tudo de uma só vez de uma forma muito dura. E está disposto a fazer coisas indescritíveis, mas ele sempre esteve disposto a fazer coisas indescritíveis", disse Beth Sanner, uma antiga assessora do então Presidente Donald Trump e analista de Segurança Nacional da CNN.

Putin não está " louco ou descontrolado", disse Sanner. Em vez disso, disse ela, estava "altamente emocional neste momento por causa do que estava prestes a iniciar ... e tem estado muito, muito isolado, o que contribui para essa sensação emocional. Mas não creio que ele seja louco".

Um agente norte-americano reforçou essa avaliação à CNN, argumentando que Putin está a agir de uma forma que há muito tempo tem mostrado ser capaz de fazer. Em vez de uma mudança na sua acuidade mental, afirmou, os funcionários acreditam que ele ficou simplesmente enfurecido, fazendo com que fosse impossível os seus conselheiros superiores darem-lhe avaliações francas.

Mesmo o seu comando para colocar as forças de dissuasão nuclear da Rússia em alerta máximo, no domingo, não é inédito. Em 2014, quando Putin anexou a Crimeia, também levantou a possibilidade de colocar as suas forças nucleares em alerta máximo, o que, na altura, tal como agora, fez surgir a especulação de armas nucleares poderem vir a serem introduzidas no conflito.

A doutrina nuclear russa, publicada em 2020, inclui também uma política nuclear de utilização em primeiro lugar. O Kremlin "reserva-se o direito de utilizar armas nucleares", incluindo "para prevenção de uma intensificação de ações militares e o seu termo em condições aceitáveis para a Federação Russa e/ou os seus aliados".

Ainda assim, uma fonte familiarizada com os recentes relatórios de informação sobre o tema disse que é "difícil chegar a uma conclusão de confiança quanto ao estado mental de Putin. Seria necessário SIGINT de um telefonema/vídeo do líder a perder a cabeça no seu gabinete ou algo do género".

SIGINT, ou "sinais de informação", é um termo da comunidade de informação que se refere a comunicações intercetadas.

"A comunicação em tempo real entre os líderes do gabinete russo", afirmou, é um "alvo muito difícil".

Em última análise, este e outros agentes dizem que compreender o comportamento recente de Putin é uma questão de análise, não de informação. É possível que nunca venham a ter uma resposta, dizem os agentes.

Kylie Atwood e Lauren Fox da CNN contribuíram para este artigo.

C/CNN Portugal; Getty Images

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