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Guerra na Ucrânia: Putin quer recriar o Império Russo, não a União Soviética, diz biógrafo 03 Abril 2022

Vladimir Putin é um dos políticos mais midiáticos das últimas décadas e, ao mesmo tempo, um dos mais enigmáticos.

Guerra na Ucrânia: Putin quer recriar o Império Russo, não a União Soviética, diz biógrafo

O que está por trás do homem que desencadeou uma crise global? O que o motiva? A quem alguém com tanto poder respeita?

O jornalista Steven Lee Myers trabalhou sete anos como correspondente do jornal americano The New York Times em Moscou. Durante este tempo, pôde conhecer e entrevistar Vladimir Putin, assim como analisar sua ascensão no poder.

Em entrevista à BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC, Myers descreve Putin como alguém para quem a ordem e a estabilidade são muito importantes, com um compromisso "quase religioso" com seu país e que guarda ressentimentos em relação ao Ocidente.

Na conversa, Myers diz o que motiva Putin, o que se sabe sobre seu círculo mais próximo e que cenários podem estar à sua espera na guerra com a Ucrânia.

Myers, autor da biografia O novo Czar: ascensão e reinado de Vladimir Putin, é atualmente editor-chefe da redação do jornal The New York Times em Pequim.

BBC News Mundo -Você se referiu a Putin como "alguém que sempre vence", o que você quer dizer?

Steven Lee Myers - Quero dizer que, durante os 22 anos em que ele tem estado no poder, houve várias vezes em que as pessoas pensaram que este homem não conseguiria sobreviver aos desafios que precisou enfrentar.

Inicialmente, foi a guerra na Chechênia. Em seguida, foi recebido com protestos quando voltou à presidência depois de exercer o cargo de primeiro-ministro. Houve protestos em massa. A certa altura, havia um milhão de pessoas nas ruas de Moscou. As pessoas diziam: "Como é possível sobreviver a isso?"

Depois, após a anexação da Crimeia em 2014, a economia russa sofreu muito. O valor do rublo caiu drasticamente e nunca se recuperou. No entanto, Putin conseguiu permanecer no poder e, de certa forma, conseguiu seguir sendo uma figura forte.

Então é isso que quero dizer, até agora, Putin conseguiu decepcionar aqueles que têm a expectativa de que ele se veja obrigado a deixar o poder.

BBC News Mundo -Como é um encontro cara a cara com Putin?

Myers - Depende muito da pessoa e talvez também das circunstâncias. Quando o conheci, estava cobrindo a Rússia há algum tempo, então eu já estava bastante familiarizado com ele. Ele é muito bom de papo, algumas pessoas atribuem isso à sua carreira na KGB. Chega às suas reuniões extremamente bem preparado.

É capaz de se lembrar de estatísticas e falar sobre vários assuntos com um nível de detalhe incrível, de forma espontânea, sem anotações. É uma pessoa bastante perspicaz, e também pode ser um pouco irritável, temos visto seus ataques de raiva, suas explosões. Ele sempre teve, mas parece que agora tem mais.

Veja o discurso dele alguns dias atrás, em que usou palavras como "escória" e "traidores". Este tipo de linguagem sempre pontuou seus comentários, mas parece estar mais marcante agora do que antes.

Mas olha, algumas pessoas o conhecem e ficam encantadas com esse estilo, com a forma como se envolve na conversa, faz você se sentir ouvido. Pessoas que o conhecem muito mais do que eu, como Angela Merkel, por exemplo, disseram a Obama durante a crise da Crimeia que Putin vivia em outro mundo.

Um conselheiro de Macron disse há alguns dias algo semelhante. Então, eu acho que há essa sensação de que Putin é, não digamos delirante, mas que simplesmente vê o mundo de uma perspectiva diferente das pessoas que lidam com ele.

BBC News Mundo -Há algum evento na infância ou juventude de Putin que tenha marcado sua visão de mundo?

Myers - Há várias coisas... Começo meu livro falando sobre o pai de Putin e sua experiência na Segunda Guerra Mundial. Ele foi um soldado que lutou no cerco de Leningrado, um conflito absolutamente horrendo em que milhões de pessoas morreram.

A guerra atingiu quase todas as famílias da União Soviética, e isso permanece na memória histórica de sua cultura até hoje. Acho que, de certa maneira, não nos damos conta de que o único país que teve um nível semelhante de destruição foi a própria Alemanha.

Ele cresceu em uma época em que a União Soviética começou a prestar homenagem a este esforço. A União Soviética, Stálin, não importa o que você pense deles, derrotaram a Alemanha nazista. É preciso dar crédito a eles por isso.

Acredito que essa experiência, essa mitologia em torno da guerra, é algo com que Putin cresceu e é fundamental para seu caráter. Há também uma história que ele mesmo conta, e não se sabe o quanto dela é verdade.

Ele fala sobre um livro e uma série de 1968 chamada O Escudo e a Espada. Era uma série de guerra em que havia um personagem que era como um espião infiltrado no exército nazista e que ajudou a vencer a guerra.

Putin adorou a série e disse que ficou tão emocionado que imediatamente tentou se alistar na KGB, mesmo ainda sendo muito jovem. Então, isso fazia parte de sua ideia de servir a esta grande causa contra os nazistas, que, como temos visto, também faz parte de seu discurso na guerra de hoje contra a Ucrânia.

BBC News Mundo -O que motiva Putin, o que o move?

Myers - Muita gente pensa erroneamente que Putin está tentando recriar a União Soviética. Acho que não é isso que o motiva.

Acho que ele tem uma obsessão particular pela Ucrânia. Isso tampouco é novidade. Remonta ao início de seu mandato na presidência e vem à tona sempre que a Ucrânia parece sair da órbita da Rússia.

Não é simplesmente que a Ucrânia vai aderir à Otan. É mais complicado do que isso. Acho que ele vê a Ucrânia literalmente como parte do Estado russo.

Em 2008, Putin disse a George Bush que a Ucrânia nem sequer era um país, e no ano passado ele repetiu isso no ensaio e no discurso que fez como prelúdio deste conflito.

Não acho que ele queira recriar a União Soviética, acho que ele quer recriar algo muito mais antigo: o Império Russo.

Algumas das declarações que ele deu nos últimos dias evocam de alguma forma um senso de missão sagrada, para defender o estado sagrado russo de uma maneira quase religiosa.

As origens da ortodoxia russa remontam ao que hoje é a Ucrânia, e pode-se dizer que o estado russo nasceu a partir da Ucrânia. Portanto, ele não vê a Ucrânia como um país distinto, mas como algo integrado à Rússia.

BBC News Mundo -Você retrata Putin como alguém para quem a estabilidade e a ordem são muito importantes. Como isso se reflete em sua maneira de agir?

Myers - Não pretendo fazer uma análise psicanalítica, mas ele é muito meticuloso. Cuida da alimentação, é abstêmio, se exercita obsessivamente, ou pelo menos costumava ser assim. Não sei como tem sido nos últimos dois anos.

Você vê esse senso de disciplina nele. E outra coisa que me impressionou, embora não seja algo novo, é algo que se viu desde o início: o desdém ou medo que ele sente em relação ao que considera o mandato das multidões, ou seja, a democracia.

A democracia pode ser caótica em alguns momentos, envolvendo paixões, disputas e protestos. Mas, em sua mente, estas são ameaças ao Estado. Ele viveu isso quando era agente da KGB na Alemanha Oriental, e o Muro de Berlim caiu enquanto ele estava lá. Uma multidão invadiu as instalações da Stasi (o serviço de segurança estatal da Alemanha Oriental) em Dresden, onde Putin estava servindo. Tentaram até ocupar o escritório da KGB onde ele estava naquela noite. Acho que isso o marcou.

Toda vez que você o ouve falar sobre protestos, ele não acha que pode haver uma emoção genuína de pessoas que buscam justiça ou tentam fazer com que suas vozes sejam ouvidas.

Ele os vê como rebeldes, como hordas tentando derrubar a ordem estabelecida.

BBC News Mundo -Quem Putin respeita?

Myers - Passei os últimos cinco anos observando a relação entre Putin e Xi Jinping (presidente da China), vendo como esta relação cresce e se aprofunda.

Em uma de suas últimas reuniões, me chamou a atenção o quão deferente, inclusive obsequioso, Putin é com Xi, enquanto em reuniões com outros líderes ou até mesmo com sua própria equipe, Putin é visto com uma postura arrogante, sentado com as pernas abertas e com um olhar acusador.

Barack Obama disse uma vez que Putin se parecia com o típico estudante entediado sentado no fundo da sala de aula. E acho que Putin se comportou assim com Obama porque não gostava dele.

Mas você pode realmente ver a diferença com as pessoas que ele respeita, e Xi é definitivamente uma dessas pessoas.

Recentemente, conversei com um analista russo que também acompanha de perto a relação Rússia-China, e ele me disse que, pelo menos até pouco tempo, Putin era respeitoso com Biden. Isso me surpreendeu, dado o quão tensa é a relação.

Mas, fora isso, Putin é conhecido por deixar as pessoas esperando por horas, seja para entrevistas ou reuniões de trabalho importantes. Algumas pessoas dizem que isso faz parte de suas táticas psicológicas, não sei, mas é um sinal de sua arrogância.

Nas reuniões com Xi, ele é pontual.

BBC News Mundo -Tem havido muita especulação sobre como a pandemia e o isolamento durante estes dois anos podem ter afetado a saúde mental de Putin. Você sabe alguma coisa sobre isso?

Myers - A melhor coisa que li sobre isso é um artigo escrito por Mikhail Zygar. Zygar escreve que desde o início da pandemia Putin nem sequer está hospedado em sua casa nos arredores de Moscou, mas em outra residência oficial, entre Moscou e São Petersburgo. Faz videoconferências de lá para evitar o risco do coronavírus.

Mas, neste artigo, Zygar menciona uma das pessoas que tem estado lá com Putin. Ele se refere a Yuri Kovalchuk, um de seus amigos próximos, conhecido como "o banqueiro de Putin". Kovalchuk faz parte do círculo íntimo de Putin, não apenas a nível de governo, mas pessoal. Ambos compartilham esta visão quase religiosa da Rússia e do conflito com o Ocidente.

Zygar, como todos nós, especula sobre que tipo de conselho Putin está recebendo e o que está acontecendo em seu círculo mais próximo, mas me parece bastante persuasivo seu argumento de que Kovalchuk tem sido o único nessa bolha nos últimos dois anos, ou pelo menos um dos poucos a fazer parte dela.

BBC News Mundo -O que se sabe sobre sua família?

Myers - Ele é divorciado, e sabemos muito pouco sobre sua vida pessoal além disso.

É avô, tem pelo menos dois filhos, e há rumores de que tem outros. Não está claro quanto tempo dedica a passar com eles.

BBC News Mundo -Neste momento, Putin é visto como vilão pelo Ocidente. Há alguma possibilidade de que no Ocidente haja uma visão reducionista ou maniqueísta dele?

Myers - Acho que há uma espécie de caricatura de Putin, quase como se ele fosse um personagem de desenho animado ou um vilão de James Bond. As pessoas dizem "ah sim, ele foi um agente da KGB" — e, sim, ele foi, mas é apenas uma parte de sua vida. Ele nunca foi um James Bond em serviço. Não era um agente disfarçado, não fazia operações secretas. Era mais um oficial de inteligência coletando informações, que é o que a maioria deles faz. Às vezes, sinto que exageramos sua ameaça dessa maneira caricatural.

Dito isto, Putin mostrou claramente disposição para lançar uma grande invasão sobre um país soberano. Isso não acontece com muita frequência sem algum tipo de justificativa internacional, para além daquilo que se pensa da guerra no Iraque. Os Estados Unidos e seus aliados usaram um fórum internacional e a lei para justificá-la. Putin não fez nada disso. A última vez que vimos uma invasão como esta foi quando Saddam Hussein invadiu o Kuwait em 1990.

Então, quando digo que exageramos sua vilania, não estou tentando subestimar o que aconteceu.

BBC News Mundo -Putin tem algum ressentimento em relação ao Ocidente?

Myers - Acho que o ressentimento e o agravo é o que tem motivado tudo isso. Ele tem a sensação de que o Ocidente está tentando manter a Rússia sob controle, e que os EUA estão orquestrando tudo isso para destruí-los e roubar suas riquezas.

Esse tem sido o tema de suas declarações durante anos.

No entanto, quando ele chegou pela primeira vez ao poder, houve uma tentativa genuína de sua parte de manter ou até mesmo melhorar as relações com os EUA e a Europa.

Durante seus dois primeiros mandatos presidenciais, Putin manteve boas relações com Berlusconi na Itália e com o ex-chanceler Gerhard Schroeder na Alemanha, de quem se tornou amigo pessoal e que depois foi contratado por uma empresa estatal russa.

Então, nem sempre foi como é agora, mas acho que definitivamente com o caso dos EUA e da Otan, e obviamente toda a coisa da Ucrânia, as revoltas populares e a Revolução Laranja em 2014, Putin chegou a essa visão sombria do Oeste. Acho que tudo se resume a essa sensação de que a Rússia é uma grande potência e que a Otan está simplesmente empenhada em destruí-la.

BBC News Mundo -Se Putin sempre vence, ele pode vencer esta guerra?

Myers - Obviamente não posso fazer previsões, mas é difícil para mim ver como a Rússia pode sair vitoriosa.

Mesmo que consiga conquistar a Ucrânia e instalar um governo e regime militar, parece que não tem os meios para isso.

Mesmo que consiga fazer isso, ainda terá que enfrentar o isolamento e a condenação mundial que enfrenta hoje.

Muita gente diz que a China está do lado dele, e é verdade que a China não está criticando a invasão, mas a China não está confortável com essa situação.

Ele está encurralado, e há sinais de que ele está procurando uma maneira de sair disso. É difícil imaginar, dadas as consequências, não apenas para ele, mas para toda a Rússia, que ele possa triunfar.

BBC News Mundo -Como você acha que Putin quer ser lembrado?

Myers - Acho que ele gostaria de ser visto como o homem que devolveu a grandeza à Rússia. A Semana com BBC News Mundo/Foto: CRÉDITO,GETTY

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