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Guineenses na Praia mantêm vivas as tradições para os filhos que nunca conheceram a terra 07 Novembro 2022

o Alto da Glória, arredores da Praia, canta-se, dança-se e toca-se à maneira da Guiné-Bissau e até poesia recitada pelas crianças recorda a terra, mesmo que muitos nunca tenham regressado depois da partida.

Guineenses na Praia mantêm vivas as tradições para os filhos que nunca conheceram a terra

“Aquelas mais jovens aprenderam aqui, nunca foram à Guiné-Bissau. São os herdeiros, essa é exatamente a nossa preocupação: que a tradição não desapareça”, explica à Lusa Carlos Djasi, secretário da Associação Cultural Cabaz di Terra, da Praia.

Os guineenses em Cabo Verde representam a maior comunidade estrangeira no arquipélago, embora raízes comuns com a comunidade cabo-verdiana, desde o período de libertação do regime colonial, reduzam barreiras. Esta integração leva habitualmente a que os descendentes de guineenses em Cabo Verde dificilmente regressem à terra dos pais, o que levou alguns destes a lançar, em 2013, na Praia, um grupo cultural para promover a cultura guineense.

Dada a dimensão não deu para continuar como grupo. Com a oficialização, em 2019, passamos a Associação Cultural Cabaz di Terra”, explica ainda Carlos Djasi, 46 anos, professor e em Cabo Verde desde 2004.

Como a generalidade dos conterrâneos, os seus filhos também nunca foram à Guiné-Bissau.

“Não conhecem. É através desta associação que, aqui, veem como se canta e dança lá. Por isso mantemos viva essa cultura, não queremos perder de vista essa cultura. Os mais jovens são os herdeiros”, insiste Carlos Djasi.

Da poesia que recorda os dias no campo, à música e dança nos estilos Djambadon ou Gumbé, passando pelos tambores típicos, como a obrigatória tina ou sikó, uma cabaça oca mergulhada, a boiar, que se transforma num tambor de água com um som parecido ao bombo, é naquela associação, num bairro de casas inacabadas a alguns minutos do centro da Praia, que estes guineenses se juntam para o ‘regresso’ às origens, mesmo que por algumas horas.

“Nós que viemos da Guiné-Bissau conhecemos e vivenciamos a cultura e os nossos filhos cá em Cabo Verde não conhecem. Portanto, a única forma de manter a cultura e de fazer estas crianças conviverem e conhecerem é preservar. Preservar a mesma cultura, herdarem”, enfatiza o professor guineense, há 18 anos em Cabo Verde e que já trabalhou nas ilhas do Fogo e de Santiago.

Nayara Mané, filha de imigrantes guineenses, nasceu há 12 anos em Cabo Verde e nunca conheceu a terra dos pais, mas sabe cantar e dançar como se sempre lá tivesse vivido graças ao empenho dos mais velhos da associação.

“Aqui aprendo a nossa história. Só conheci a Guiné-Bissau aqui”, explica a adolescente, depois de recitar o poema “Cabaz di Terra”, na improvisada sede da associação, com a amiga Veracia, embora confessando que prefere, antes, cantar e dançar: “A dança é mais ou menos. Não é fácil”.

Já Veracia Nhanco tem 13 anos e há quatro acompanhou os pais à procura de uma vida melhor em Cabo Verde. Ainda aprendeu a dança tradicional em Bissau e deu-lhe seguimento na Praia.

Gosto de estar aqui, aprender a nossa cultura com os mais velhos”, conta.

Satun Sonco, 32 anos, deixou a Guiné-Bissau e 2008 para viver e trabalhar em Cabo Verde. Hoje é empregada doméstica na Praia e vice-presidente da Associação Cultural Cabaz di Terra, embora ali faça um pouco de tudo, incluindo cantar e dançar, que aprendeu com a mãe, cantora tradicional em Bissau, já falecida.

Os seus dois filhos, de 11 e nove anos, nasceram em Cabo Verde e nunca visitaram a Guiné-Bissau, pelo que a associação é a principal ligação.

Nós viemos à procura de uma vida melhor em Cabo Verde, tivemos os nossos filhos aqui, eles nunca foram lá, mas nós temos que lhes mostrar a realidade da nossa terra, as nossas tradições, as danças, os tambores. Eles gostam e estão interessados em aprender. Fico muito contente a ver que se interessam”, diz.

É num espaço improvisado na casa de Luís Mendes, presidente da associação, no Alto da Glória, que serve além do convívio e dos ensaios também para explicações e aulas às crianças guineenses durante a semana, que tudo acontece.

Já escolhemos Cabo Verde como segunda pátria, criamos cá as nossas famílias, os nossos filhos que ainda não conheceram a Guiné-Bissau. Por isso criámos esta associação, para que os nossos filhos não percam a identidade”, explica Luís Mendes, 48 anos, responsável de armazém na Praia e desde 2002 no arquipélago.

Tem dois filhos, de sete e dez anos, que nunca foram a Bissau, como tantos outros da mesma idade: “Ainda não”, lamenta, embora sublinhando o impacto do trabalho da associação, que também os envolve: “Dançam, cantam a nossa música. É um orgulho imenso. O que nós estamos a fazer está a chegar à comunidade”.

A dinâmica da Associação Cultural Cabaz di Terra, a única formada por guineenses em Cabo Verde para este efeito e que conta com um total de 90 associados, tem sido reconhecida pelas autoridades locais, que apoiam algumas iniciativas, como através do Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas, num programa de ensino de música e dança tradicionais, ou pela Câmara Municipal da Praia, no trabalho de envolvimento com a sociedade local.

Mas, para já, o sonho é deixaram o improviso da casa do presidente e passarem a ter espaço próprio: “Seria possível servir não só a associação, mas a comunidade onde residimos, um espaço de multiusos. Porque fazemos ação social também (…) Estamos à procura de parceiros que nos ajudem a concretizar o sonho de ter uma sede própria”, reconhece o presidente.

Ainda há muito para fazer, mas acredito que vamos atingir os objetivos”, remata.

A Semana com Lusa

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