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"Helena Lopes da Silva, a professora altruista" que marcou gerações de alunos 11 Setembro 2018

«Hoje, as notícias dos jornais falam de Helena Lopes da Silva descrevendo-a como "militante de esquerda e Conselheira de Estado de Cabo Verde". No entanto, não eram esses os "galões" que faziam da Dra. Helena uma docente especial», lê-se no ’Diário de Notícias de domingo, 9. Assina o artigo um antigo aluno desta médica-cirurgiã cabo-verdiana Mª Helena Lopes da Silva, a Lena Pantcholita dos muitos amigos, que faleceu este sábado em Lisboa aos 69 anos.

O retrato da professora de cirurgia em luta diária "pela formação dos seus alunos" destaca-se após tudo o que foi publicado — desde notas de pesar a retratos por pessoas e instituições de Cabo Verde (Presidência, Ordem dos Médicos) e Portugal ( Bloco de Esquerda, Francisco Louçã) —, a expressar a consternação perante a morte, inesperada, sem aviso, da mulher que lutou pela liberdade desde a sua juventude.

O retrato da cirurgiã — por Francisco Goiana da Silva, que foi seu aluno — destaca a "competência, objetividade e, acima de tudo, compaixão para com os mais fracos (fossem eles estudantes de medicina ou doentes). Nele ressalta, a desconhecida luta diária de professora, que está próxima dos estudantes, numa instituição que "por tradição" está "assente no culto e reverência aos Catedráticos".

O hoje médico recorda: «Na minha altura, já lá vão mais de 10 anos, chegávamos à Faculdade miúdos humildes, mas a frase "Vocês são a nata da nata da sociedade!" marcava o início de um processo formativo assente no valor inquestionável dos títulos académicos. Lembro-me bem de, numa das aulas do primeiro ano, um colega ter levado um raspanete em público por se ter dirigido a um Professor Catedrático daquela casa apenas por "Dr"».

O articulista destaca que "foi já no meu quarto ano de curso que a Dra. Helena Lopes da Silva me calhou em sorteio. Graças a essa feliz coincidência tive o privilégio de ser seu aluno nas aulas práticas de Cirurgia Geral. Crua ao primeiro contacto, Helena Lopes da Silva foi desde o início motivo de comparação elogiosa".

"Essa compaixão cativou-me desde a primeira hora. Recordo hoje com nostalgia o dia em que, ao entrar no bloco operatório, me posicionei onde não devia, por mera ignorância de estudante inexperiente". Conta que foi, "com razão", "energicamente repreendido por um elemento da equipa", mas, "ao aperceber-se da situação", a cirurgiã da sala de imediato se fez ouvir: "Atenção, que esse é um dos meus alunos! Por isso, em vez de gritarem com ele, ensinem-no! Ninguém nasce ensinado!"

"Helena Lopes da Silva foi certamente uma das maiores Professoras que conheci na Faculdade. Não de título académico formal, pois desses havia muitos, mas por declarar e assumir, sem medo, a sua missão de proteger os seus estudantes. Gestos públicos e genuínos de compaixão de professores por alunos eram raros dentro das paredes frias da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa", é assim que o antigo aluno e hoje médico, português, expressa o seu reconhecimento à professora, cabo-verdiana.

Oficinas de sutura

O agora médico lembra o apoio da professora "cirurgiã experiente e respeitada no Hospital", que "se disponibilizou a contrariar a passividade dos corpos dirigentes da Faculdade e aventurar-se onde mais ninguém queria" em prol da formação dos futuros médicos.

A doutora Helena, abraçou o desafio, deu aulas pro bono, "em período extra curricular" num curso de suturas (que, subentenda-se, não conseguiu inscrever no Plano de Estudos).

"A maioria dos estudantes de medicina concluía o seu curso sem nunca ter aprendido a suturar", pelo que «"existia uma forte possibilidade de os jovens médicos virem a treinar os seus primeiros "pontos" na cabeça de um doente qualquer, já no âmbito do seu exercício profissional».

Foi "graças à solidariedade da Dra. Helena e à sua capacidade de mobilização", escreve Goiana da Silva, que "todos os jovens cirurgiões do Hospital de Santa Maria passaram "a ensinar os estudantes da FMUL a suturar".

"Espírito de serviço, altruismo"

Esse antigo aluno descreve que as limitações da sua Faculdade parecem não ter mudado, quando há "hoje ainda mais alunos para formar do que há dez anos", mas destaca que "felizmente, o espírito de serviço da Dra. Helena Lopes da Silva" se manteve e «mesmo depois de reformada, continuou a coordenar os "Workshops de Suturas", por onde passaram já várias gerações de jovens».

A rematar, o médico formado por Helena Lopes da Silva diz que ela "nunca precisou de um doutoramento para ser uma das melhores Professoras da Faculdade de Medicina de Lisboa" com base no princípio que ela proferia (com propriedade dado ser o verbo cognato de professor/a): "Continuamos a guiar-nos por princípios que achamos serem fundadores da profissão quando na realidade o único pensamento fundador da Medicina é o altruismo".

Nota: A ortografia de acentos — (por isso, ditos gráficos) como em "altruismo" e muitos outros milhares de exemplos — tem sido uma ’daquelas’ áreas complicadas da nossa língua comum no espaço lusófono. Os prontuários e dicionários escrevem *"altruísmo", com base numa regra de exceção que é acentuar o ’i’ e o ’u’ tónicos do ditongo. Esta proposta de ortografia sem acento tem por base a regra geral: "se o acento tónico recai na penúltima vogal, então regra geral o acento não precisa de ser grafado. Há pelo menos umas 10 mil palavras — as mais comuns em ’ismo,’ ista’, — que deixarão assim de ser escritas com acento, o que vai ser um ganho na economia da escrita ortográfica.

Link: https://www.dn.pt/pais/interior/helena-lopes-da-silva-a-professora-altruista-9822443.html, 09.09.2018

MLL

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