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Hiroshima homenageou a Ucrânia com pássaros de origami de uma velha lenda japonesa 08 Agosto 2022

No Monumento das Crianças pela Paz, e um pouco por toda a cidade de Hiroshima, viam-se grinaldas de grous de origami azuis e amarelos, as cores da Ucrânia.

Hiroshima homenageou a Ucrânia com pássaros de origami de uma velha lenda japonesa

Tóquio fica a mais de oito mil quilómetros de Kiev. Hiroshima fica a cerca de 7.600 quilómetros de Mariupol. Mas este fim de semana, as duas cidades mártires estiveram muito próximas uma da outra. Conforme assinalou os 77 anos do lançamento da primeira bomba atómica, que arrasou por completo toda a cidade, Hiroshima não esqueceu cidades ucranianas como Mariupol, que estão a ser arrasadas pelos bombardeamentos dos invasores russos.

As referências à guerra na Europa também foram muitas nos discursos dos políticos, na cerimónia solene que marcou o aniversário do primeiro bombardeamento atómico. Mas longe dos palanques, um pouco por toda a cidade, viam-se pequenos pássaros feitos em papel azul e amarelo - as cores da Ucrânia.

Os pássaros de origami - uma técnica japonesa de dobragem de papel - são um simbolo da paz e uma tradição associada à memória das vítimas da bomba atómica. São pequenos grous, uma ave que faz parte do folclore nipónico - segundo a lenda, quem dobrar mil grous de origami poderá receber os favores dos deuses e concretizar os seus desejos.

A ligação entre esta velha lenda e a memória da catástrofe atómica vem dos anos 50. Começou com Sadako Sasaki, uma menina de Hiroshima que morreu em 1955, com leucemia, em consequência da exposição às radiações da bomba atómica. No dia 6 de agosto de 1945, quando aconteceu o bombardeamento, Sadako tinha dois anos. Apesar de estar dentro do raio de 2 quilómetros em que a bomba causou os impactos mais terríveis, aparentemente a menina havia escapado incólume. Porém, uma década depois, foi-lhe diagnosticada leucemia.

Internada num hospital, Sadako ouviu a lenda dos grous de origami, através de uma amiga que lhe ofereceu um desses pássaros de papel colorido. A menina decidiu pôr mãos à obra e fazer mil origamis, para concretizar o seu maior desejo: ficar curada. Não tendo muito material, Sadako usou tudo o que podia, incluindo os papéis dos medicamentos que tomava. Fazia cada bocadinho de papel render ao máximo - por isso, os seus origamis são muito pequenos, quase como trabalhos de filigrana. Alguns dos origamis de Sadako podem ser vistos no Museu Memorial da Paz, o impressionante museu de Hiroshima dedicado a contar a história do bombardeamento atómico da cidade.

Grous de origami chegam de todo o mundo

A menina de Hiroshima acabou por ser a inspiração para a construção do Monumento das Crianças pela Paz, um dos mais visitados no Parque Memorial da Paz, o grande espaço verde que hoje existe naquele que era o bairro mais vibrante da cidade, e que foi obliterado pela bomba nuclear.

Sadako está representada no topo do monumento, segurando um grou de origami estilizado. À volta, há uma série de estruturas onde podem ser pendurados os origamis de quem se queira juntar ao apelo pela paz no mundo.

Este ano, era visível a tendência para grinaldas com origamis azuis e amarelos, as cores da Ucrânia. “Sim, muita gente queria fazer alguma coisa para rezar pela paz na Ucrânia, e [os grous de origami] é uma das ações para rezar pela paz na Ucrânia”, confirma à CNN Portugal Yasco Suehiro, da Hiroshima Peace Culture Foundation, a entidade que gere o Museu e organiza boa parte das atividades que mantém viva a memória desse acontecimento, nomeadamente palestras dos sobreviventes do bombardeamento, que contam a sua experiência.

Viam-se grous de origami azuis e amarelos não apenas em torno do Monumento das Crianças, mas também no Cenotáfio, o local onde estão guardados os nomes de todas as vítimas da bomba (são quase 300 mil nomes, dos quais 140 mil foram registados logo em 1945). Nessa estrutura, onde os visitantes se curvam perante a memória das vítimas, ao lado de duas coroas de flores havia este ano grous de origami das cores da Ucrânia.

E podiam ver-se também um pouco por toda a cidade - nomeadamente na Alameda da Paz, a longa avenida pontuada por muitas esculturas e monumentos evocativos do bombardeamento, e onde se podem ver árvores frondosas que sobreviveram à “bomba A”.

12 milhões de origamis por ano

Os origamis são deixados pelos muitos de visitantes que Hiroshima recebe todos os anos, sobretudo estudantes que chegam de todos os pontos do Japão para conhecer esta parte da história do seu país. Muitos mais origamis chegam por correio, enviados de todas as partes do mundo.

É possível as escolas, os alunos, a crianças e os visitantes colocarem os seus grous de origami [no Parque da Paz], e também podem enviar para a Câmara de Hiroshima”, que depois assegura que ficam em exibição no monumento, explica Yasco Suehiro.

Segundo esta responsável da Fundação Cultura da Paz de Hiroshima, por ano a cidade recebe cerca de 12 milhões destes pássaros de papel colorido. “São cerca de 4 toneladas e meia de papel”, esclarece Suehiro.

O que fazer com tantos grous? Durante muito tempo a cidade tentou preservar estas doações, mas há muito tempo que isso se tornou uma missão impossível. Há alguns anos, a autarquia decidiu reciclá-los, conforme vão sendo retirados de exposição para darem lugar a novos.

O resultado é um papel ou cartão ligeiramente azulado e cheio de pequenos pontinhos coloridos, devido à enorme variedade de cores dos papéis dos origamis. É possível comprar nas lojas de souvenirs de Hiroshima blocos ou papéis de carta feitos com esse papel reciclado.

Mas há outros usos para esse material: os cartões de visita dos funcionários da cidade são feitos desse papel - é o caso do cartão de visita do presidente da câmara, Kazumi Matsui. E, mais recentemente, os diplomas dos alunos que terminam os seus estudos em Hiroshima passaram a ser impressos também neste papel pintalgado por todas as cores.

Daqui a algum tempo é possível que esses diplomas tenham bastantes pontinhos azuis e amarelos. Será uma forma de preservar para sempre a proximidade entre o povo de Hiroshima e o povo da Ucrânia, ambos marcados para sempre pelos horrores da guerra. A Semana com CNN Portugal

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