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Hora de Sacheen Littlefeather: atriz nativa americana chocou por pedir justiça — Com FBI, Hollywood baniu-a 05 Outubro 2022

A atriz de etnia Apache e Yaqui, que foi alvo de agressão na cerimónia dos Óscares de 1973 pelo famoso ator dos westerns John Wayne, esperou quarenta e nove anos para que Hollywood lhe pedisse desculpa por ter sido humilhada, sem que a organização a defendesse.

Hora de Sacheen Littlefeather: atriz nativa americana chocou por pedir justiça — Com FBI, Hollywood  baniu-a

A atriz de 26 anos subiu ao palco dos Óscares de 1973 para receber o prémio de Marlon Brando e, chocante surpresa, recusou esse Óscar de ’Melhor Ator’ pelo ’Padrinho’. Metade da audiência aplaudiu e a outra metade protestou com assobios.

A jovem atriz Sacheen Littlefeather — que se apresentou como representante da NNAAIC-National Native American Affirmative Image Committee/Comissão Nacional para a Imagem Afirmativa dos Nativos Americanos — foi, assim, o veículo do protesto de Brando ante o tratamento injusto de Hollywood para com os ameríndios.

No momento em que a atriz subiu ao palco como representante da NNAAIC que a colaboração do ausente Marlon Brando lhe permitiu, ela já esperava que nem todos concordassem com o porquê do protesto.

Mas foi uma surpresa ter o famoso ator dos westerns John Wayne atrás do palco à sua espera para tentar agredi-la fisicamente, sem qualquer intervenção dos agentes de segurança da Academia de Hollywood — versão que ela manteve até à última entrevista em agosto corrente.

Além disso, ficou para a história o modo derrisório (destrutivamente sarcástico) como o ator Clint Eastwood, apresentador da cerimónia, tratou o assunto: "Eu confesso que não sei se não devia estar aqui a entregar este prémio em nome de todos os cowboys mortos a tiro em todos os westerns de John Ford ao longo destes anos". Um vídeo recém-recuperado de 1973 está no Twitter a ser comentado como a prova do "racismo" do consagrado ator que se afirma defensor de causas do conservadorismo.

Sobre esse momento de há quase meio século, a Academia de Hollywood na sua mensagem faz o mea-culpa.

"Os insultos de que a Sacheen Littlefeather foi alvo por causa dessa declaração [a favor dos ameríndios como expressa na mensagem de Brando] foram deslocados e injustificados", lê-se na carta do presidente da Academia, David Rubin.

"O fardo emocional que teve de suportar e o custo que teve de pagar na sua própria carreira na nossa indústria são irreparáveis. Por um tempo demasiado longo, a coragem de que a Sacheen Littlefeather deu prova não foi reconhecida. Por tudo isso, vimos apresentar-lhe as nossas mais sinceras desculpas e ao mesmo tempo expressamos-lhe a nossa sincera admiração".

Em entrevista recente, a atriz contou: "Li a carta, muito polida, sem qualquer palavra imprópria. Só continha expressões apropriadas".

"Li-a, com eloquência e força tranquila. Essas eram as minhas armas, que usei para transmitir a mensagem sobre os direitos do povo nativo americano de trabalhar na indústria dominada por estereótipos nada saudáveis".

Perseguida pelo FBI. "Se um produtor, um realizador me convidassem tinham o FBI à perna". A força policial dominante em Hollywood tornou de todo impossível que lhe oferecessem trabalho na indústria do cinema, como ela contou ao longo dos anos em entrevistas.

"Mas quando uma porta fecha, abre-se outra. Fui estudar e formei-me em saúde e nutrição, que me permitiu trabalhar diretamente com as populações nativas. Tem sido uma bênção trabalhar com estas pessoas que valorizam o mundo espiritual".

A atriz e militante da causa dos ameríndios faleceu este domingo, 2 de outubro — a dois meses de completar 76 anos — vítima de cancro mamário, na sua casa de San Francisco.

Fontes: The Globe and Mail/ Hollywood Reporter/Le Figaro. Foto: Eu só tinha como fato de cerimónia o meu pow-wow (vestido índio de pele de veado) e disse-o a Brando.

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