DIÁSPORA

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Hora do café 08 Mar�o 2022

O plátano visto da cozinha branquejava, já perdida a memória das folhas caídas de cores outonais. O tronco todo branco e o vento gelado que já só fazia oscilar os ramos despidos, negros como cruzes. "Em cada ano a natureza trabalha para vestir a árvore de alegres cores, só a minha natureza não me devolve o que perdi", suspirava à hora do café.

Hora do café

O portão verde estava sempre aberto. Os dois meninos entraram, como contaria depois a inquilina do primeiro direito. «Vi-os e disse ao meu João “Parece-me que os conheço, mas mais pequeninos”».

O menino de oito anos e a menina de nove subiram até ao terceiro andar, como se soubessem que, ao contrário do segundo andar, neste a porta estava sempre entreaberta.

A Mementa a subir do segundo, onde servia o café, deu com eles, já depois do bengaleiro. Quase deixou cair a bandeja.

— Meu Deuz, Zezé e Margarete!, como é que vocês estão aqui?

A Menta era assim, a avançar para a consoante seguinte. Ou seria o diòze da sua Betânia natal?

— Vimos buscar a mãe.

— Dona Zinha, dona Zinha! — Mais que chamar, exclamava Menta enquanto empurrava os meninos para a cozinha, indiferente aliás esquecida-varrido que era proibido entrar na cozinha aos gritos na hora de subir o cuscuz/kuskuz.

A dona da casa a preparar outro binde virou-se para pregar "um bom sabão daqueles" à criada malcriada como a própria Mementa se intitulava, quando deu com dois pares de olhos arregalados a mirá-la.

Saberíamos depois do espanto das duas crianças por encontrarem no santuário da cozinha a "senhora preta" e não a dona Nanda, a senhora quase branca que "falava são vicente".

— Quem são eles?

Mementa explicou que eram filhos da Armandina que estava na Itália havia quase dois anos e deixara os filhos num colégio da estrada do aeroporto.

— O que é que vamos fazer com eles? — A dona Zinha a perguntar e a responder: —Primeiro eles vão comer. Querem pão com quê, manteiga ou marmelada ou ...

— Marmelada! — respondeu rápido a menina.

— É claro que têm de voltar para onde a mãe os deixou.

Chamadas chegaram. Vieram depois buscá-los, nós as crianças na escola nunca as vimos à Margarete e ao Zezé.

Nunca mais soubemos deles, depois de os entregarem ao colégio interno. Muitos anos depois, uma mãe noutra cidade fala dos filhos.

Compara: — No filme, o outro esteve doze anos escravo, pois eu estive doze mais doze mais doze mais, já nem sei quantos mais a trabalhar que nem escravo, no duro a vida toda longe deles para lhes pagar o colégio interno.

— Escrava para lhes dar tudo de bom e do melhor. Hoje não me ligam.
Quem, Zezé e Margarete? Esta mãe seria a deles?

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