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Ilustradora defende profissionalização do livro infantil e maior contacto entre crianças e livros 24 Dezembro 2019

A Ilustradora Inês Ramos defendeu, esta segunda-feira,23, um maior contacto entre as crianças e os livros e também a profissionalização do livro infantil, no sentido de fazer com que este seja um objecto de qualidade feita por profissionais.

Ilustradora defende profissionalização do livro infantil e maior contacto entre crianças e livros

A entrevistada falava à Inforpress momentos antes à apresentação, na cidade da Praia, da obra «Burro Carga-d´água» de João Fonseca e João Baptista, cuja apresentação está a cargo de Inês Ramos e Mário Silva.

Inês Ramos começou por dizer que nas suas idas às diferentes escolas, para promover a sua feira de livros, notou que os “meninos ficam “doidos” por livros”, ou “seja, eles adoram livros”, mas estragam-nos “porque não sabem manusear o livro”.

“E isso, eu achei estranho. Isso quer dizer que eles não têm acesso ao livro. Se tivessem acesso ao livro saberiam, pelo menos, foliar um livro normal”, afirmou, segundo a Inforpress, a ilustradora e amante de leitura, defendendo um maior contacto das crianças com os livros.

Prosseguindo, Inês Ramos acrescentou que é preciso uma política de promoção do livro infantil e de hábitos de leitura, assim como investimentos em projectos de leitura, nas escolas, nas bibliotecas, nas câmaras municipais.

“É preciso disponibilizar livros para esses espaços (escolas, bibliotecas, dentre outros) e garantir que não fiquem fechados em armários para os meninos não estragarem”, disse a mesma fonte, defendendo também o contacto das crianças com os autores, contadores, ilustradores, em escolas, bibliotecas e outros espaços.

Inês Ramos frisou ainda a necessidade de se investir em formação para os intervenientes do livro infantil, editores, autores, paginadores e ilustradores, até porque, segundo argumentou, o profissionalismo nesta área é “fundamental”.

“Isto tem que ser profissionalizado. É preciso capacitar os professores para a leitura de estórias nas salas de aula”, prosseguiu a interlocutora, para quem a literatura infanto-juvenil tem de ter um “espaço importante” na sala de aula para que as crianças tenham a oportunidade de ter um “contacto agradável” e contínuo com o mundo mágico e ficcional, próprio das narrativas literárias.

Ainda segundo Inês Ramos, é “imprescindível” um “esforço maior” dos professores para que dêem mais valor às actividades relacionadas com a leitura e também encontrar formas para melhorar a distribuição de livros pelas ilhas.

“É preciso realizar eventos dedicados à literatura infanto-juvenil, encontros de escritores de livros para a infância, festivais de contadores de estórias, convidar para esses eventos os verdadeiros protagonistas, os autores, os editores, os ilustradores, os contadores e também os professores, os bibliotecários. Nesses encontros, é preciso trazer protagonistas estrangeiros da mesma área para a partilha de conhecimentos e promoção de parcerias”, prosseguiu.

Inês Ramos advogou também a retirada de verbas aos “festivais de música e álcool” e usar em grandes feiras de livros, bem organizadas e bem localizadas.

Para esta ilustradora, é necessário também prever um espaço com grande destaque no Festival Morabeza para o livro infantil, tendo presentes neste espaço todos os livros editados no país ainda disponíveis e com mesa para que autores autografem os livros às crianças, promovendo assim um primeiro contacto entre o autor e o leitor.

A promoção de debates entre autores e ilustradores sobre o actual panorama literário infanto-juvenil em Cabo Verde para assumir o que está mal e melhorar é outra questão defendida por Inês Ramos.

“Por exemplo, os textos têm que estar bem escritos, com grande preocupação de revisão. É muito mais importante a revisão em textos para crianças do que os adultos. Nós estamos a ensinar a eles como é que se escreve. Tem que ser feito com mais cuidado, mais preocupação e com uma excelente revisão”, elucidou.

Inês Ramos defendeu, igualmente, ilustrações de qualidade, feitas por ilustradores profissionais que dêem preferência às ilustrações feitas à mão, ao invés das digitais.

As editoras, para esta amante da literatura, devem começar a entender que o livro infanto-juvenil tem dois autores, o autor do texto e o ilustrador, e pagar direito ao autor do texto e ao ilustrador.

“As estórias, na minha opinião, devem ser mais abrangentes do que as da Carochinha. É preciso fazer para a infância, cujo conteúdo valorize a autonomia do indivíduo, a abertura de espaço para a diversidade no contexto de uma sociedade mais plural, menos machista, com heroínas que não são indefesas, protagonistas negros, família diferentes das consideradas normais, questões de bullying, sexualidade, dentre outros”, ressaltou.

Para Inês Ramos, é preciso preparar as crianças para saírem de casa quando adultas, o que, no seu ponto de vista, passa por terem contactos com ideias, pessoas e situações diferentes das do seu quotidiano para saberem que há pessoas que pensam de forma diferente, que são de uma religião diferente ou não têm religião.

Burro Carga-d’água surge na sequência de uma outra publicada no ano passado, intitulada: «As Tartarugas também choram». Ambas se inserem no projecto Estórias do Meu País Inventado.
A estória que compõe este livro nasceu, segundo João Fonseca, no quotidiano das crianças que diariamente vão buscar água à Ribeira da Principal, na ilha de Santiago, Cabo Verde.

A obra é uma homenagem a todas as crianças que vivem sem água, sem luz, e que desconhecem as palavras escritas e a escola. Em particular, é uma homenagem às crianças carga-d’água do interior das ilhas de Cabo Verde. Burro Carga-d’água é um personagem que carrega para cima o que vem de baixo.

Burro Carga-d’água é todo o ser, criança ou idoso, homem ou mulher, que leva para o cume uma vida que não se resigna a levar de vencida uma existência já nascida. Burro Carga-d’água pretende ser um grito da força que combate as tormentas da Humanidade e que alimenta a liberdade de poder sonhar”, explica o autor.

O livro é resultado de uma conjugação de esforços entre João Fonseca, que escreveu, e João Baptista, que pintou. A Semana com Inforpress

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