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Independência/46 anos: “Foi fantástico trabalhar com o planeamento familiar num país muito católico” – antigos cooperantes suecos 02 Julho 2021

Os antigos técnicos da Cooperação Sueca, Per Tamm e Harriet Birkhahn, que ajudaram Cabo Verde a instalar o Programa Materno-Infantil e Planeamento Familiar (PMI/PF) disseram ter sido “fantástico” trabalhar com o planeamento familiar “num país muito católico”.

Independência/46 anos: “Foi fantástico trabalhar com o planeamento familiar num país muito católico” – antigos cooperantes suecos

Os dois profissionais, actualmente aposentados e vivendo em São Vicente, falaram à Inforpress do “entusiasmo” que tinham ao chegar a Cabo Verde pela primeira vez, a 07 de Julho de 1977, dois anos e dois dias após a tomada oficial da independência, em 1975.

A vinda aconteceu depois de uma equipa cabo-verdiana – formada pelo único pediatra de então, Arsénio de Pina, pelo médico com experiência em ginecologia, Pedro do Rosário, e ainda as enfermeiras Fátima Neves, Lídia Évora e Maria das Dores Pires – ter ido à Suécia procurar financiamento para aplicar o PMI/PF.

“Cabo Verde queria técnicos suecos para trabalhar em paralelo com o pessoal nacional para transferir os conhecimentos. Então, houve visita de alguns planificadores suecos aqui e chegaram a um acordo de cinco anos para começar”, explicou Per Tamm, que veio como economista/administrador e Harriet Birkhahn como enfermeira, com especialidade em pediatria e parteira, do Programa Sueco de Socorro às Crianças, actualmente ‘Save the Children’.

O economista lembrou que até à chegada não conhecia Harriet, mas ambos dizem terem-se emocionado com a recepção no Aeroporto Internacional Amílcar Cabral, na ilha do Sal, “até com telegrama do Governo”, dando-lhes as boas-vindas e reconhecendo o apoio deles.

Depois de Sal, o destino seria São Vicente, onde a equipa de Arsénio de Pina já mexia os seus pauzinhos para a implementação do programa e tinha criado um pequeno serviço numa antiga escola, na zona de Bela Vista, que se transformou depois no estabelecimento central para o PMI/PF na ilha e para todo o País.

“Começamos rápido, porque chegamos em Julho e em 17 de Agosto começamos a publicar e avisar as pessoas”, conta Harriet Birkhahn, adiantando ter havido “muitas reuniões e discussões” para organizar tanto o apoio infantil, como para o planeamento das mulheres.

Isto, porque, segundo ambos, a realidade era “bem diferente” do que conheciam, com crianças com mal-nutrição e “muita mortalidade infantil, cerca de sete crianças por mulher”.

“Todos os dias tinha um funeral de uma criança”, recordou Per Tamm.
Os cooperantes suecos felicitam a escolha de São Vicente para arrancar o PMI/PF por ser na altura “uma ilha portuária, com muita influência internacional e com muita abertura de espírito”, e que mesmo no começo “já tinha filas de pessoas à porta do centro de Bela Vista para planeamento familiar”, que era “novidade”, assim como a vacinação de crianças.

“Não obrigamos ninguém, foi tudo informação e depois deixar cada um decidir”, ressaltou Harriet, que assim como Per Tamm, diz ter sido “fantástico” trabalhar com o planeamento familiar num “país muito católico”.

“Mas, o governo novo do PAIGC (Partido Africano para Independência de Guiné e Cabo Verde) tinha falado com a Igreja e disse: vocês têm o seu campo e nós temos o nosso e para bem da população tem que haver planeamento familiar”, parafraseou Per Tamm, reconhecendo os efeitos dessa decisão.

Como exemplo, o mesmo apontou o caso da primeira mulher que usou o contraceptivo Dispositivo Intra-Uterino (DIU), na altura conhecido por Sterile, que chegou a abraçar e agradecer Harriet na rua por lhe dar a possibilidade de decidir quantos filhos queria ter. Algo, que, segundo a mesma fonte, reflectiu-se até no número de filhos por mulher, que hoje é de cerca de três, quando antigamente era doze.

Enfrentando problemas como mudança de mentalidade e até falta de pessoal de saúde, que os obrigou a formar leigos para implementar o programa em outras ilhas, conseguiu-se disseminar PMI/PF por todo o arquipélago, com Santiago por último, por ser “uma das ilhas mais conservadoras”.

Um “grande sucesso” conseguido pelo pessoal cabo-verdiano e vários suecos que cooperaram no projecto orçado, conforme Per Tamm, em 17 milhões de coroas suecas (um milhão e setecentos mil euros).
“Eu sei que hoje em dia ninguém poderia fazer um projecto deste tamanho com tão pouco dinheiro, mas foi graças à iniciativa do Governo. A integração foi paulatinamente, porque não era só os salários, mas toda a programação”, considerou o economista.

O Governo cabo-verdiano, ajuntou, conseguiu “tomar conta de tudo” em cinco anos e até sobrou dinheiro para a reestruturação do Centro Juvenil Nhô Djunga, que acolheu depois rapazes em situação de vulnerabilidade.

Um único projecto, que, ressaltou Per Tamm, teve possibilidade de intervir em outras áreas, até na ajuda de crianças com deficiências físicas, e que foi conseguido “graças ao entusiasmo do povo cabo-verdiano que queria ver desenvolver o País agora independente”.

A mesma forma de ser desse povo, e juntamente com a sua morabeza, que fizeram Harriet Birkhahn e Per Tamm escolher Cabo Verde, mas concretamente São Vicente, para viver.

No caso da Harriet, está no País desde a chegada em 1977 e depois de findar serviço pelo governo sueco pediu para ser colaboradora do sistema de saúde cabo-verdiano, em que trabalhou até a sua reforma em 2000. Já Per Tamm, que se sente “parte da sociedade cabo-verdiana” até ocupou o cargo de cônsul da Suécia, tendo passado 11 anos no arquipélago, quando normalmente as missões de serviço nos diversos países por onde passou eram de dois ou quatro anos. Regressou após reforma.

Harriet e Per, com 84 e 76 anos respectivamente, vivem actualmente na zona de São Pedro, e o economista gere um restaurante de comida internacional.

A Semana coom Inforpress

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