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Independência: “Nestes 47 anos Cabo Verde teve ganhos e perdas” – bispo D. Ildo Fortes 05 Julho 2022

O bispo da Diocese do Mindelo admitiu que o País teve avanços, mas também perdas nestes 47 anos como independente e deverá encontrar agora um tempo para debate e reflexão e determinar os próximos passos.

Independência: “Nestes 47 anos Cabo Verde teve ganhos e perdas” – bispo D. Ildo Fortes

Dom Ildo Fortes, em entrevista à Inforpress a propósito da celebração de mais um aniversário da Independência Nacional, que se comemora hoje, relembrou que à data da proclamação da independência, com apenas 10 anos, estava em viagem com os pais para fixar residência nos Açores, também pertencente à colónia portuguesa.

Por isso, a independência para si significa “estar em viagem, mudança de vida e novos desafios”, o mesmo que acredita ter acontecido a Cabo Verde nessa altura.

Dom Ildo Fortes mencionou que as vindas com a família e depois como missionário a partir de finais de 2005, fê-lo perceber as diferenças que o arquipélago ia sofrendo, embora defenda que as diferenças a nível religioso com a Europa e com o Brasil, realidades que tinha conhecido, não se mostrassem tanto.

Embora na diáspora, sempre manteve contacto com a tradição, cultura e gastronomia cabo-verdianas na sua casa nos Açores, e depois em Lisboa, onde foi viver.

Cabo Verde, segundo a mesma fonte, tem crescido desde 1975, até obrigado a Igreja Católica a criar novas paróquias e novas formas de ajudar os mais necessitados, mas, di-lo Dom Ildo Fortes, “ainda há um grande caminho a percorrer”, porque nestes 47 anos de independência o País poderia ter avançado “muito mais”.

“Há muitos ganhos e há perdas, e há valores grandes que se perderam na nossa terra”, sublinhou.

O bispo começou por apontar os avanços, que foram registados, por exemplo, nas infra-estruturas de transportes rodoviários, que nos anos 70 provocou-lhe um “grande choque” com a realidade açoriana, onde tudo isso estava num “outro nível, muito bem organizado”.

“Era gritante a situação que se vivia em Cabo Verde há 47 anos, que reclamava, de facto, a independência. Não tinha noção disso por ser criança, mas comparando com outras colónias, como da metrópole, digamos que Cabo Verde esteve um pouco no esquecimento”, considerou Dom Ildo, admitindo que o País teve depois “imenso trabalho”, a desencravar as comunidades com a construção de vias.

Por isso, admitiu, a ânsia de independência devia-se à “insatisfação”.

Entretanto, o bispo disse não saber precisar se o processo deveria ser como foi, mas, acredita que foi “muito repentino”, na medida em que na altura “o povo não foi chamado para fazer da sua justiça”.

Passou-se, segundo a mesma fonte, de um regime para o outro, no qual também se continuou a não ter liberdade.

Quantos aos retrocessos, Dom Ildo Fortes referiu-se a valores de educação cívica, como pessoas a fazerem necessidades “descaradamente” nas esquinas, e ainda de outros valores incluindo espirituais e até mesmo ambientais.

No rol das perdas incluiu ainda a “tentativa de retirar” das escolas, dos hospitais e das Forças Armadas as aulas de religião e moral e a figura de igreja, o que criou “grandes problemas”.

“Perdeu-se muito”, ajuntou, “numa sociedade que neste momento não respeita idosos, crianças e mulheres” e tem “confundido liberdade com libertinagem”.

O bispo considerou que nos primeiros tempos houve necessidade de trabalhar para a coesão nacional e estrutura política, mas, tendo isso mais ou menos consolidado, “é fundamental hoje parar para pensar”, alertou a mesma fonte, porque há um “deficit enorme” de reflexão no País.

“Não é compaginável a reflexão com o nível de dispersão que nós vivemos. Se os municípios, as associações, as igrejas não criarem espaços para reflectirmos, debatermos e pensarmos o destino do nosso País, não funciona”, advertiu.

Contudo, disse estar consciente de que em todo o processo de construção de Cabo Verde até agora a Igreja Católica deu “um grande contributo” e teve “um papel fundamental”, uma vez que “não tem partido, mas sim deu voz ao povo”.

A Independência Nacional ocorreu a 05 de Julho de 1975 e foi proclamada pelo então presidente da Assembleia Nacional Popular, Abílio Duarte, hoje falecido, tendo como palco o Estádio da Várzea, na Cidade da Praia.

O 05 de Julho de 1975 é hoje considerado unanimemente pelos cabo-verdianos a data maior e um marco “importante e histórico” para o arquipélago. A Semana com Inforpress

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