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Indultado Myon Burrell inocente preso há 18 anos e libertado Fate Winslow com pena perpétua por vender $20 de canábis 18 Dezembro 2020

Myon, de 34 anos, libertado na quarta-feira, 14, após dezoito anos na prisão por um homicídio que não cometeu, "não é de certeza o único preso inocente", lê-se no ’New York Times’ de ontem. "Hoje é o dia da Redenção, estou de volta à liberdade e à vida", foram as primeiras palavras de Fate, de 53 anos, marcado pelo destino adverso (fate) não só no nome.

Indultado Myon Burrell inocente preso há 18 anos e libertado Fate Winslow com pena perpétua por vender $20 de canábis

A morte de Teysha Edwards, de onze anos — devido a uma bala perdida que entrou pela janela quando ela estava em casa a fazer os deveres escolares —, marcou Myon Burrell: "Ela era colega do meu irmão mais novo", era sua vizinha.

"Senti mais a sua perda do que senti a morte de pessoas que me eram próximas, mesmo não a tendo conhecido", relatou Myon. "Ela estava a fazer o que podia para vencer num meio em que tudo estava contra ela" — a pobreza, a criminalidade de rua.

A mesma criminalidade que tinha levado a mãe de Myon a mudar-se para a vila de Bemidji, a 350 quilómetros de Minneapolis. Ela deixara a cidade natal, que é a mais populosa do Minnesota, para salvar os filhos da violência que afetara muitos dos adolescentes da vizinhança, ora vítimas ora agresssores.

As vidas de Myon e Teysha todavia acabaram ligadas da pior forma quando em novembro de 2002 a família Burrell, mãe e quatro filhos, voltou a Minneapolis para festejar o "Dia de Ação de Graças" com a avó.

Vinte e quatro horas depois do "Thanksgiving Day", deu-se a tragédia: a morte de Teysha que arrasaria com a vida de Myon.

"A sua morte acabou por ser uma questão tão pessoal... a ligar as nossas vidas", relatou Myon sobre a menina "que não conhec[eu] pessoalmente".

Polícia procura culpado

Myon Burrell não tinha tido problemas com a lei, mas crescera junto de muitos delinquentes conhecidos da polícia. Muitos deles tinham porta aberta em casa da família Burrell: a mãe de Myon abraçava todos.

A polícia conhecia Myon pelas más companhias e fez dele o único suspeito do homicídio quando uma testemunha — ex-presidiário e habitual informante da polícia — colocou Myon entre os delinquentes armados que na última sexta-feira de novembro tinham aterrorizado o bairro.

Ao cabo de oito horas de interrogatório ao também adolescente informante a braços com a lei, o nome de Myon surgiu como o de único suspeito. No dia seguinte, o rapaz de 16 anos foi preso.

Dezoito anos preso, vítima de erros da investigação e do sistema judicial, Myon perdeu a adolescência, toda a juventude e grande parte da vida adulta.

"Mão dura no crime": potencial vice-presidente democrata aumentou sete vezes condenações de inocentes

A senadora Amy Klobuchar, candidata das primárias pelo Partido Democrata — após uma sondagem em fins de 2018 a colocar na quarta posição, logo com boas hipóteses para ser a vice-presidente democrata —, veio a ser em 2019 citada como uma das principais responsáveis pela "injustiça que fez Myon perder na prisão os seus melhores anos".

Amy Klobuchar – como presidente entre 1999 e 2006 da Procuradoria-Geral do distrito (County) de Hennepin – fica na história como uma das responsáveis pelo facto de que os afro-americanos têm um recorde sete vezes superior de virem a ser condenados por erro judicial, ou seja, um inocente negro corre sete vezes mais o risco de ser condenado por homicídio. A prová-lo, o facto de que ela foi a responsável pelo julgamento, condenação e sentença do adolescente Myon Burrell em 2003.

A senadora Klobuchar fez, em várias intervenções públicas — ao longo do seu percurso como magistrada e política até desistir da corrida à Casa Branca em março de 2020 —, a defesa da justiça firme na punição. Para apoiar a ideia, em conferências pró-armas, entrevistas e debates televisivos a nível estadual e nacional citou o caso da Tyesha Edwards como um exemplo de sucesso da sua política de segurança.

Tais intervenções têm feito reagir ativistas dos Estados Unidos: "Se é trágico que uma menina de onze anos tenha morrido com uma bala perdida, é igualmente mau que um rapaz de dezasseis anos tenha sido condenado inocente à prisão perpétua – devido tão-só a uma PGR agressiva e de vistas curtas".

Fontes: AP/NYTimes/... Relacionado: Prisão perpétua para veterano da guerra do Golfo que vendeu $30 de marijuana, 16.ago.020. Fotos: Myon. Amy Klobuchar. Winslow (ao centro, à saída da penitenciária da Louisiana, na 4ªfª, 16) que em 2008 — o ano em que a canábis foi descriminalizada em 15 Estados americanos — foi aliciado por um traficante para vender marijuana. Sentenciado à perpétua, o seu advogado não disse ao juiz que ele era toxicodependente, desempregado e sem abrigo, não apresentou a sua real situação nem fez apelo da sentença desproporcionada.

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