OPINIÃO

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Intelectualidade ou paroxismo? 01 Mar�o 2018

Fazendo-se passar por fiel depositário das ideias do povo, da sua mística, valores e sentires, anseios e expetativas, substituindo-o por uma névoa confusa que só existe na cabeça dele mesmo, o intelectual-profeta. Assim, profere os mais desconcertantes juízos acerca daquilo que o povo pensa. E nesta saga, o dono da verdade absoluta acha-se tributário do mais genuíno e puro génio, que tem de sair em estado de latência, tal como está, sem necessidade de ciranda, aferição ou crivo. É caso para dizer: quanto mais larval e implume é a conjetura do sumptuoso, melhor ainda.

Por:Domingos L. Miranda Furtado de Barros

Intelectualidade ou paroxismo?

Uma das principais entorces da hodiernidade é talvez a abusiva e mesmo falsa representação. Um pretenso intelectual, do alto do seu doirado pedestal, do coreto da praça ou da varanda do castelo, costuma, não poucas vezes, dissertar sobre uma série de sofismas sem qualquer correspondência com a realiadde do cotidiano.

Fazendo-se passar por fiel depositário das ideias do povo, da sua mística, valores e sentires, anseios e expetativas, substituindo-o por uma névoa confusa que só existe na cabeça dele mesmo, o intelectual-profeta. Assim, profere os mais desconcertantes juízos acerca daquilo que o povo pensa. E nesta saga, o dono da verdade absoluta acha-se tributário do mais genuíno e puro génio, que tem de sair em estado de latência, tal como está, sem necessidade de ciranda, aferição ou crivo. É caso para dizer: quanto mais larval e implume é a conjetura do sumptuoso, melhor ainda.
Há uns anos, um enfezado tribuno da nossa praça, acomodou-se em sua casa de campo, numa rampa de regalo, em razão de sua recheada conta bancária. E ao recolher-se à sombra do seu rancho, fê-lo, sobretudo, para evitar a desnecessidade de partilhar o lívido ar daquele solar com os demais pobretanos, que ele ironicamente aspirava representar. Os confinados aos «becos e belecos», de ruelas estreitas insalúbres, porque encharcadas de lama ou de poeira, promiscuidade e quiçá mil vícios inglórios, onde predonima o ambiente de umbrosa precariedade e por sobre que paira um ar bafiento e saturado. Então, na pose de burguês do eixo de luxúria, o nigromante encheu-se de repasto, bebeu seu bom chanpanhe francês, deu valentes baforadas do aromático charuto cubano, envergou a couraça de homem-providente. Depois, acrescentou a tudo isto um tanto de sua argucia e trivialidade, com que sempre se apetrecham os que se preparam para vender um prodigioso embuste ou arrojada banha de cobra.

Posto nesse diletante estado de transe, o sibarita absorveu sapiência irrepreensível e disparou, não para o vento, não para os pássaros alados, mas para o papel, em páginas de livro, que as populações de umas ilhas «são mais cultas» do que outras, dentro do mesmo espaço-nação. Tal tirania discursiva passou incólome, sem protesto e rebuliço. Nenhum académico de «elevado coturno», como lhe chamaria o médico-escritor, Francisco Fragoso, se indignou e se dispos a rebater as acintosidades do magno bazófio de palanquim. E o tinhoso anunciou a sua enleva professia insuflado de gás doutoral e venerando. Sem rebuço e sem receio de cair na mais plutónica fundura do redículo. E mais: sem aturado estudo e sem nenhuma referência documental. Ou seja, o sacripanta de instância viu a epifania e começou a transpor a dádiva de Deus para o papel. Servindo-se do mesmo biltre que se serviram os seus predecessores de séculos transactos (os missionários da civilização), para lançar um palavreado eivado de pompismo e vacuidade, em pleno século XXI.

Guiados apenas pelo faro, pela bússula de supremacia racial e por um ato de fé, os nimbados de outrora, quando olhavam para o diferente, achavam-no exótico e selvagem. Os tais exegetas da funesta etnografia das primevas viagens, para quem havia povos sem cultura, bárbaros, portanto, e até sem alma. A partir daí ficava justificada a legitimação para toda uma série de atrocidades, em nome de uma necessidade impreterível de trazé-los à ribalta de aculturação. E para o seu próprio benefício. Pasme-se! Com o mesmo fulgor e intrepidez que, ainda hoje, alguns conservadores radicais de certas latitudes negam a teoria da evolução. Claro, para os assanhudos continuarem a ostentar a bandeira do mandato divino que lhes assiste de subjugar os outros. O escopo desse tipo de intelectualismo baseado na crença arreigada de si mesmo, no fundo, é subververter o espírito da democracia representativa, consubustanciado no princípio do sufrágio universal, suprimindo deste modo a elemental visão de Clístenes e a cláusula: um homem, um voto.
Depois, instalar uma oligarquia, fazendo que os «metecos» sejam afastados da direcção do Estado, para darem lugar a egrégios de umas ilhas de preito do pregador-vidente. De tal sorte que, para a ideia ganhar maior aticidade e consistência, só faltava propor um estatuto de indiginato para individuos das ilhas menos cultas, que passariam a servos anexos à república do cientista. O mal em tudo isto é que o burguês-visionário nem se deu ao luxo de perguntar às pessoas das ditas ilhas-modelo se, de facto, se sentiam uma espécie de dom d’água no deserto ou estrela cintilante num céu tumbado de breu.

Por esta altura é costume ouvir da boca das pessoas como pretendem passar a festa de consoada. Este ano, em lugar disso, ouvimos de um burguês possesso, coisa menos coisa «o natal nestas paragens é passado em tudo à moda lusitana; é a cultura camoniana que está entranhada no espírito do ilhéu». Porém, o bruxo profere essa sua douta oração de sapiência no aconchego do gabinete de labor, ao lado do repórter, imbuido da mesma convicção com que um ocidental, no cume do seu egocentrismo caridoso, se gabaria «o natal é uma bênção geneticamente nossa, que decidimos partilhar com o resto do mundo». Não posso concordar com esse estado de coisas. Admitindo, contudo, que este linhar de território é, se calhar, o maior reprodutor da cultura lusa fora de portas. Isto para não lhe pôr etiqueta de miniatura de Lusitânia ou mesmo «portucalinho», no seu afã de mimetismo, para o reto e para o torto, de tudo o que se faz em terras lusas. O mal não está em realçar a semelhança, mas sim em não ir ao terreiro e deixar o povo expressar por si próprio.
O mediador que colocou o microfone na boca do burguês, neste caso seu colega de labuta, podia po-lo directamente na boca do povo (do mercado, da lavoura, da loja, do cais de pesca... da Praia ou de Mindelo), para não se estar a deduzir constantemente aquilo que o povo supostamente pensa. Até porque ele é pago para arregaçar as mangas e ir ao terreno, ao invés de começar a reportar com o primeiro compincha que encontra no corredor. Isto só acontece porque o tipo a quem competia ir à lide, para saber como o povo passa o seu natal (se come, se não come, o que come, como o come) fraquejou na sua missão. O intérprete está doente de desídia e nivela a inteligência dos ouvintes por baixo, substituindo o povo no seu direito de se expressar directamente. E isso só se exclui, quando tal prerrogativa não seja possível, por razões de ordem prática, como ir à Assembleia legislar ou tomar parte no Conselho de Ministros.

Perversamente, o boca-de-fole põe o coriféu-burguês a falar da sua cultura, do seu bacalhau, da sua visão do cosmo e a intuir que o povo tem bacalhau à mesa, estando apenas à espera de badalar de sino para o servir. Assim, ficamos sem saber se hoje, por exemplo, não haverá nenhum excluido da ceia do natal. No entanto, o intermediário não foi eleito por ninguém para delegar o seu poder no burguês-colega, para falar em nome de um «não alguém», como diria Fernando Pessoa. Tal que intelectual-adivinho, o repórter violu todas as regras de uma boa recolha e perverteu os princípios da ética faciendi. Não podemos passar a vida inteira a adivinhar o pensamento das pessoas, sobretudo quando não tivemos o ensejo de nos passar pelo crivo do voto popular. Não é raro ouvirmos ou lermos «segundo uma fonte bem colocada, um amigo bem chegado, etc., e tal». Quando, na verdade, o sofista não auscultou ninguém, não viu absolutamente nada. Depois, dizem que os insurgentes são chatos, intragáveis, mas como não? Neste caso, dou-me também por insurgente.

PS: Esta crónica é um misto de realidade e ficção e foi escrita na véspera do último natal.

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