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A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Jaime Ben Bare Soifer Schofield retoma Cultura de Suor/Museu de Resistência:Jamais um Txom de vergonha 28 Dezembro 2020

O nosso colaborador Jaime Ben Bare Soifer Schofield retoma a série "A Cultura do suor -X: O Museu da Resistência", alertando pela complexidade e grandeza do projeto e necessidade de um encontro entre a Fundação Amílcar Cabral e o Governo para corrigirem os erros ou lacunas existentes. "Face à complexidade e grandeza do projecto e tomando em boa conta a necessidade de cumprir os critérios preconizados pelas ORIENTAÇÕES da UNESCO, impõe-se um encontro entre a Fundação Amílcar Cabral e o Governo, visando a eliminação de erros e superar lacunas e insuficiências, em ordem a criar sinergias para, em sintonia, relançar um projecto irrepreensível, verdadeiramente transnacional, tendente à inscrição do dossier no PATRIMÓNIO MUNDIAL DA HUMANIDADE pela UNESCO". Schofield adverte ainda que o MEMORIAL MUSEU CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DA MORTE LENTA não deve transformar-se numa escala turística para o champanhe. "É, pois, um dos espaços da Memória e de Orgulho, e de Grandeza e de Partilha com quantos defendem e amam a LIBERDADE! JAMAIS UM TXOM DE VERGONHA!", defende. Mais detalhes a seguir.

Jaime Ben Bare Soifer Schofield  retoma Cultura de Suor/Museu de Resistência:Jamais um Txom de vergonha

A CULTURA DO SUOR – X : O MUSEU DA RESISTÊNCIA

Às memórias de BERNARDO AUGUSTO FORTES DE OLIVEIRA (BEITZ), DANTE URIEL LOPES DA SILVA MARIANO e de CARLOS ALBERTO FONSECA (BETON)

... quase todos os homens são capazes de suportar adversidades, mas se quiser pôr à prova o carácter de um homem, dê-lhe poder.
Abraham Lincoln

De 1 de maio de 1974, data da libertação do Campo de Concentração da Morte Lenta de Txom Bom do Tarrafal, pelo POVO (o primeiro Txom libertado de Cabo-Verde), a março de 2016 acumulou-se um considerável acervo material e intelectual, destinado ao Museu de Resistência, que foi inaugurado em 2000, com o objetivo de preservar e perpetuar parte da memória histórica do período salazarista e das lutas pelas independências das ex-colónias portuguesas em África (Angola, Guiné Bissau e Cabo Verde).

A musealização do Campo passou por três fases distintas:

Numa primeira fase, de 2000 a 2009, o museu tinha apenas uma sala de exposição;
Na 2ª fase, inaugurada a 1 de maio de 2009, na sequência do simpósio sobre o Campo, o Museu passou a dispor de dois espaços expositivos: um destinado à Colónia Penal de Cabo Verde (1936-1954) e um outro destinado ao Campo de Trabalho de Txom Bom (1961-1974).

Na 3ª fase, inaugurado a 20 de janeiro de 2016, fez-se uma redefinição museológica e museográfica abarcando toda a parte externa e interna do Campo, com a criação de um circuito que se inicia desde a ‘porta de arma’, logo à entrada do Campo, passando pelos blocoss existentes e culminando no interior do complexo prisional com os diferentes compartimentos que o compõem.

Desde então a gestão do Pais fica marcada por duas concepções político-ideológica, diametralmente opostas, reflectidas também no que respeita a do Museu de Resistência. Enquanto o Executivo cessante mobilizou recursos e competências para erguer e conceber o Museu da Resistência, já o actual idealizou um outro Museu, ex novo.

Após as eleições de 2016, o novo Executivo, não hesita em continuar a destruir as bases sobre que assentou o regime sob a égide do PAICV, ao longo na década de noventa ( 1991/2001) e, ora, sob a concepção do Populismo político-ideológico.

O CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DA MORTE LENTA DE TXOM BOM DO
TARRAFAL/MUSEU DE RESISTÊNCIA, na lógica do Executivo actual, não entrou nas contas do regime. Antes aceitaram e promoveram a sua liquidação física, desde logo, designando-o por EX-CAMPO DE CONCENTRAÇÃO, querendo com isso significar que foi e já não é mais; ou por ANTIGO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO, querendo com isso significar que existe ou existirá um NOVO CAMPO DA MORTE LENTA.

Está em marcha a mais escandalosa e a mais vergonhosa operação de cosmética política alguma vez levado a cabo nas Ilhas do Atlântico Médio!
Não obstante todas as evidências, o Governo de Cabo-Verde insiste em conduzir o processo de inscrição do bem já referenciado, assente em bases a-históricas, à margem dos critérios preconizados pela UNESCO.

Entretanto, que passo de magia se verificou para transformar o mais malquisto, o mais maldito, o mais triste complexo prisional, numa das mais apreciadas e das mais desejadas e das mais apetecidas pérolas do tesouro dos 4 033 km 2 dos ilhéus e das ilhas-faróis spaiód na mei d’mar?

Através das crónicas publicadas neste jornal na coluna A CULTURA DO SUOR, tenho partilhado com os leitores, o apelo à defesa da reorganização do dossier tendente a evitar a sua rejeição liminar pela UNESCO: UM MUSEU MAIOR PARA GESTORES MENORES (in A SEMANA de 13.09.2020 e NO REINO DO ABSURDO 1ª parte: 13.09.2020 e conclusão: 4.10.2020.

Ao meu dever cidadão de denúncia, acresce ora o da auctoritas
Explico o processus, para a obtenção do ‘título’:

A enorme mastaba imperfeita erigida na planura de Txom Bom engoliu-me. O sol cru daquela final de manhã de março, destacou o icónico Monte Graciosa, semi-mergulhado no azul denso da Baía, habitat das deusas. Caminhamos ao longo do corredor a céu aberto, ladeado pelos inestéticos e observavelmente de construção economicista, alojamento temporário para Resistentes Angolanos, Bissau-Guineenses, Cabo-Verdianos e Portugueses.

Entramos na ante-câmera do Campo da Morte Lenta. Apesar do esplendor azul-prata, sentia-se o abandono e a solidão.
E pensei: daqui sairei morto. E, logo depois, mais sereno: daqui sairei velho. E mais animado, decidi integrar a turma dos reinventadores da vida e, consequentemente, apreender e cumprir a cultura do suor ou, dito de outro modo, a construção da casa na rocha e jamais na areia ou, se se quiser, optar pelo anzol e não pelo peixe. E é por isso que os discípulos de tais mestres intuiram as lições da vida e do saber que nos têm transmitido, ao longo dos tempos, isto é, que os desafios da vida são vencidos com esforço e com dedicação e com estudo e com correcções de percurso e, bem assim, respeitando e valorando, o que os outros conseguiram.

Fomos testemunhas privilegiados que a invencível força de Txom Bom radica no estudo e na leitura e na disciplina e na superação académica e na prática do exercício físico e na aprendizagem básica da culináira e do artesanato.

Ganhei pois, a auctoritas para advogar a verdade sobre o Campo de Concentração da Morte Lenta de Txom Bom do Tarrafal.

Afinal a quem assistirá razão? Ao Ministério da Cultura personficado pelo Titular da respectiva Pasta? ou a este advogado ad hoc?
Denotem bem:
Para um entendimento cabal e esclarecimento definitivo sobre o processo relativo à Inscrição do Memorial Museu da Resistência, na lista do Património Mundial da Humanidade, transcrevo alguns excertos constantes em
ORIENTAÇÕES TÉCNICAS PARA A APLICAÇÃO DA CONVENÇÃO DO PATRIMÓNIO da UNESCO:
« ... A análise comparativa deve explicar a importância do bem proposto para inscrição no seu contexto nacional e internacional. Devem ser incluídas declarações de integridade e/ou de autenticidade,

III.A Preparação das propostas de inscrição

120. O documento de proposta de inscrição é a base essencial em que o Comité se apoia para considerar a inscrição de bens na Lista do Património Mundial. Todas as informações pertinentes deverão estar contidas no dossiê de proposta de inscrição, sendo referidas as respetivas fontes de informação.

122. Antes de começar a preparar uma proposta de inscrição de um bem na Lista do Património Mundial, os Estados parte devem familiarizar-se com o processo que envolve a proposta de inscrição, descrito no parágrafo 168. É de toda a conveniência realizar um trabalho preparatório inicial para avaliar se um bem tem viabilidade para vir a ser considerado de Valor Universal Excecional, com condições de integridade ou autenticidade, antes de se proceder à preparação de um dossiê de candidatura completo, processo que poderá ser dispendioso e moroso. Tal trabalho poderá implicar recolher informação disponível sobre o bem, realizar estudos temáticos e de avaliação sobre o seu potencial Valor Universal Excecional, incluindo a integridade e autenticidade, ou um estudo comparativo inicial do bem num contexto mais amplo, global ou regional, incluindo uma análise enquadrada pelos estudos sobre lacunas realizados pelas Organizações Consultivas. Este trabalho permitirá avaliar a viabilidade de uma proposta de inscrição numa fase inicial, evitando a utilização de recursos em candidaturas que têm poucas possibilidades de virem a ser bem-sucedidas. Os Estados parte são convidados a solicitar informações e orientações às Organizações Consultivas e ao Centro do Património Mundial numa fase inicial do processo de candidatura.

123. A participação da população local no processo de proposta de inscrição é essencial para que esta partilhe com o Estado parte a responsabilidade de manutenção do bem. Os Estados parte são encorajados a preparar as propostas de inscrição com a participação de um vasto leque de intervenientes, incluindo os gestores dos sítios, autoridades locais e regionais, comunidades locais, ONGs e outras partes interessadas.

124. Para a preparação das propostas de inscrição, os Estados parte podem solicitar assistência preparatória, tal como se descreve no capítulo VII.E.
125. Os Estados parte são encorajados a contactar o Secretariado, que pode prestar assistência ao longo de todo o processo de proposta de inscrição.

126. O Secretariado pode ainda proporcionar:
a) assistência na definição dos mapas e fotografias apropriados e das agências nacionais onde é possível obtê-los;
b) exemplos de propostas de inscrição bem sucedidas, de gestão e de disposições legislativas;
128. As propostas de inscrição podem ser submetidas em qualquer altura do ano, mas só as propostas de inscrição que estejam «completas» (ver parágrafo 132) e sejam recebidas pelo Secretariado o mais tardar no dia 1 de fevereiro são consideradas pelo Comité do Património Mundial para inscrição na Lista do Património Mundial durante o ano seguinte. Só as propostas de inscrição relativas a bens constantes da Lista Indicativa dos Estados parte serão examinadas pelo Comité ...

III.B Formato e conteúdo das propostas de inscrição

129. As propostas de inscrição dos bens na Lista do Património Mundial devem ser preparadas em conformidade com o formato que se reproduz no Anexo 5.
130. O formato compreende as seguintes secções:

1. Identificação do bem
2. Descrição do bem
3. Justificação da inscrição
4. Estado de conservação e fatores que afetam o bem
5. Proteção e gestão
6. Acompanhamento
7. Documentação
8. Coordenadas pormenorizadas das autoridades responsáveis
9. Assinatura em nome do(s) Estado(s) parte
131. As propostas de inscrição são avaliadas pelo conteúdo e não pela apresentação.
132. Para que uma proposta de inscrição seja considerada “completa”, devem estar reunidas as seguintes condições (ver o formato no Anexo 5):

1. Identificação do bem

Os limites do bem proposto devem estar claramente definidos e delimitar inequivocamente o bem proposto para inscrição e todas as zonas tampão ...

2. Descrição do bem

A descrição do bem deve incluir a identificação do mesmo, assim como uma visão global da sua história e evolução...

A história e a evolução do bem devem descrever como o bem chegou à sua forma atual e as alterações importantes por que passou. Estas informações devem relatar os factos mportantes necessários para apoiar e reforçar o argumento de que o bem satisfaz os critérios de Valor Universal Excecional e as condições de integridade e/ou de autenticidade.

3. Justificação da inscrição

Esta secção deve indicar os critérios do Património Mundial (ver o parágrafo 77) de acordo com os quais o bem é proposto, bem como um argumento claramente definido para a utilização de cada critério...

4. Estado de conservação e fatores que afetam o bem

Esta secção deve conter informações exatas sobre o estado de conservação atual do bem (incluindo informações sobre o seu estado físico e sobre as medidas de conservação em vigor). Deve também conter uma descrição dos fatores que afetam o bem (incluindo as ameaças). As informações apresentadas nesta secção constituem os dados de base necessários para o futuro acompanhamento do estado de conservação do bem proposto para inscrição.

5. Proteção e gestão

Proteção: A secção 5 deve conter uma lista das medidas legislativas, regulamentares, contratuais, de planeamento, institucionais e/ou tradicionais que se aplicam mais precisamente à proteção do bem e fornecer uma análise pormenorizada do efetivo funcionamento dessa proteção. Devem também ser incluídos os textos legislativos, regulamentares, contratuais, de planeamento e/ou institucionais, ou um resumo desses textos, em inglês ou em francês.

Gestão: Um sistema de gestão adequado é essencial e deve figurar na proposta de inscrição. Esperam-se também garantias da aplicação efetiva do plano de gestão ou de qualquer outro sistema de gestão. Os princípios do desenvolvimento sustentável devem ser integrados no sistema de gestão.

Deve ser anexado à proposta de inscrição um exemplar do plano de gestão ou da documentação relativa ao sistema de gestão. Se o plano de gestão estiver numa língua que não seja o inglês ou francês, deverá ser acompanhado de uma descrição pormenorizada do mesmo nas línguas inglesa ou francesa.
Deve ser fornecida uma análise ou uma explicação pormenorizada do plano de gestão ou de um sistema de gestão documentado.

Uma proposta de inscrição que não inclua os documentos acima referidos é considerada incompleta, a menos que sejam fornecidos outros documentos que orientem a gestão dos bens enquanto não fica concluído o plano de gestão, conforme se prevê no parágrafo 115.

6. Acompanhamento

Os Estados parte devem incluir os indicadores-chave em prática e/ou propostos para medir e avaliar o estado de conservação do bem, os fatores que o afetam, as medidas de conservação do bem, a periodicidade dos exames a que procedem e a identificação das autoridades responsáveis.

7. Documentação

Deve ser fornecida toda a documentação necessária para alicerçar a proposta de inscrição. Além do que acima se indica, essa documentação deve incluir a) fotografias de qualidade para impressão (fotografias digitais com um mínimo de 300 dpi) e, se possível, diapositivos em formato de 35mm e, ainda, se for considerado essencial, um filme, vídeo ou outro material audiovisual e um formulário de autorização de reprodução (ver Anexo 5, ponto 7.a). O texto da proposta de inscrição deve ser transmitido sob a forma impressa e em suporte eletrónico (de preferência em formato Word e/ou PDF).

153. O Comité do Património Mundial decide se um bem deve ou não ser inscrito na Lista do Património Mundial, se a sua apreciação deve ser diferida, ou o respetivo processo devolvido.

Inscrição

154. Quando decide inscrever um bem na Lista do Património Mundial, o Comité, aconselhado pelas Organizações Consultivas, adota uma Declaração de Valor Universal Excecional para o bem... »

O MEMORIAL MUSEU CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DA MORTE LENTA DE TXOM BOM DO TARRAFAL, entra como um dos activos relevantes na teia político-económica, integrando-se como um dos produtos mais vendíveis do País.

É tempo de nos situarmos no cerne da matéria vertente:
A assinatura da consignação da empreitada foi feita no dia 27 de fevreiro do ano em curso, no Campo da Morte Lenta pelo Ministério da Cultura à construtora Vilacelos, empresa com sede em Barcelos, Portugal, através da sucursal em Cabo Verde.
No local, o Ministro da Cultura explicou que a obra, de 29,5 milhões de escudos visa um dos requisitos da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) para a candidatura a Património da Humanidade que o Governo cabo-verdiano pretendia " ... Cumprir com esse critério da classificação, que é a autenticidade do espaço" (sublinhado do A.)
De acordo com informações disponibilizadas no local « ... o investimento implica a substituição de telhados das antigas celas comuns e pavilhões, e a criação de um percurso pelo interior do antigo campo de concentração, levando ao reforço da componente de museu, entre outros trabalhos».

O Ministro da Cultura destacou que o objetivo da obra de reabilitação e da candidatura à UNESCO passa por "transformar um espaço que era triste e que devia envergonhar" num local de "orgulho", desde logo para a população do Tarrafal.
‘... Afirmou também que é necessário "ficar em paz" com aquele local, por exemplo na tarefa de, com as famílias, decidir sobre os restos mortais dos então prisioneiros que ficaram no Tarrafal’.

Eis o MEMORIAL MUSEU DE RESISTÊNCIA requalificado na óptica do Governo de Cabo-Verde para ser presente à UNESCO, com vista à sua inscrição como Património Mundial da Humanidade!

Em verdade não atenta a qualquer dos critérios ínsitos nas
ORIENTAÇÕES TÉCNICAS PARA A APLICAÇÃO DA CONVENÇÃO DO PATRIMÓNIO da UNESCO
Além disso o dossier em marcha é, desde logo, a qualquer olhar, mesquinho e insignificante. Não reflecte nem de perto, nem de longe, a MEMÓRIA , de « ... aqueles que por obras valerosas/Se vão da lei da morte libertando ...» (Luís de Camões).

O facto de se referir ao critério de autentidade não lhe garantirá tal atribuído. É necessário preencher os requisitos bem explícitos nas Orientações.
E ainda pelo facto de ter descoberto a ‘varinha de condão’ junto do Presidente da República Portuguesa para concretizar um outro campo da morte lenta, não dá ao Ministro da Cultura de Cabo-Verde a prerrogativa para, em nome do Povo Cabo-Verdiano, ajuízar o Campo da Morte como ‘vergonha’. Porquanto o sentimento que nutre pelo Campo de Concentração da Morte Lenta de Txom Bom do Tarrafal é subjectivo.

Eis a razão, pela qual, insisto em defender que a dita requalificação luso-caboverdiana, não é outra coisa senão, uma homenagem póstuma à política de Salazar, contra os opositores do regime em Portugal e nos territórios sob dominação colonial.

O facto de tentar debaide esconder a FRIGIDEIRA, não é senão. uma cumplicidade para com a política do Ditador Salazar contra os defensores da Liberdade. Trata-se verdadeiramente, de uma operação de cosmética.

E também não entra na chamada requalificção, outras estruturas físicas, quais sejam, a central eléctrica, o cemitério do Tarrafal (o txom sagrado destinado àqueles que repousam nos barços de Abraão), o posto de socorro, as estruturas de vigilância, as moradias dos funcionários operacionais, a unidade constituída pelo muro, passeio, plano inclinado, o fosso e o arame farpado, a estrutura administrativa, a residência do Director, o parque de estacionamento, o economato, a casa de guarda, a ‘holandinha’ as lavandarias, o depósito geral de água, as salas de jantar, a cozinha, a oficina, os WC´s exteriores às celas; e ainda os sinos de Txom Bom, as fechaduras, os campos de futebol e de volei e as pistas para o footing.
O exemplo que melhor servirá à requalificação desejada para a inscrição pretendida há de ser, inquestinavelmete, o do complexo do MEMORIAL MUSEU ESTATAL AUSCHWITZ-BIRKENAU, na Polónia, que está na lista de Patrimônios Mundiais da Unesco desde 1979.

A grandeza do MEMORIAL MUSEU CAMPO DA MORTE LENTA alicerça-se no factor humano: na capacidade dos encarcerados que souberam reinventar a vida e resistir estoicamente, ao inferno da Frigideira, à má alimentação, aos praticamente inexistentes cuidados devidos à saúde, à ignomínia dos carcereiros, à violência e à dor das dores - a solidão.
E, bem assm, da solidariedade dos familiares e amigos, dentro e fora do recinto restrito do complexo prisional. Da solidária e incomparável e valorosa Nha Beba! Do polícia Marcos e do Cozinheiro Brás e do funcionário do Economato Rui Sousa! Do Técnico Agrário Daniel Sousa. Das amigas e amigos que antes se solidarizaram com os condenados desde a Cadeia Civil da Praiinha e, passando pelos Tribunais Militares e pelo companheirismo das estudantes do então Liceu da Praia.
Mal sonhava Salazar que o território por ele escolhido para constuir uma estrutura da morte é um dos paraísos do Planeta Terra, a Casa do Homem!
O MEMORIAL MUSEU CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DA MORTE LENTA não deve transformar-se numa escala turística para o champanhe. É, pois, um dos espaços da Memória e de Orgulho, e de Grandeza e de Partlha com quantos defendem e amam a LIBERDADE! JAMAIS UM TXOM DE VERGONHA!

DA GESTÃO DO MUSÉU DA MEMÓRIA (O prometido é devido)

De acordo com o pré-estabelecido pela UNESCO é obrigatório que o projecto a ser presente para inscrição como património Museu de Resistência, destaque sobretudo o factor humano, em memória aos encarcerados, que mesmo em circunstâncias indignas a um ser humano, máxime as da Frigideira, jamais negaram o sonho de viver num espaço onde o Sol nasce sem as sombras das grades.

O Museu da Resistência não deve jamais ser uma célula administrativa ao serviço de egocentrismos. Antes deverá ser um MEMORIAL MUSEU concordante com o seu historial, isto é, não apenas de Cabo-Verde e de Portugal, mas também de Angola e da Guiné-Bissau.

O Memorial Museu, inicialmente com quatro gestores, indicados pelos Presidentes de Angola, Cabo-Verde, Guiné-Bissau e Portugal, com um mandato temporário e missão pré-estabelecida, mormente a elaboração de um projecto do ESTATUTO e as linhas de gestão estratégicas até à sua gestão efectiva. (ponto 5 das Orientações).
Ocore que o Campo de Txom Bom reune todas as condições para a sua sutentabilidade, assente sobre duas actividades geradoras de postos de trabalho, i. é, CULTURA e a ECONOMIA.

Tratando-se de um museu transnacional, convém perspectivá-lo, desde logo, como
UM MUSEU QUATRO NAÇÕES.
E respeitando a História a gestão do Museu de Resistência, será através de uma Fundação, i. é., FUNDAÇÃO MEMORIAL MUSEU DO CAMPO DA MORTE LENTA DE TXOM BOM DO TARRAFAL (FCTB).

Os indigitados gestores de Angola, Cabo-Verde, Guiné-Bissau e Portugal, teriam como missão primeira, a construção de uma estrutura organizativa e respectivos titulares, para concretizar o projecto.

Entretanto, há tarefas urgentes a realizar, mormente, a reconstituição da frigideira, no mesmo local e a mesma estrutura e, bem assim, a restauraçáo da central eléctrica e da bibioteca. À volta da qual, edificar-se-ia um complexo de espaços/estruturas adequados para a guarda de todos os materiais do Simpósio, do filme da investigadora, Diana Andriga – Memórias do Campo da Morte; do livro do investigador, José Vicente Lopes, Chão Bom Tarrafal: Verdades e Mentiras; do livro do presidiário Pedro Rolando Martins – Testemunhos de um Combatente; e do romance-histórico de Mário Lúco Sousa: o Diabo foi Meu Padeiro; das obras de Júlio Dinis, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, de Luís de Camões e de Agência Geral do Ultramar, ofertas da Fundação Caloust Gulbenkian; das obras dos presidiários angolanos, António Cardoso e de Luandino Vieira e ainda de uma infinidade de obras de viagens, da Cruz Vermelha, de jornais e revistas sobre o Campo da Morte; das quadros inspirados na vivência do Campo, como será a pintura de Pedro Rolando Martins: DJATO; e para exposições de pinturas, de fotografias, de artesenato, dos sinos de Txom Bom, das chaves, da reconstituição da «invenção» do presidiário Carlos António Dantas Tavares, através da qual, se passavam de uma cela à outra, medicamentos e materiais de actualidade, entre cabo-verdianos e angolanos. E ainda, os sinos de Txom Bom e demais materiais.

E a recuperação dos espaços dedicados ao futebol, voleybol, marcha, footing, etc..
Os gestores indigitadoa teriam a missão de estabelecer contactos com a futura rede dos campos de Concentração construídos por Salazar. A começar pelo do Tarrafal da Ilha de S. Nicolau e, conjuntamente, com os de Angola (São Nicolau, Missombo e Bié), Guiné-Bissau (ilha das Galinhas), Moçambique (Machava, São Machilde e Mabalana) e Timor-Leste (Viqueque e Ataúro) e, em Portugal, Aljube, Peniche, Caxias e Açores. A futura instituição gestora deTxom Bom deve ter, pois, a ambição de os incorporar também nas redes de todos os campos de concentração hitlerianos e mussolinianos, numa ampla cadeia para que jamais se esqueça o valor e o preço da Vida e da Liberdade.

SIMPÓSIO SOBRE O MEMORIAL MUSEU CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DA MORTE LENTA DE TXOM BOM DO TARRAFAL

Em homenagem à libertação dos derradeiros condenados desse complexo prisional, Angolanos e Cabo-Verdianos, a Fundação Amílcar Cabral e a Fundação Mário Soares, organizaram, de 28 de abril a 1 de maio de 2009, um Simpósio Internacional sobre esse complexo prisional.

No decurso do evento a Fundação Amílcar Cabral recolheu testemunhos e documentos relativos à existência e ao funcionamento dessa prisão, com vista a organizar um projecto museológico transnacional para o futuro deste monumento histórico comum dos países africanos de língua oficial portuguesa.

O Simpósio recolheu igualmente o resultado das reflexões e debates em torno do legado histórico, de valores e ideais humanistas e inspiradores para as gerações vindouras, nomeadamene "A Geração da Utopia e o Dever da Memória", "Os Ideais, Princípios e Cidadania" e "Os Direitos Humanos nas Novas Sociedades Democráticas em África".

À Fundação Amílcar Cabral cabe a responabilidade de sensibilizar os governos de Angola, Cabo-Verde, Guiné-Bisssau e Portugal, no sentido de cumprirem o desígnio histórico, de dar à Humanidade, um MEMORIAL MUSEU de referência à Luta de Libertação dos povos oprimidos. O Simpósio foi uma oportunidade única para o primeiro encontro entre os Angolanos, os Bissau-Guinenses, os Cabo-Verdianos e o único Resistente Portuguès sobrevivo, Edmundo Pedro.

SUSTENTABILIDADE DO MEMORIAL MUSEU CAMPO DE CONCENTRALÃO DA MORTE LENTA DE TXOM BOM DO TARRAFAL

Ocorre que Txom Bom reune todas as condições para a sua sutentabilidade, assente sobre duas actividades geradoras de postos de trabalho, i. é., a CULTURA e a ECONOMIA.
Até agora o Museu da Resistência tem sido o mais visitado em Cabo-Verde.
E respeitando a História a gestão do Museu de Resistência, será através de uma Fundação, i. é., FUNDAÇÃO MEMORIAL MUSEU DO CAMPO DA MORTE LENTA DE TXOM BOM DO TARRAFAL.
Os indigitados gestores de Angola, Cabo-Verde, Guiné-Bissau e Portugal, deverão ter o perfil de gestores da última geração. E inscreverão como missão primeira, a construção de uma estrutura organizativa e respectivos titulares, para concretizar o projecto.

Da agricultura

Em coordenação com as estruturas dos poderes central e local, elaborar um plano estratégico, com base numa planificação estruturada, sobre o novo Txom Bom que desenhará os espaços públicos e privados em que o mar será território colectvo.

Da agricultura

Inspirada na prática do antigo colonato de Txom Bom e pela busca incessamte de água.

Da pesca e dos desportos náuticos – aproveitamento dos recursos naturais existentes, com escolas orientados por experts qualificsdos e barcos adequados e equipamentos modernos, pesca submarina, desportos para onda e vento, etc..

Do comércio - por conta da iniciativa privada, tomando em devida conta as especificidade da comunidade Txom Bom/Tarrafal.

Da indústria e artesanato – Criação de ateliers de produção e de venda, a partir da matéria-prima nacional.

E uma vez mais:
Face à complexidade e grandeza do projecto e tomando em boa conta a necessidade de cumprir os critérios preconizados pelas ORIENTAÇÕES da UNESCO, impõe-se um encontro entre a Fundação Amílcar Cabral e o Governo, visando a eliminação de erros e superar lacunas e insuficiências, em ordem a criar sinergias para, em sintonia, relançar um projecto irrepreensível, verdadeiramente transnacional, tendente à inscrição do dossier no PATRIMÓNIO MUNDIAL DA HUMANIDADE pela UNESCO.

Termino por quem comecei:

... Pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por tão pouco tempo; mas não se pode enganar a todos por todo o tempo.
Abraham Lincoln

Jaime Ben Bare Soifer Schofield
(Cidadão homorário do Tarrafal)

benhare@cvtelecom.cv
— -
(Corrigenda: Na crónica ´NO REINO DO ABSURDO (conclusão), in A SEMANA de 04/10/2020, no ponto 6, sub-título DO VALOR DA VERDADE, linha 13, acrescer : ... e Portugal; e, na linha 39, onde se lê: reler, deve ler-se reter.

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