INTERNACIONAL

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Japão: Primeira-dama de avental na residência oficial 10 Maio 2019

A mudança trazida pela atual primeira-dama Akie Abe, ativa na vida pública e nas redes sociais desde o primeiro mandato de Shinzo Abe em 2006, contrasta com o papel tradicional das esposas dos primeiros-ministros japoneses. As predecessoras, Chizuko Obuchi (à esquerda), Miyuki Hatoyama (ao centro) e Kumiko Hashimoto, falaram ao ’Japan Times’ sobre o seu papel muito tradicional, de primeira-dama de avental na residência oficial.

Japão: Primeira-dama de avental na residência oficial

Os últimos 13 anos do Japão, com as viagens do primeiro-ministro Abe, reconduzido em 2012, muito acompanhado da primeira-dama, dão a ver um novo estilo nos bastidores da governação, mas ainda está perto o paradigma da primeira-dama de avental na residência oficial de que fala Chizuko Obuchi, de 69 anos.

Ela disse aos repórteres do Japan Times do seu choque ao mudar-se para a residência oficial atribuída ao marido, Keizo Obuchi, eleito primeiro-ministro em julho de 1998. “Pode ser algo surpreendente para um estrangeiro, mas a casa não tinha nada, não havia ninguém”. Ou seja, “conquanto seja de esperar que alguém estará disponível para ajudar o primeiro-ministro a fazer a mudança de casa, não havia ninguém”.

A casa com dupla função, ao mesmo tempo residência, kōtei, e lugar de trabalho, kantei, não tinha “nem uma peça de mobília”. “Todos os dias mandava buscar à minha casa algo que faltava”. A residência oficial afastada de tudo – “tudo ficava muito longe” — afastava o primeiro-ministro da sua vida anterior. Impossível ir “a um café, a uma loja, passear no centro”.

Esta a vida no isolado recinto onde vive e trabalha o chefe do governo, segundo a descrição da primeira-dama entre 1998 e 2000. Um mandato tragicamente encurtado, quando em abril um ataque cardíaco obrigou Keizo Obuchi a demitir-se tendo falecido em maio. Às exéquias assistiram diversos dignitários estrangeiros, entre eles o então presidente Bill Clinton (cuja presença no funeral septuagenária viúva Obuchi destaca 19 anos depois).

O relato pormenoriza ainda: “Eu tinha de pôr o avental todos os dias para limpar os tatami (tapetes vegetais, tipo esteiras, que recobrem o chão). Quando os funcionários me perguntavam porque é que eu estava de avental, explicava-lhes que eu tinha de limpar a casa todos os dias”.

Os repórteres Satoko Kawasaki, Yoshiaki Miura, na publicação desta quarta-feira, contrastam a “invisibilidade” das esposas dos primeiros-ministros japoneses com o mediatismo que rodeia as primeiras-damas dos Estados Unidos, que “são figuras famosas por direito próprio”.

Um exemplo que entrou para as páginas dos “faits-divers”: a então primeira-dama Hillary Clinton ao chegar a uma receção cuja anfitriã era a primeira-dama do Japão, Yoko, esposa do primeiro ministro Kiichi Miyazawa (1991-93), não a reconheceu e passou de largo sem a cumprimentar.

Nove meses turbulentos do executivo financiado pela mãe do atípico primeiro-ministro

Os biógrafos de Yukio Hatoyama destacam uma longa lista de leis-medida, pelo executivo de curta duração, e que tiveram um grande impacto na educação (escola pública sem propinas até à universidade, duplicação da verba no OGE) e melhoria de vida das famílias de baixo rendimento.

A singularidade do primeiro-ministro começara com o facto de que a mãe multimilionária (utilizando "vários nomes falsos, até de defuntos") fizera doações importantes para a campanha do DPJ/PDJ-Partido Democrático do Japão, fundado por Hatoyama em 1998 . Dez anos depois, o partido centrista pela primeira vez conseguiu vencer as Legislativas destronando o LPD/PLD- Partido Liberal Democrático, de Abe.

"Penso que os media nunca se habituaram ao facto de que eu e o meu marido éramos diferentes do típico primeiro-ministro e primeira-dama", disse Miyuki Hatoyama (ao centro), de 75 anos, sobre o curto período, nove meses, em que foi a primeira-dama do Japão, em 2009-10.

"Tudo quanto eu fazia era questionado. Criticavam-me porque como mulher do primeiro-ministro era fotografada no cinema, e o filme passava a segundo plano, por ir ao teatro, achavam que eu é que queria estar no palco".

Em 2 de junho de 2010, cinco dias depois de ceder aos americanos na questão do fecho da base de Okinawa, o primeiro-ministro Hatoyama, então com 62 anos, anunciou a sua demissão, pressionado pelo partido.

Mas ele próprio explica que a demissão foi motivada pela impossibilidade de manter a sua promessa eleitoral de fechar a base ocupada desde a Segunda Guerra e cada vez mais contestada, sobretudo devido a uma série de crimes (roubos, agressões, homicídios, violações) cometidos contra a população local por soldados americanos (e que, em 2008, levaram a então Secretária de Estado Condoleezza Rice a pedir desculpas à população local).

O primeiro-ministro japonês teve de recuar na promessa depois do afundamento de um navio sul-coreano, alegadamente pela Coreia do Norte. Sem armas nucleares, ante a potência nuclear vizinha, o Japão “por razões de segurança nacional”, foi em 28 de maio obrigado a negociar com Obama a manutenção da base com 34 instalações na ilha mais a sul do Japão.

Noviça mesmo com 30 anos de preparação

Kumiko Hashimoto (à direita) contou à reportagem que o papel de primeira-dama foi mais duro do que esperava, mesmo tendo tido trinta anos para se preparar para o papel desde o casamento em 1966 com o então deputado do Partido Liberal Demócratico e futuro primeiro-ministro Ryutaro Hashimoto (1996-1998).

“Os convidados de honra eram o então primeiro-ministro, Eisaku Sato, e a esposa Hiroko, que recebiam toda a atenção. Havia muitos políticos e só alguns membros da minha família. Foi duro e pensei que o meu casamento podia não ser um sucesso se eu não conseguisse aguentar essa receção de 500 convidados”.

Mas outros desafios a esperavam: "Foi só depois do casamento que eu me apercebi
do quanto as eleições podiam ser duras. Antes eu não tinha a mínima ideia do papel que me esperava. A ignorância é uma bênção".

O trabalho de bastidores pela mulher do político japonês inclui a responsabilidade de manter o contacto com as bases e cultivar e reforçar a relação com o eleitorado – desde visitas porta-a-porta, aceitar convites para bodas e batizados, ir a funerais e até fazer discursos.

Kumiko Hashimoto, consciente de que o seu trabalho invisível foi importante para a ascensão política do marido, degrau a degrau até ao topo, relata sobre o inesperado papel que tinha à sua espera ao chegar à primatura: o papel escondido de anfitriã que lhe caiu ao colo. É que teve de gerir oficiosamente a expectativa do eleitorado que "queria visitar a residência oficial".

Logo na primeira semana, os eleitores de Hashimoto “queriam ver como era” a casa “e eu tinha de os receber”, enquanto, por outro lado, “tinha de cumprir o programa oficial, como a visita da primeira-ministra do Paquistão, Benazir Bhutto”.

G8, 3 primeiras-damas, 2 traseiros à mostra para Hillary

Na cimeira do G8 em 1997, “fomos de comboio até à estância de esqui” de Denver, “estávamos à frente eu, a Hillary Clinton e a Cherie Blair. Ouvimos um grito vindo de muito longe: “Hillary!”. Virámo-nos e vimos dois homens que despiram as calças e mostraram-nos o traseiro”.

“Todos ficaram chocados e perguntavam uns aos outros se tinham visto”, relata Kumiko Hashimoto 22 anos depois. “É uma coisa que nunca vou esquecer, e parece que a Hillary sente o mesmo porque ela escreveu sobre isso na sua autobiografia. Também porque numa visita à Casa Branca, após o meu marido deixar o cargo, a Hillary perguntou se me lembrava”.

Fontes: Japan Times / Arquivos online

Os artigos mais recentes

17 Jul. 2019
RADAR
Figa canhota -I
16 Jul. 2019
Publicidade
Nice Kriola

100% Prático

publicidade





Mediateca
Cap-vert

Uhau

Uhau

blogs

publicidade

Newsletter

Abonnement

Copyright 2018 ASemana Online | Crédito: AK-Project