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José Maria Neves analisa crise política na Guine -Bissau e as relações internacionais em tempos do Covid - 19 27 Abril 2020

A crise política na Guine- Bissau é o tema abordado pelo antigo chefe de governo de Cabo Verde, na sua crónica de hoje. José Maria Neves analisa os feitos históricos do país de Amílcar Cabral, as relações com Cabo Verde e o reconhecimento, em tempos do Covid - 19 , do Umaru Sissoko Embaló como presidente da República pelas organizações internacionais. «Do meu ponto de vista, a solução dos problemas da Guiné-Bissau passa pelos próprios guineenses. ’Por mais quente que seja a água da fonte, ela não cozerá o teu arroz’, já tinha dito Amílcar Cabral», parafraseou José Maria Neves. Para o ex - Primeiro - ministro de Cabo Verde, os principais protagonistas políticos terão que sentar-se em torno de uma mesa de reconciliação nacional, em busca de acordos e consensos fundamentais, que lhes permitam refundar o estado, garantir a paz e a estabilidade, reconstruir o país, abrir os caboucos e lançar os alicerces do desenvolvimento político-institucional e económico. «O povo da Guiné-Bissau merece esse ’sacrifício’ da sua elite política», conclui. Confira o conteúdo do artigo a seguir, também publicado na página de facebook de José Maria Neves.

José Maria Neves analisa crise política na Guine -Bissau e as relações internacionais em tempos do Covid - 19

GUINÉ-BISSAU E A ILOGICIDADE DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS EM TEMPOS DO COVID 19

Tenho uma grande amizade e simpatia pelo povo da Guiné-Bissau.

Gosto do seu crioulo, da sua comida, da sua música, das suas gentes, da sua tremenda beleza paisagística, da sua fina generosidade e sincera irmandade para com os caboverdianos.

Sempre que visitei aquele país irmão senti-me emocionado. Em vários momentos vieram-me lágrimas aos olhos e não pude conter a emoção por pisar o solo de uma das pátrias de Amílcar Cabral. Os guineenses consentiram enormes sacrifícios para a nossa libertação do jugo colonial.

É eterna, pois, a nossa gratidão.

O primeiro das ex-colónias portuguesas em África a ascender a independência (24 de Setembro de 1973), ainda antes da Revolução dos Cravos em Portugal.

Aliás, a luta armada de libertação da Guiné e Cabo Verde conduzida pelo PAIGC foi essencial para a mobilização dos Capitães de Abril e para o derrube do regime salazarista.

Mas, desde a independência, a Guiné-Bissau nunca teve estabilidade. Golpes de Estado, assassinatos de adversários políticos, crises económicas e instabilidades governativas caracterizam o quotidiano da vida política naquele país vizinho.

As instituições são frágeis, não há nem tolerância nem paciência para o exercício sereno e estável do poder político em democracia.

As disputas políticas são uma questão de vida ou morte. Quem ganha ganha tudo, quem perde perde tudo.

Ninguém está disposto a fazer a penosa travessia do deserto na oposição. Quem perde começa a conspirar no dia seguinte para não ficar arredado da mesa do poder. Tudo é líquido. Desfazem-se alianças, conspira-se e derrubam-se governos. A Constituição não conta, serve tudo e o seu contrário, conforme os interesses interpretativos de cada um. O processo político é ilógico e irracional. Os atores políticos não se entendem, a violência grassa e os desacordos são irreconciliáveis.

Nos meus três mandatos como Primeiro Ministro, trabalhei com os Presidentes Kumba Yalá, Henrique Rosa, Malan Bacai Sagná, Nino Vieira, Raimundo Pereira, Serifu Namadju e José Mário Vaz.

Perdi a conta dos Primeiros Ministros. Em Cabo Verde, recebi as visitas de Alamara Nhasé, Carlos Gomes, Júnior e Domingos Simões Pereira. Fiz três visitas oficiais, duas nos mandatos de Carlos Gomes Júnior e uma no de Domingos Simões Pereira.

As perspetivas de cooperação sempre foram muito boas, mas a instabilidade política não permitiu que se fizesse nada.

Cansaço da comunidade internacional

Do meu ponto de vista, verifica-se um cansaço da comunidade internacional em relação à Guiné-Bissau.

Há algumas semanas disse a um amigo que as instituições internacionais acabariam por reconhecer Umaru Sissoko Embaló e o status quo por ele criado.

Só assumiu o poder naquelas circunstâncias porque tinha fortes apoios no seio da CEDEAO. Logo após a divulgação dos resultados eleitorais provisórios, visitou vários países africanos, entre os quais Cabo Verde, para agradecer aos amigos o apoio concedido durante a campanha eleitoral.

Na sequência da posse “simbólica”, perante os seus apoiantes, fez visitas de Estado ao Senegal, Níger e Nigéria.

Para mim, conhecendo a forma como a CEDEAO funciona, o reconhecimento oficial de Umaru Sissoko Embaló era uma questão de tempo.

A comunidade internacional, a braços com a mais devastadora crise sanitária dos últimos cem anos, com graves consequências políticas, económicas e sociais, para além de cansada, já não tem tempo nem recursos para analisar e apoiar na resolução da questão da Guiné-Bissau, um dos países mais pobres do mundo.

A solução encontrada, que eu já previra, foi deixar como está para ver como é que fica.

Assim, foi sem surpresa que recebi o comunicado da CEDEAO e dos outros organismos internacionais e países. Nem vale a pena tentar identificar incoerências nos comunicados divulgados nos últimos dias. Infelizmente, nesse plano, não há lógica nem racionalidade. As decisões da CEDEAO, que viabilizaram a permanência de José Mário Vaz na presidência, após ter terminado o mandato, a nomeação do Governo de Aristides Gomes e as eleições presidenciais, também foram tomadas à revelia da Constituição e continham muitas contradições.

Do meu ponto de vista, a solução dos problemas da Guiné-Bissau passa pelos próprios guineenses. “Por mais quente que seja a água da fonte, ela não cozerá o teu arroz”, já tinha dito Amílcar Cabral.

Os principais protagonistas políticos terão que sentar-se em torno de uma mesa de reconciliação nacional, em busca de acordos e consensos fundamentais, que lhes permitam refundar o estado, garantir a paz e a estabilidade, reconstruir o país, abrir os caboucos e lançar os alicerces do desenvolvimento político-institucional e económico.

O povo da Guiné-Bissau merece esse “sacrifício” da sua elite política.

José Maria Pereira Neves

( Ex Primeiro- ministro de Cabo Verde)

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