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Actor Jorge Martins: Juventude em Marcha continua firme e forte, apesar da “antipatia” do Ministério da Cultura 20 Mar�o 2021

Dada a crise provocada pela pandemia de Covid-19, o grupo teatral Juventude em Marcha (JM), com sede em Santo Antão, continua as suas atividades, fazendo o público soltar gargalhadas com as suas cómicas situações e linguagens. Jorge Martins, líder desta companhia em entrevista exclusiva ao Asemanaonline, denuncia que o Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas, comandado por Abraao Vicente, nada fez para ajudar o grupo a contornar a situação, algo que já é habitual. No entanto, as atividades não param, mesmo sob limitações, e que esperam pacientemente por dias melhores. Dirigindo-se à classe de artistas, o responsável da JM, que é também actor, apela a todos a lutarem sempre pela liberdade, combatendo a instrumentalização política. «Cada um, individualmente, é livre de fazer as suas escolhas porque estamos num Estado de Direito Democrático, mas espero que não se deixam ser levados pelo instrumentalismo politico e não se façam refém da política». Confira, a seguir, a entrevista com o dirigente da Juventude em Marcha, um grupo teatral nacional que sempre enche a sala de espetáculos e leva qualquer um ao clímax de gargalhas com as peças cómicas que retratam ou analisam a vida quotidiana dos cabo-verdianos.

Entrevista conduzida Por: Arménia Chantre/Redação

Actor Jorge Martins: Juventude em Marcha continua firme e forte, apesar da “antipatia” do Ministério da Cultura

Asemanaonline - Como estão a decorrer as atividades do grupo neste momento, com esta situação da pandemia de Covid-19 no país e no mundo?

Jorge Martins - O nosso grupo teve que adaptar à realidade. Cancelou todos os espetáculos e digressões, previamente organizados, mesmo que para tais tivesse investido somas avultadas em preparativos. Preferiu dar valor à vida e à saúde, sem as quais nada será possível. Aguarda-se pacientemente que a situação se normalize, estando preparado para continuar com as suas atividades de palco e produções cénicas.

Que estratégias o grupo tem usado para divulgar as suas atividades?

- Não obstante, temos aproveitado essa interrupção na produção de peças teatrais, reorganização e adaptação à nova realidade, realizando lives, num programa de parceria com a CV-Sonhos, em São Vicente, com a apresentação da peça teatral «Pinha e Kentey» e sensibilizando pessoas de como prevenirem no combate ao vírus. Já apresentamos o sketch «Covid» em todos os concelhos da ilha de Santo Antão e neste fim-de-semana, encerramento o ciclo de seis espetáculos na ilha das montanhas, evitando aglomerações, com representações espontâneas e com fortes medidas preventivas e de segurança.

As mensagens têm sido claras, concisas e objetivas por forma a serem devidamente descodificadas pelo público-alvo. Promovidas pelo Projeto Superar e pelo ADPM - Mértola, em parceria com a Juventude em Marcha, as Câmaras Municipais de Santo Antão, o IMVF, o Instituto do Turismo de Cabo Verde e co-financiado pelo Camões-IP, os espetáculos, de duração nunca superior a 30 minutos, têm agradado significativamente o público que tem ocorrido aos respetivos espaços, num clima de muita ordem, civismo, tranquilidade e em estrito cumprimento das regras impostas.
Seria tão oportuno como importante, as instituições ligadas as áreas da saúde, da segurança, do Turismo, de hotéis, enfim, outras tantas empresas públicas e privadas, pudessem aproveitar essa belíssima produção e ser apresentada nas restantes ilhas do país. Podendo, inclusivamente, co-financiarem uma produção audiovisual que mais facilmente abrangeria o universo nacional.

Antipatia do Ministério da Cultura e aprendizagem com a crise de Covid-19

Que desafios têm enfrentado durante esta crise pandémica?

- Os desafios são vários, sabendo que não se tratava de uma situação esperada. Não tem sido tarefa fácil driblar esses desafios. Mas temos de ser criativos e nunca desistirmos de continuar. Se antes não tinha sido fácil, pior agora.

É preciso realçar que o Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas nada fez para ajudar, particularmente o grupo a contornar a situação, coisa que já estamos habituados. Daí não nos preocuparmos com tal antipatia.

Sabe-se que o grupo sobrevive das receitas que consegue angariar em espetáculos, tanto dentro como fora do país, muito embora tenhamos que batalhar com unhas e dentes para cobrir as despesas que são enormíssimas.

Qual o aprendizado que tiram neste contexto de covid-19 que todos estão a viver?

- A sobrepor-se aos valores. Aprendemos a pensar e a refletir que com as crises susceptíveis de acontecerem a qualquer momento temos de nos prepararmos de como contornar as situações adversas e que elas aparecem como oportunidades de nos evoluirmos e crescermos, tanto individual como coletivamente. As dificuldades interpelam-nos a sair da zona de conforto e procurar soluções de como enfrentar os desafios e estimular a utilização de habilidades adormecidas. As mudanças trazem consigo resistências motivadas pelo medo do desconhecido e um futuro incerto.

Todavia, é preciso que se saiba que a vida é uma dinâmica constante e temos, necessariamente, de aprender a lidar com tudo isso. Sendo certo que a pandemia mudou a rotina diária de todos nós, ela trouxe-nos novos hábitos, mas também perdemos muitas coisas, tais como: a insegurança e o controle das situações. Mas, isto não nos impede de continuarmos a caminhada. E a melhor forma de conseguir isso é encontrar a faceta positiva das adversidades e aprender com elas para não nos tornarmos reféns de um dado problema.

É curioso saber que, independentemente do país em que vivemos, da situação em que nos encontramos, a classe social e cultura a que pertencemos, aprendemos que somos todos iguais.

O confinamento a que todos estamos sujeitos leva-nos a ter muito mais tempo de dedicação à família, ao conhecimento de quem somos e o que queremos, de autoconhecimento e solidariedade que é fundamental para se viver em harmonia, paz social e partilha constante com o próximo.}

Périplo internacional e novas peças

Está previsto algum périplo internacional do grupo proximamente?

- Tínhamos agendado um périplo à Europa e aos Estados Unidos da América (USA) que só não realizamos devido a esta crise provocada pela pandemia de Covid-19. Todavia, mantém-se de pé este projeto que, simplesmente, estamos a aguardar pela normalidade da situação para o realizarmos. Já estamos com imensas saudades dos nossos fãs e amigos espalhados pelos diversos quadrantes do mundo e eles também têm manifestado este sentimento. Estamos perseguindo nossos objetivos e a trabalhar arduamente para logo que essas oportunidades surgirem, estarmos aptos a levar lindas mensagens às nossas gentes, aprimorando sempre para que melhorias acontecem no seio do elenco, sabendo que, cada dia, temos um público mais exigente que nos interpela a produzir trabalhos com muito mais qualidade. Sempre foi este nosso propósito e vamos perseguir, com empenho, dedicação e zelo, este objetivo, a bem do nosso teatro, a bem da nossa cultura.

Tem algum projeto em curso, nomeadamente gravação de novas peças cénicas da Juventude em Marcha?

- Temos vários projetos de produção audiovisual em carteira, alguns de convites internacionais e outros tantos da nossa iniciativa, mas que prometemos, oportunamente, divulgá-los logo que retomemos à normalidade. A experiência recomenda-nos a ter uma visão estratégica com as nossas produções face a uma pirataria desenfreada e constante que nos impede de comercializar os nossos produtos e, perante uma autoridade passiva e inoperante que não protege o trabalho árduo e custoso dos artistas, embora haja leis neste sentido.

Todo o nosso investimento tem caído por água abaixo, acarretando-nos com inúmeras despesas sem que tenhamos um reconhecimento de quem de direito, no sentido de salvaguardar aquilo que consideramos ser um valioso património intelectual do nosso povo. Pois, tudo que está nas nossas produções diz respeito a memória coletiva das nossas gentes.

Artistas e liberdade

Que mensagem deixas a todos aqueles que vivem do teatro?

- Esperamos e desejamos que todos os artistas das diversas modalidades da arte se juntam para essa nova etapa da vida e não se subjugam aos interesses políticos e partidários de quem quer seja. Cada um, individualmente, é livre de fazer as suas escolhas porque estamos num Estado de Direito Democrático, mas espero que não se deixam ser levados pelo instrumentalismo politico e não se façam refém da política.

A arte deixa de ser arte quando somos manipulados e perdemos a nossa liberdade. Ela só pode ser livre, imaginativa e criativa quando somos livres e libertos de qualquer situação de subjugação ou segregação de valores, enquanto seres humanos, de honra e de caráter. Diz André Suarés que «A arte é o lugar da liberdade perfeita».

«A arte existe para que a liberdade não nos destrua», confessa Friedrich Nietzche. Logo, concluirmos que a arte é uma forma de crescimento para a liberdade, um caminho para a vida, pensamento que comungamos e que não podemos abdicar.

A união faz a força! Sejamos sempre mais nós!!! Bem-haja o teatro e as diversas modalidades da arte!
— -

As peças mais famosas da Juventude em Marcha

-* Canjana

- Uma longa-metragem de 80 minutos, que revive as fomes da década de 1940, mais precisamente a de 1946, resultante da 2ª Guerra Mundial. Conforme o grupo, mostra também qual a importância que o encalhe do navio John Schmeltzer teve na salvação das gentes de Santo Antão e de Cabo Verde. Segundo a história, a embarcação tinha os porões recheados de comida.

Além da peça referida, a JM transportou para o cinema diversas outras como:

  • Rabo de Bruxa,
  • Problemas de Família,
  • Partilha das Almas,
  • Preço de um contrabando, entre outras.

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