LUSOFONIA

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

LOL, Luís 10 Junho 2020

A olhar o Índico, Luís Vaz de Camões vai ultimando "Os Lusíadas", a maior epopeia portuguesa, émula da primeira latina, de Virgílio. Luís lírico-épico-dramaturgo-comediógrafo com mais quatro séculos e meio (quase). Sério conhecem-no, os que o conhecem. Um Camões do riso? Capaz de ser portador de "LOL”? Pensas ter razão na negação, mas olha que com a familiaridade muitas gargalhadas nos arranca o Camões. Olha, o riso perante a fanfarronaria do Veloso. Nos autos. Nos versos, os que nos habituámos a ver em lírica e que nos surpreendem pelo lado jocoso, se calhar mais sorriso vinciano.

LOL, Luís

O manuscrito na mão do náufrago que o salva acima da sua cabeça por entre as “túrbidas vagas” (1). Esta foi a minha primeira imagem do Camões, meio século depois do selo do quarto centenário natalício (mais ou menos).

O manuscrito que Camões n’esta ilha pequena, que habitamos, / É em toda esta terra certa escala / De todos os que as ondas navegamos, viveu dois anos, entre 1567/8 e 1569/70.

O naufrágio. Depois Goa onde se instalou enquanto esperava o amigo Diogo do Couto reunir dinheiro para a passagem de regresso à Lisboa onde ia editar a sua maior obra.

O selo (foto) comemora o nascimento e é a memória da imagem primeira vista e de que a memória não registou o onde. Na escola da travessa da condessa, a uns duzentos metros da estátua que olha para o oriente? Ou foi ainda na escola central da Povoação, a quatrocentos mil quilómetros da anterior, na ilha à espera da primeira estátua-memória-camoniana-materializada?

O rolo manuscrito da epopeia … em pergunta puxa pergunta: hoje como seria? E a resposta é que hoje não seria. Em vez de salvo das temíveis ondas do Índico, a supor que um cargueiro desse boleia ao indigente poeta… boa parte das cento e cinquenta e seis oitavas estariam já encriptadas nas ondas world wide web.

Luís lírico-épico-dramaturgo-comediógrafo com mais quatro séculos e meio (quase). “Só pode ser para trazer LOL”, tens razão. O riso em todos os tons.

Muitas gargalhadas, que nos arranca o Veloso (Disse então a Veloso um companheiro /(Começando-se todos a sorrir)/-Ó lá, Veloso amigo, aquele outeiro/É melhor de descer que de subir. /—Sim, é, (responde o ousado aventureiro)/Mas quando eu para cá vi tantos vir/Daqueles cães, depressa um pouco vim/, Por me lembrar que estáveis cá sem mim”). O bojofe fanfarrão Veloso.

Riso mais LOL pois no extrato epopeico acima. Outros risos, sonoros ou com o decoro de sorrisos vincianos, serão trazidos à luz.

A educação do futuro

Sem material de conservatória, escasseiam os dados para a biografia. Onde, quando nasceu? Coimbra, Lisboa, Constância? Importa?

Estudou onde, o quê, com quem? Importa? Se a obra diz, se calhar diz tudo o que importa. E só falta ouvi-la.

Ouvir o que meio milénio depois ele nos diz em diálogo, numa chat room só para quem é um/a João sem medo. (Que até pode vir da terra dos chorões, mas não teme fazer a engenharia adaptativa necessária).

Ouvir o diálogo de que a educação se tornou veículo quiçá em Coimbra por nepotismo… E atalhamos, nós gerados num admirável mundo novo da meritocracia, "Mas nesses tempos de que outro modo seria?".

O tio letrado eclesiástico existiu, talvez. O pedagogo que (talvez) nos preparatórios fustigou o menino. Todos os caminhos?, o desse tempo era o da vara para não estragar o menino.

Caminhos abertos com dor, em contraste com a via aberta ao Daniel a quem o João das Dornas amenizou a dura aprendizagem.

Os caminhos a abrir para o diálogo de Camões com Virgílio, Homero, esses pioneiros do tempo mítico que abriu caminhos para o diálogo com a ciência que temos hoje … ou não?

A formação do futuro artista, mas também do cientista começa cedo, tem de começar cedo. Não o sabemos hoje, porque o esquecemos. E vamos pagar o preço, que pena.

Ou há esperança e usamos o riso nos intervalos entre um e outro exercício para a recuperarmos?

Os cinco risos

Falo só de um, o “riso honesto” da Tétis que tornou em promontório Adamastor. Imobilizou para sempre o gigante que se aventurava por todos os mares, do Mediterrâneo ao Mar Roxo e deste ao Índico muito antes do Atlântico.
Um riso em oxímoro, pois ‘tá claro! (dirás em tosco registo).

Um riso em oxímoro, riso com dois adjetivos incompatíveis, para melhor expressar esse ludibrio indispensável para domar o gigante Adamastor. O aventureiro dos largos mares levado ao engano metamorfoseia-se em rochedo-muro de Berlim antecipado, que continua a cláusula contratual manhosa na geoestratégia entre os elefantes que pisam a Terra sufocando-a, matam o que é bem de nós todos — mas temos de ter esperança para agir enquanto há planeta.

Onde entramos na aventura

Os limites da interpretação! Os limites já foram este cabo onde a corrente fria /lava e rega gentes estranhas do negro Sanagá. E o estranhamento fascina, primeiro. Ao Camões demos-lhe o que podíamos, um busto na praça (foto menor ao alto), que as mãos não chegam às largas costas da estátua.

Mas do fascínio da infância, dessa primeira descoberta pode todavia nascer o medo. Talvez melhor sirva o indefinido: um medo que desencadeia a defesa e a ofensa presentes. No entanto, o futuro é o lugar da esperança — mesmo se sempre frustrada — de que "um dia seremos todos irmãos", como traduzo o Manel D’ Novas.

A esperança a mitigar o desencanto? Este que á lá nas entrelinhas da épica maior e das líricas, mesmo a jocosa que até soa a curcutiçã/kurkutisan, coladeira/koladera. Camoniana? Muito antes disso, mas a marca serve bem, orienta como fio nos labirintos que criámos para codificar o nosso mundo.

E se há diálogo sincero, renasce a esperança. Reconstruiremos a esperança de tempos pré-homéricos, certos na nossa sinceridade de que mergulham nos fundos corredores coletivos da memória orientada desta África-berço, etiopíada ainda por escrever.

Camões só sabia da nação mítica com origem no mítico Luso filho de Vénus. Mas as oitavas são limites de onde se avistam as ilhas ao largo, Hespérides chamadas.

Sem esses limites, a singela ribeira nunca o seria. Singelas de água doce a correr para o imenso oceano, que as neutraliza.

Leu Camões. Tanto que o quis dizer à sua mãe. E é esse pequeno extrato que importa de Manuel Teixeira de quem só sabemos o essencial. Que importa se foi cónego excomungado por se deixar fascinar pelo novo canto racionalista cristão (do Brasil que no regresso, meio milénio depois, nos fascina com ledo engano)?

Fotos: A estátua é a da ilha de Moçambique. Há internautas que criticam o estado do monumento, falam do "Camões a pedir dinheiro urgente", entenda-se, para a restauração da pedra na ilha no caminho da Índia, a mais árdua carreira de todas as que se conhecem no mundo. Se está assim tão maltratada, a quem se deve atribuir a responsabilidade? ….Nota(1:) Diálogo entre leitores e Camões de que “túrbidas vagas” é indício, primeiro em Eugénio Tavares e depois em Teixeira de Sousa.

MLL

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