OPINIÃO

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Lavar as mãos: Um ato político, mediático e (também) sanitário 05 Agosto 2020

Ficou-me na memoria a figura do senhor enfermeiro, de cabelos grisalhos, e que aparecia nos spots publicitários da televisão pública apelando à lavagem das mãos com uma frase bastante forte, «TUDO KI BU PODE FAZI STA NA BU MÓ», num tom paternal, mas também aos mesmo tempo autoritário e apelativo, ao estilo do I WANT YOU FOR U.S. ARMY do lendário Uncle Sam. Contudo, apesar dos reconhecidos avanços registados e da experiência acumulada no enfrentamento de outras enfermidades (paludismo, dengue, zika, etc.), a COVID 19 pegou-nos literalmente com as “calças nas mãos”. Em 2020 ainda 67% dos moradores da Cidade da Praia não têm acesso à rede de esgotos e 35% não têm acesso à agua canalizada - e estar ligado à rede ainda não é garantia de ter acesso a este precioso liquido todos os dias.

Por :Vlademir Silves Ferreira*

Lavar as  mãos: Um ato político, mediático e (também) sanitário

Reza a historia que nos meados do seculo XIX na Europa, muitas mulheres parturientes estavam a morrer de uma doença conhecida por febre puerperal. Mesmo com os melhores cuidados médicos disponíveis as mulheres adoeciam e morriam imediatamente após o parto.

Este fenómeno intrigou o médico húngaro Ignaz Semmelweis, do Hospital Geral de Viena, que decidiu investigar a sua origem.

Semmelweis constatou nas suas investigações que a taxa de mortalidade devido à febre era muito menor na seção das parteiras. As mulheres grávidas que estavam aos cuidados dos médicos e dos estudantes de medicina estavam a morrer com uma taxa duas vezes superior à das pacientes das parteiras.

Ao contrário do que acontece atualmente, os médicos não eram obrigados a lavar as mãos entre as visitas aos pacientes. Assim Semmelweis concluiu que quaisquer patógenos com os quais entravam em contacto eram levados para a maternidade.
Na primavera de 1850, Semmelweis subiu ao palco da prestigiada Sociedade Médica de Viena para enaltecer as virtudes da lavagem das mãos perante uma multidão de doutores. A sua teoria entrou em colisão com a sabedoria aceite na época e foi rejeitada pela comunidade médica, que criticou a lógica por detrás das suas ideias e o Hospital de Viena foi obrigado a abandonar a prática.

Os cirurgiões começaram a higienizar-se regularmente só a partir de 1870, mas a importância da lavagem das mãos só se tornou mundialmente aceite mais de um século depois. A título de exemplo, só na década de 1980, com as primeiras diretrizes nacionais sobre a higiene das mãos nos EUA, é que a lavagem das mãos foi oficialmente incorporada nos cuidados de saúde norte-americanos.

Mais de um século depois de as teorias de Semmelweis terem sido ridicularizadas, a Universidade Médica de Budapeste alterou o seu nome para “Universidade Semmelweis”, em homenagem à sua persistência inglória no melhoramento da saúde através da higienização das mãos.

Estes factos ajudam-nos a entender que a prática social e sanitária de lavar as mãos é bastante recente na história da humanidade, e que como qualquer processo inovador teve que enfrentar resistências (o velho antagonismo entre conservadorismo e reformismo) para se impor, primeiro no campo médico/científico e posteriormente nas sociedades em geral.

Com a crise provocada pela pandemia do COVID 19 a temática da lavagem das mãos voltou a entrar na ordem do dia na sociedade cabo-verdiana. Este facto fez-me recordar outros momentos, da história recente do nosso país, em que esta questão esteve em destaque nos meios mediáticos.

Com a abertura democrática protagonizada em 1990 a questão da lavagem das mãos foi um tema muito presente durante as campanhas eleitorais. O então recém-criado Movimento para Democracia (MPD) optou por uma estratégia de campanha que procurava associar os então dirigentes do Partido Africano para a Independência de Cabo Verde (PAICV) a uma imagem de gente de mãos sujas como forma metafórica de os conectar a hipotéticos desmandos, abusos e alegados crimes cometidos durante a luta de libertação e os 15 anos de exercício de poder em regime monopartidário.

Os novos atores políticos (muitos bastante jovens na altura) se assumiam então como sendo cidadãos possuidores de um passado “limpo” e, portanto, legítimos merecedores do nobre papel de protagonistas do futuro do nosso país.

O expoente máximo deste recurso estilístico foi sem duvida a campanha para as eleições presidenciais de 1992. O então candidato António Mascarenhas Monteiro apresentou como lema de campanha a frase UM CANDIDATO DE MÃOS LIMPAS. No seu tempo de antena na televisão aparecia recorrentemente um individuo a lavar as mãos num pequeno alguidar com o tradicional sabão de barra azul, num ambiente humilde, sem elementos de luxo, nem torneira de acesso à água canalizada.

O segundo o momento importante em que as mãos limpas voltaram a invadirmos enquanto elo determinante para a manutenção da nossa condição de sociedade foi a crise sanitária provocada por um surto de cólera que abalou a Cidade da Praia em 1995. Se memoria não me falha na altura morreram cerca de 140 pessoas de um total de mais de 13 mil infetados. É impressionante a falta de documentos institucionais, de pesquisas académicas ou produções culturais sobre este triste momento na nossa história recente ocorrido há escassos 25 anos. Parece que lavamos as nossas mãos (como Pôncio Pilatos) não só para nos livrarmos da enfermidade, mas também para apagarmos da nossa memoria que a cólera foi um poderoso e clamoroso indicador da pobreza resultante de políticas predadoras e geradoras de exclusão social e carência de infraestruturas sanitárias.

Há claramente um antes e um depois da cólera para qualquer historiador que queria contar a historia do saneamento básico da Cidade da Praia e de Cabo Verde em geral. Em 1995 os Praienses foram duramente confrontados com a necessidade urgente de mudanças de hábitos pessoais de higiene, melhorias no abastecimento de água, rede de esgotos, recolha de lixo, etc., contudo parece que pouco aprendemos com esta experiência.

Ficou-me na memoria a figura do senhor enfermeiro, de cabelos grisalhos, e que aparecia nos spots publicitários da televisão pública apelando à lavagem das mãos com uma frase bastante forte, «TUDO KI BU PODE FAZI STA NA BU MÓ», num tom paternal, mas também aos mesmo tempo autoritário e apelativo, ao estilo do I WANT YOU FOR U.S. ARMY do lendário Uncle Sam.

Contudo, apesar dos reconhecidos avanços registados e da experiência acumulada no enfrentamento de outras enfermidades (paludismo, dengue, zika, etc.), a COVID 19 pegou-nos literalmente com as “calças nas mãos”. Em 2020 ainda 67% dos moradores da Cidade da Praia não têm acesso à rede de esgotos e 35% não têm acesso à agua canalizada - e estar ligado à rede ainda não é garantia de ter acesso a este precioso liquido todos os dias.

A Cidade da Praia é o epicentro da propagação da pandemia do COVID 19 não apenas por ser a maior concentração populacional do país. É também por ser uma cidade muito desigual, com graves problemas de acesso a bens básicos (transporte público, emprego, espaços de lazer e prática de desporto, água, energia, saneamento, segurança, habitação condigna, etc.).

Substituímos o grisalho enfermeiro por simpáticas e jovens enfermeiras, trocamos o básico sabão de barra azul por sabonetes líquidos e aromatizados, e evoluímos do rudimentar lavar as mãos com água de caneca ou alguidar para modernas casa de banho com torneiras (automáticas, termostáticas e até elétricas) e pias com design de fazer inveja a muitas obras de arte. Contudo, apesar do manancial de novos recursos mediáticos e de marketing disponíveis, ainda continuamos á procura da melhor forma de nos comunicarmos entre os vários “nós” que existem na nossa pequena, mas diversa, sociedade.

Que lavemos as mãos para nos livrarmos dos vírus e bactérias, mas não para nos alienarmos dos problemas estruturantes que a nossa cidade e o nosso país ainda enfrentam.
— 
* Professor universitário

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