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A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

"Li Cores & Ad Vinhos é o meu livro cabalístico” 23 Maio 2009

Filinto Elísio vai apresentar, no dia 4 de Junho, ao público da Praia o seu sétimo livro de poesia - "Li Cores & Ad Vinhos" -.E num lançamento de fora para dentro, o lançamento de "Li Cores & Ad Vinhos" na cidade natal do autor acontece depois de Lisboa e Paris. Em entrevista ao asemanaonline, Filinto Elísio, que dedica o livro aos pais, abre a sua alma de poeta e fala da sua visão de poesia.

Entrevista por: Teresa Sofia Fortes

- O que demarca este livro dos seis anteriores?

- É o meu sétimo livro, o meu livro cabalístico. Um texto que, com modéstia, mas sem recusar a ousadia, procura a espiritualidade de Rimbaud, esse imenso e sofrido poeta que se afirmava sonhador através de um longo, ilimitado e sistemático desregramento dos sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura dentro de si, todos os venenos e suas quintessências. Quanto aos outros livros, tenho um carinho especial pelo primeiro – “Do Lado De Cá Da Rosa” - um dos textos que mais me satisfez ter escrito.

- Li na imprensa portuguesa que dedicas este livro aos teus pais porque foram os interlocutores que te levaram ao caminho da estética. O que queres dizer com isso?

- Quero dizer que não seria poeta se não tivesse os pais que tive. Sou filho de dois intelectuais. Cada um à sua maneira foi me ensinando os meandros da estética e da língua. Em casa, na infância, lia-se literatura universal e via-se cinema numa velha máquina Super 8, ouvia-se jazz e blues e declamava-se versos de Leopold Sedar Senghor. Encenávamos peças de Gil Vicente, entre a criançada. Sou um somatório de tudo isso. Das conversas dos meus pais sobre Sartre e Camus, o neorealismo italiano e a evolução de Cabo Verde. A musica de Sidney Bechet, um dos grandes do jazz. Não posso ir aos detalhes, a risco de cair na pieguice, mas os meus pais marcaram a minha condição estética.

- Li igualmente que Abraão Vicente, que apresentou o teu livro em Lisboa, considera que “Li Cores & Ad Vinhos” é “o espelho da realidade”. Concordas? Em que sentido?

- O Abraão Vicente falou disso durante a apresentação do livro no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. As pessoas gostaram da forma desabrida e solta com que ele apresentou o livro. Quanto ao “espelho da realidade”, tomo-o como leitura do Abraão Vicente, os leitores são co-autores sempre. “Li Cores & Ad Vinhos” pode ser também a realidade do espelho. Seria mais insinuante se fosse.

- A professora universitária Fátima Fernandes enquadra-te no rol de autores cabo-verdianos contemporâneos cuja obra "evidencia uma dinâmica própria, marcando rumos e percursos identitários de uma caboverdianidade desassumida”. Concordas?

- Se Fátima Fernandes, que é uma excelente especialista em literatura cabo-verdiana, o diz, talvez seja verdade ou algo próximo da verdade. Quanto à caboverdianidade desassumida, creio que a caboverdianidade seja um conceito complexo e poliforme que não se atreita à triade cartesiana da Pré-Claridade, Claridade e Pós-Claridade. Pode-se estar fora do fio condutor da Claridosidade e aportar-se os valores da caboverdianidade. Entretanto, costumo dizer, meio a brincar, que não sou um poeta cabo-verdiano, mas um cabo-verdiano que faz poesia.

- "Li Cores & Ad Vinhos" enquadra-se nesta definição de Fátima Fernandes?

- Não vou aqui esmiuçar a escritura poemática do “Li Cores & Ad Vinhos”, mas creio ser um livro fora do fio condutor e do vector da Claridosidade. Tentei recortar as palavras com outros cuidados e jogar nele a lenha de tudo – da solidão, do devaneio, da mística sensual, dos conflitos existenciais, das dialécticas e doutras sensações múltiplas em combustão.

- Vais mesmo escrever uma versão do livro na língua cabo-verdiana? Com que intenção?

- Este livro já está a preparar-se para a versão em italiano. Quem o fará é um grande tradutor romano. Não me suscitou a versão em língua cabo-verdiana, mas era giro ver os meus poemas em crioulo. O que disse há dias numa entrevista foi que tenho poemas em língua cabo-verdiana e que estou a fazer um esforço de apuramento sintáctico e estilístico para que possam ser publicados. São versos em crioulo, em sua raiz. A intenção é ser estrela na minha língua materna e romper com o esfíngico complexo de não fazer escrita criativa em crioulo, síndrome de uma certa elite nossa. Poucos poemas de Cabo Verde são tão lindos quão conseguidos como aqueles em crioulo assinados por Eugénio Tavares, Pedro Monteiro Cardoso e Kaoberdiano Dambará.

- O que expressam os poemas de "Li Cores & Ad Vinhos"?

- Mas isso é falseta que me fazes? Quem sou eu para falar tanto do meu livro e mesmo do poeta Filinto Elísio? Crisolino, meu bom amigo mineiro, considera-me um poeta xamânco da era de aquário. Não sei bem o significado da frase, mas adoro o significante disso, a textura de ser xamânco da era do aquário. O verdadeiro poeta não explica nada, apenas recria possibilidades. Por conseguinte, o “Li Cores & Ad Vinhos” abre todas as portas e escancara-as para o mundo.

- Onde foste buscar esse título e o que quer dizer?

- Este título glosa e goza com a concretude poética. Há duas parcelas distintas. A primeira, a sensorial. De um lado, pretende ser plástico, de quem sugere ler as cores. Doutro lado, pretende ser etílico, de quem suscita e clama pelos licores. E a segunda parcela, também inebriante, posto que nectarino, dos vinhos. De um lado, o dionisíaco. Doutro lado, o adivinhar, o prenunciar, o ter a percepção da vida e seus insondáveis mistérios. A capa, projectada pelo publicitário Sílvio Baptista, terá capturado essa concretude poética. Se calhar, não quer dizer nada.

- Os desenhos de Mito Elias são outra forma de poesia que incluíste no livro?

- Mito tem uma proposta de desenho criativo, autónomo, paralelo e complementar à poemática do livro. É uma outra forma de poesia, sem dúvida. Ele é um excelente artista plástico. Ele tem uma linguagem própria e uma obra coerente.

- Como surgiu a ideia de incluires esses desenhos no livro?

- O Mito é meu confrade antigo, de outros carnavais. Juntos fizemos Sopinha do Alfabeto e por isso fomos ostracizados juntos. Sempre quis fazer um "joint" com o Mito. Quando vi os desenhos, não resisti e convidei o Mito a participar no projecto do livro. A coisa ficou linda, mais linda que a própria causa poética.

- Ao fim de quase uma dezena de livros, pergunto-te: o que te faz continuar a escrever quando os autores em geral se queixam que em Cabo Verde não se lê, ou se lê pouco, muito menos poesia?

- Não escrevo para o mercado, disse-o numa entrevista em Paris. Escrevo para expressar o que me vai na alma. O poeta, na sua individualidade, escreve para a sociedade universal, para a Humanidade. Entre todos os falares com que a sociedade universal revela seu pulsar e sua intenção, presumo ser a fala poética aquela que agrega melhor seus valores e apelos. A escansão poemática vai delineando as texturas abstratas e a alquimia das formas com que vivemos. A essencialidade de tudo é a alma. O que há para além dela é redundante.

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