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Madre Teresa da Etiópia desde a grande fome de 1980 09 Agosto 2021

A ’Madre Teresa da Etiópia’ nasceu Abebech Gobena Heye em 1938 e destacou-se como fundadora do primeiro orfanato do país durante a fome que matou milhões de etíopes na década de 1980. Nos últimos quarenta anos, a grande dirigente benemérita salvou milhares de crianças órfãs.

Madre Teresa da Etiópia desde a grande fome de 1980

Numa entrevista à CNN, em Adis-Abeba, a octogenária dra. Abebech Gobena Heye narrou como um encontro no noroeste da Etiópia mudou a sua vida para sempre. Em peregrinação a um santuário católico do noroeste, encontrou uma multidão de pessoas caídas no caminho, gente que morria de fome. Uma mulher morta segurava a sua bebé ainda viva, que tentava mamar.

"No regresso da peregrinação, era tanta gente faminta por todos os lados que não se podia caminhar".

"Ainda tinha um pouco de pão e tentei dar de comer a quem pudesse. Primeiro foram dois homens. Quando cheguei perto da mulher, já estava morta, mas tinha um bebé que tentava mamar".

«Um dos motoristas encarregados de recolher os corpos disse-me: "Estou à espera que o bebé morra para que possa recolher os dois corpos"».

Gobena respondeu: "Também não posso suportar ver levar a bebé que está viva".

Sem pensar duas vezes, Gobena tomou a decisão que ia mudar a sua vida: "Segurei a bebé, que era minúscula, levei-a para a minha casa", em Adis-Abeba.

Mas as imagens das pessoas que morriam pelos caminhos atormentavam-na e decidiu voltar para o noroeste. Uma equipa ia levar água, para a população que morria também de sede.

"Encontrámos cinco pessoas, três mortas e duas vivas. Um homem moribundo com o filho ao lado. Ele pediu-me: "Por favor, salva o meu filho".

Gobena levou o bebé, mas sabia que estava a pôr a sua segurança em risco.

Governo não reconhece que há fome

"Nessa terrível fome, não havia ninguém de autoridade a reconhecer isso. O governo nesse momento não queria que o público soubesse da fome. Por isso tive que fingir que eram meus filhos".

No final desse ano de 1980, Gobena tinha recolhido vinte e uma crianças. Salvou-as mas com isso perdeu o apoio dos familiares.

"A minha família, o meu marido eram contra: ’Escolhe: ou as crianças, ou a tua vida’, disse-me o meu marido". "A minha mãe e outros familiares disseram: ’Enlouqueceu, tem de ser internada num hospício’».

"Não me queriam em casa. Por isso tive que mudar-me para um terreno que comprei para criar aves, numa zona de floresta".

Durante décadas, o primeiro orfanato da Etiópia, segundo consta nos registos, acolheu órfãos da fome, da guerra e do HIV-Sida.

Luta pela vida, noiva de 11 anos

O pai morreu na guerra etíope-italiana em 1938, no seu primeiro mês de vida, relatou Gobena. De acordo com a tradição, foi viver com os pais do pai. Aos onze anos, foi dada em casamento.

"Sofri por causa das tradições do país em que nasci". Mas conseguiu mudar o seu destino, quando logo que pôde, saiu da casa desse marido que não escolheu e fugiu para a capital, Adis-Abeba.

A capital deu-lhe as oportunidades de estudar, empregar-se, enfim escolher a própria vida, casar-se uma segunda vez agora com o marido que escolheu.

Para as suas filhas adotivas tem uma meta: "Hoje as coisas melhoraram e a minha preocupação não é casá-las, mas criá-las como adultas que podem cuidar de si".

Em quarenta anos, conta setecentas crianças recolhidas no seu orfanato que se tornou também escola. Teve de vender parte das terras, desfazer-se dos seus vestidos para fazer roupa para as crianças.

"Não me arrependo de nada. Deus ajudou-me a me chegar a este ponto. Sempre posso confiar em Deus. Sabia que sobreviveria, cheguei a vender o que fazíamos à beira da estrada. Estou tão feliz porque nenhum dos meninos morreu. Todos cresceram".

Fontes: CNN/BBC/NY Times.

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