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Mais um magnifico Carnaval. Povo de São Vicente é um povo criador! 12 Mar�o 2019

Uma pergunta, já agora, para terminar : o museu do carnaval, é para quando? Tantos plásticos e outros lixos sobrevivendo durante séculos na natureza, e as obras do carnaval condenadas à lixeira? Gente de São Vicente, o que é isso?! Mas um museu a sério, não um espaço onde ocasionalmente sejam expostos os trajes mais majestosos (vá lá isso, já é alguma coisa). Pensemos, todos juntos, num hangar suficientemente amplo para albergar trajes e andores, os registos magnéticos das músicas, os nomes e as contribuições dos grandes protagonistas da festa do Rei Momo, videoteca, projecções … Numa palavra, a história do carnaval em imagens, com salas para reuniões, conferências e debates... Um museu dinâmico e interactivo, em renovação permanente, que de ano para ano se abriria às últimas criações em detrimento das mais antigas, sendo certo que não haveria espaço para guardar todas as peças ad eternum. Mais vale um belo andor sobreviver um ou dois anos do que acabar em cinzas na quarta-feira!

Por: David Leite

Mais um magnifico Carnaval. Povo de São Vicente é um povo criador!

Ki bêlêza!

Mais uma vez a festa do Rei Momo nos deslumbrou: toda essa profusão de luzes, de cores, ritmos, lantejoulas, entre grinaldas, diademas... e coroas! Rainhas e reis de um dia sonhando, cada um(a), com o tao cobiçado título para “reinar” o ano inteiro. As porta-bandeiras e outras “majorettes”, ki bêlêza nossas crioulas dançando esbeltas e graciosa no compasso dos tocadores... Saravá crióla!

Todos os anos o carnaval nos surpreende com renovados toques de criatividade e magia. Os “Mandingas” contagiando turistas e passantes nos seus frenéticos desfiles dos últimos domingos antes do entrudo. O desfile de Samba Tropical, na véspera à noite, o tão esperado “déjà-vu” que todos querem rever pois cada ano nos brinda com com renovadas coreografias, fantasias e batucadas.

Magníficas, as batucadas do carnaval, cada ano mais coloridas, mais ritmadas, mais espectaculares! O gigantismo e a vertigem dos andores alegóricos que só de olhar para eles nos deixam com o credo na boca, lá em cima os dragões cuspindo fogo e outras criaturas fabulosas e colossais…

As fantasias, os trajes reais, simplesmente fantástico!

E nós aqui pasmando, na terra-longe! Olhos fixos num écran que nos mostra as imagens do povo rivalizando de arte e fantasia na festa do Rei Momo, crioulas lindas meneando-se ao ritmo da batucada, o povão das “fraldas” (pobres mais que ricos) brincando na rua, gente pacata e séria ta da pa dod – é carnaval, ninguém leva a mal.

E este desassossego da distância... este querer estar no meio da malta e ter que brilhar pela ausência, de repente esta pergunta que nos consome do interior: - “Ma ukiê k’M tita fazê prei na terra-de-gent?”

Nos bastidores, os criadores de sonhos

Mas a rua não é senão a vitrina visível do carnaval, pois a festa do Rei Momo tem dois tempos: o das pessoas que o desenham e lhe dão corpo, e o daquelas que lhe dão luz e visibilidade. Dou comigo a pensar nesses militantes discretos e sem rosto que passam semanas a fio a dar no duro para dar forma e fôlego ao carnaval. Nos criadores das músicas e outras maravilhas, nessas senhoras incansáveis costurando sonhos, artistas e artesãos serrando, martelando, colando, reciclando. Pessoas que conhecem o frenesim dos estaleiros e ateliers, que até ao último momento zelam, numa azáfama febril, para não haver surpresas no tão esperado dia D. Pessoas que raramente vemos, mas falam por elas suas formidáveis criações, também elas em competição no maior certame de artes, sons e exuberância estética de Cabo Verde. Ou não fosse o carnaval a mais popular e espontânea das nossas expressões artísticas.

Esses homens e mulheres de sombra merecem reconhecimento. Não sei, porque não vi, se são apresentados publicamente, à margem da aclamação dos reis e rainhas. Não sei se já se pensou em condecorar as melhores costureiras (penso na D. Milu Torres), os criadores mais prolixos (penso no Manu "Rasta"), que anos a fio foram imprimindo, desinteressadamente, a sua marca no carnaval. Espero ao menos que tenham lugar reservado na tribuna de honra!

Para quando o museu do carnaval?

Uma pergunta, já agora, para terminar : o museu do carnaval, é para quando? Tantos plásticos e outros lixos sobrevivendo durante séculos na natureza, e as obras do carnaval condenadas à lixeira? Gente de São Vicente, o que é isso?!

Mas um museu a sério, não um espaço onde ocasionalmente sejam expostos os trajes mais majestosos (vá lá isso, já é alguma coisa). Pensemos, todos juntos, num hangar suficientemente amplo para albergar trajes e andores, os registos magnéticos das músicas, os nomes e as contribuições dos grandes protagonistas da festa do Rei Momo, videoteca, projecções … Numa palavra, a história do carnaval em imagens, com salas para reuniões, conferências e debates... Um museu dinâmico e interactivo, em renovação permanente, que de ano para ano se abriria às últimas criações em detrimento das mais antigas, sendo certo que não haveria espaço para guardar todas as peças ad eternum. Mais vale um belo andor sobreviver um ou dois anos do que acabar em cinzas na quarta-feira!

Seria um justo reconhecimento aos artistas criadores, os turistas haveriam de apreciar, e a bilheteira faria entrar dinheiro para a caixa... para outros carnavais.

Mantenhas da Terra-Longe, 10 de março de 2019

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