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Mali: Presidente diz que sai para "evitar derramar sangue" 19 Agosto 2020

Ibrahim Boubacar Keita (foto no rodapé) dirigiu-se ao povo maliano, na noite de ontem (terça-feira, 18) via televisão nacional, a anunciar que " para evitar derramamento de sangue" renuncia ao cargo de presidente, horas depois da sua detenção e do primeiro-ministro por militares rebeldes. A CEDEAO e a UA-União Africana condenaram de imediato o ’golpe de Estado’.

Mali: Presidente diz que sai para

A renúncia de Boubacar — que a anunciou no discurso televisivo e agradeceu "o apoio e o carinho do povo maliano" — foi saudada nas ruas de Bamako por manifestantes que, segundo a AFP, confraternizavam com soldados ridos como responsáveis pelo golpe de Estado condenado pelas duas mais importantes organizações africanas.

Os acontecimentos das últimas horas no Mali, que culminam na renúncia do chefe de Estado, não surpreendem dados os constantes conflitos interétnicos (ver links infra) que fazem dezenas, centenas de mortes e apenas são aflorados nos noticiários internacionais.

A erosão da imagem do presidente Boubacar foi progressiva, proporcional à "falta de ação positiva do Estado maliano", incapaz de acudir as populações vítimas de ataques ora de milícias dogons ora de rebeldes peuls...

Os contingentes das forças armadas nacionais têm sido lentas e só chegam para constatar a mortandade e destruição das aldeias de grupos como dogons e peuls. E alimenta-se assim o ciclo de vindicta itnerétnica.

As disfunções do Estado maliano são profundas e revelam-se na falta de "coesão necessária entre as comunidades", a qual tem conduzido a conflitos constantes sobre os direitos à terra, sejam terrenos agrícolas sejam terrenos urbanos e periurbanos.

Na base desse permanente conflito estão desde as expropriações de terrenos agrícolas muitas delas orientadas por interesses privados que o Estado acaba por beneficiar, segundo o referido estudo, que exemplifica com as relações estreitas entre o poder e o latifundiário Modibo Keita, do GDCM-Grande Distribuidor Cerealífero do Mali.

“As vítimas de expropriações de terrenos, de vendas de parcelas de modo anárquico, de atribuições equívocas de lotes” existem em várias comunidades ao longo do Mali que em extensão é o quinto maior país de África mas cujas áreas agrícolas ocupam um espaço muito reduzido e, por isso, muito cobiçado.

O massacre de peuls por dogons no sábado é só mais um episódio duma espiral violenta de conflitos interétnicos, que causaram perto de dois mil mortos entre aldeãos no Mali nos dois últimos anos, e têm na base a disputa por terrenos agrícolas, como revelam estudos sendo o mais recente o do Cenozo sobre litígios fundiários (veja link abaixo).

A falta de ação positiva do Estado maliano presidido por Ibrahim Boubacar Keita não se revela só na chegada tardia, no último sábado, à aldeia peul onde 134 pessoas foram assassinadas e mais de meia centena ficaram feridas num ataque de milícias dogons. Ogossagou dista treze quilómetros da base das FAMA, mas o contingente local das forças armadas nacionais demorou três horas para percorrer essa curta distância enquanto as milícias dogon dizimavam os peuls, como dão conta os noticiários internacionais.

As disfunções do Estado maliano, como revela o estudo do Cenozo (ver este online 26.mar.019), são profundas e revelam-se na falta de "coesão necessária entre as comunidades", a qual tem conduzido a conflitos constantes sobre os direitos à terra, sejam terrenos agrícolas sejam terrenos urbanos e periurbanos (Link: https://cenozo.org/en/articles/139-quand-la-terre-met-a-mal-la-cohesion-entre-communautes).

Terrenos em litígio são a raiz

Na base desse permanente conflito estão desde as expropriações de terrenos agrícolas muitas delas orientadas por interesses privados que o Estado acaba por beneficiar, segundo o referido estudo, que exemplifica com as relações estreitas entre o poder e o latifundiário Modibo Keita, do GDCM-Grande Distribuidor Cerealífero do Mali.

"As vítimas de expropriações de terrenos, de vendas de parcelas de modo anárquico, de atribuições equívocas de lotes" existem em várias comunidades ao longo do Mali que em extensão é o quinto maior país de África mas cujas áreas agrícolas ocupam um espaço muito reduzido e, por isso, muito cobiçado.

Exemplo : populações da região de Sanamandougou, onde o maior complexo agro-pastoril maliano, GDCM, se instalou, através da sua filiada 3M, dizem-se sufocadas e apontam o dedo ao governo, que não agiu perante o pedido "sem uma única resposta, às autoridades competentes para se implementar as recomendações saídas das duas visitas que as mesmas realizaram no terreno por ordem dos primeiros-ministros Oumar Tatam Ly e Moussa Mara (2013-14)".

Os protestos dos aldeãos afetados foram, na presidência de Amadou Toumani Touré (2002-2012), reprimidos pela polícia de Ségou, a província de que Sanamandougou faz parte, a 200 quilómetros da capital, Bamaco.

Espancados, atirados para a prisão, os aldeãos não baixaram os braços e organizaram-se. Foi sob a sigla UACD-DDD (União das Associações e Coordenação de Associações para a Defesa dos Direitos dos Desmunidos) que atingiram o acordo acima referido. O relatório de 2014 preparado pelas duas missões sob os primeiros-ministros Oumar Tatam Ly e Moussa Mara está disponível online. Mas sem efeitos práticos.

Boubacar traiu-nos

Adama Coulibaly, um dos afetados em Sanamandougou, afirmou há um ano — dias antes dos conflitos da última semana que já fizeram 160 mortos — 134 em Ogossagou e 26 na base militar de Dioura, ambos, na província de Mopti, distante pouco mais de 500 km de Bamaco — que o chefe de Estado, Ibrahim Boubacar Keita, traiu a sua confiança:

"Nós, confiámos em Ibrahim Boubacar Keita que nos ouviu e prometeu fazer justiça. Mas já se passaram dois anos desde que foi eleito e continuamos a viver o mesmo calvário.

"Temos razões para crer que ele preferiu apoiar o homem muito rico e deixar cair a nossa comunidade. É por causa das injustiças desta natureza contra os pobres, cidadãos em situação precária, entre outros, que o nosso país mergulha no caos e está constantemente diante de catástrofes".

Na mesma linha, mas ainda mais explícitas são as declarações do ex-ministro dos Domínios (Territórios) do Estado e Assuntos Fundiários, o advogado Mohamed Aly Bathily: "Os litígios fundiários estão no centro dos problemas da comunidade. As terras são o pomo da discórdia em todos os centros urbanos e periurbanos, são o centro de todos os atuais conflitos no Mali".

Fontes: Le Monde/Arquivos. Link: https://cenozo.org/en/articles/139-quand-la-terre-met-a-mal-la-cohesion-entre-communautes. Arquivo: Mali: Espiral de vingança interétnica por milícias num Estado longe dos pobres e perto do rico – Cadastro digital dos terrenos é única esperança, 26.mar.2019; Mali em espiral de violência interétnica: 95 morreram em aldeia dizimada a pretexto de ajudar djihadistas ... , 11.jun.019; Mali: Conflito étnico que matou mais de 130 faz cair chefias militares, 25.mar.019. Fotos — 1. (Cenozo): Os arrozais em terras ancestrais passaram após expropriação para a GDCM, através do seu ramo agrícola M3- moinhos modernos do Mali. 2. Mapas ilustrativos do fundo de conflitos interétnicos, alimentados também pelos djihadistas, e a guerra civil de 2012-14.

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