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Ex-reféns no Mali libertados em troca com djihadistas: Cissé morreu de Covid, francesa diz: "Já não sou Sophie mas Mariam" —Síndrome de Estocolmo? 30 Dezembro 2020

O opositor maliano Soumaila Cissé morreu no dia de Natal vítima de Covid-19, em França. Refém de djihadistas, foi em 8 de outubro libertado com mais 18, entre os quais a "trabalhadora humanitária" francesa Sophie Pétronin. A moeda de troca: a controversa libertação de cem djihadistas detidos em cadeias do Mali.

Ex-reféns  no Mali libertados em troca com djihadistas: Cissé morreu de Covid, francesa diz:

A morte do político maliano Soumaila (na foto ao alto) — ministro das Finanças entre 1993 e 2002 durante os governos ADEMA-PAS — ocorre a menos de três meses da sua libertação do cativeiro, iniciado em março.

O grupo de Amadou Koufa, ramo djihadista filiado na Al-Qaida, são os suspeitos quer do rapto em 2016 da francesa "médica em missão humanitária não oficial" no Mali, quer do mais recente, de Cissé, de 70 anos, antigo líder parlamentar da oposição e por três vezes candidato presidencial a chegar à segunda-volta.

O ex-ministro Cissé foi sequestrado, após os homens armados matarem o seu guarda-costas, em 25 de março na região de Tombuctu (nordeste) em plena campanha das legislativas.

Com Cissé foram levados mais quinze elementos da sua delegação do partido URD-União para a República e Democracia (que co-fundou em 2003). Ninguém reivindicou o sequestro, marcado pela violência que resultou na morte do guarda-costas do líder da oposição.

Nenhum pedido de resgate chegou e, durante meses, não houve qualquer notícia sobre os sequestrados. Mas o Edil de Koumaira, Amadou Kolossi, levado depois de Cissé, acabou por ser libertado a 10 de maio.

Ao quinto mês, o filho de Cissé recebeu uma carta do pai. Em agosto, Bocar Cissé falou à imprensa sobre o imenso alívio que era saber que o pai estava vivo.

Continuaram os apelos para uma negociação que restituísse os reféns. Por parte dos malianos desde março. Por parte da França, onde o filho da septuagenária (ambos naa foto à direita) esteve durante quase quatro anos presente na imprensa a pedir apoios, a evitar que o rapto caísse no esquecimento.

O preço da sua libertação continua a gerar reações díspares: "Cem terroristas soltos! Quantos vão matar por esse mundo fora?!".

A incógnita continua sobre como vai evoluir a situação na República do Mali, marcada por instabilidade política — com presidentes a serem derrubados por golpes de Estado, o último em setembro e que levou à retirada do presidente Ibrahim Boubacar Keita para "evitar derramar sangue"—, enquanto está ativo o terrorismo por grupos filiados na Al-Qaida e no Estado Islâmico.

Conversão de Sophie em Mariam: Síndrome de Estocolmo

A França continua a interrogar-se mais de dois meses decorridos sobre a cativa por quatro anos que revelou ter-se convertido — "Sou muçulmana. Já não sou Sophie, sou Mariam" — e fez a declaração surpreendente de que os seus carrascos "não são djihadistas, estão a lutar pela sua terra".

A imprensa francesa reporta que o presidente Macron — que esteve no aeroporto a receber os reféns Cissé, dois italianos e a francesa — evitou comentar as falas de Sophie /Mariam.

A comunidade científica tem-se debruçado sobre o caso e colocam-se hipóteses de que a ex-cativa esteja a sofrer de uma doença mental identificada em 1973 como Síndrome de Estocolmo (Stockholmssyndromet).

A doença mental foi assim designada pelo criminólogo e psicólogo Nils Bejerot, que ajudou a polícia no processo de resgate de reféns num assalto a um banco da capital sueca, o Kreditbanken. As vítimas sequestradas durante seis dias, de 23 a 28 de agosto de 1973, defenderam os seus raptores e mostraram um comportamento reticente nos processos judiciais que se seguiram.

A síndrome carateriza-se pelo facto de que a vítima se identifica emocionalmente com os seus raptores e deixa de poder ter uma visão clara da sua real situação e do perigo.

Essa identificação afetiva e emocional com o agressor é complexa: acontece como uma estratégia de sobrevivência, mas a vítima mantém parte de sua mente alerta ao perigo e é por isso que a maioria das vítimas tenta escapar, mesmo em casos de cativeiro prolongado.

O caso mais citado do quadro da Síndrome de Estocolmo é o da americana Patty Hearst feita refém, aos 20 anos, num assalto a um banco pelo grupo de extrema-esquerda Exército Simbionês de Libertação) em 1974. Depois de libertada do cativeiro, Patty juntou-se aos seus raptores, com quem passou a viver e a participar nos assaltos a bancos.

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Fontes: Le Monde/Le Figaro/BBC/Reuters. Fotos (AFP/Wikipedia).

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