REGISTOS

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Mandela e os seus carcereiros 09 Agosto 2020

O que é que faz o vencedor ao leão caído? Nelson Mandela não tinha dúvida sobre a boa resposta, a acreditar nas três narrativas a seguir.

Mandela e os seus carcereiros

A primeira é contada pelo próprio, já presidente. Cerca de quatro anos após ser libertado da prisão e no ano seguinte a ter recebido o Nobel da Paz.

Torturador espera vendetta

Nelson Mandela contou a seguinte experiência que viveu: "Depois que me tornei presidente, um dia pedi a alguns membros da minha segurança para irmos passear pela cidade, almoçar num restaurante. Sentámo-nos num dos restaurantes do centro e cada um de nós fez o pedido que quis".

"Depois de algum tempo, o empregado serviu o que tínhamos pedido e notei em frente à minha mesa um homem sentado sozinho que ainda esperava a sua comida".

A narrativa prossegue com Mandela a pedir a um dos soldados: — Vá e peça a essa pessoa que se junte a nós, que traga a sua comida e coma conosco.

"O soldado foi ter como homem e este veio e sentou-se ao meu lado. O meu pedido chegou e comecei a comer. As mãos do homem tremiam sem parar. Quando todos terminaram de comer, o homem foi-se embora".

O soldado disse: — Esse homem parecia estar muito doente. Como as mãos lhe tremiam enquanto comia!

— Não, não é por isso, disse Mandela. Este homem era o guarda da prisão onde eu estava preso.

"Muitas vezes, depois da tortura a que me submetiam, eu costumava gritar e pedir um pouco de água", contou. "E este mesmo homem vinha sempre e urinava na minha cabeça".

"Foi por isso que ele estava assustado, a tremer: esperava que eu retribuísse agora, pelo menos da mesma maneira, torturando-o ou aprisionando-o, porque sou agora o presidente da República da África do Sul".

"Mas o meu caráter não é esse, nem isso faz parte da minha ética. "A mentalidade de retaliação destrói os Estados, enquanto a mentalidade de tolerância constrói nações", rematou Mandela.

O guarda de Robben Island que escreveu um livro hiperbólico

O guarda James Gregory escreveu um livro sobre a sua amizade com Mandela, considerando-a "o símbolo do milagre da reconciliação racial de que a África do Sul tanto precisa".

Uma bela história. Mas muitos, a começar por Mandela, apontaram os exageros contidos na descrição dessa suposta amizade.

Anthony Sampson, escritor próximo de Mandela, disse que em privado o herói sul-africano não se coibia de apontar que o seu antigo carcereiro mostrava ter ’alucinações’ sobre "as profundas discussões e afinidades emocionais" descritas no livro.

Segundo Sampson, que é um dos biógrafos de Mandela, os detalhes biográficos no livro Goodbye Bafana baseiam-se nas cartas que Mandela escrevia ao futuro presidente Frederik Willem de Klerk e que o guarda James Gregory controlava como seu censor oficial na prisão.

Sampson afirma mesmo que Mandela ainda ponderou levar Gregory a tribunal, mas acabou por decidir não o fazer quando o próprio Departamento Prisional se distanciou do livro.

Mandela doutrina o guarda

O único guarda com quem Mandela teve longas conversas foi Christo Brand. Brand tinha 18 anos quando chegou à prisão de Robben Island em 1978 e as suas experiências eram as da maioria branca favorável ao regime de apartheid.

Mas o convívio com Mandela ia transformá-lo, como contou ao diário londrino The Observer, que o entrevistou na sua casa de Cape Town em 2007.

"Quando cheguei à prisão, Nelson Mandela já tinha 60 anos. Era uma pessoa terra-a-terra mas de trato muito fino. Ele tratava-me com respeito e o meu respeito por ele cresceu. Ele era um preso, eu era o seu guarda, mas nasceu uma amizade entre nós".

Brand confessou ter quebrado as regras para fazer alguns "favores" a Mandela. "Trazia-lhe às escondidas o pão e creme de cabelo preferido ou mesmo cartas. Uma vez consegui trazer-lhe o primeiro neto ainda bebé para ele o abraçar".

Mas "Mandela receava que eu fosse apanhado e castigado. Ele chegou a escrever à minha esposa a pedir-lhe para me incentivar a voltar para a escola. Ele era o prisioneiro, mas queria incentivar o seu guarda a estudar!".

Na altura em que foi entrevistado, Brand contou que depois da libertação de Mandela voltou a Robben Island, mas agora como gerente comercial do museu aí erguido em nome de Mandela.

Perdão presidencial

Mandela convidou Gregory para a sua cerimónia de tomada de posse em 1994.
Perdoou ao carcereiro como perdoou a Pieter Willem Botha, seu antecessor no cadeirão presidencial. Como perdoou ao procurador-geral Percy Yutar, que pediu a sua condenação à pena capital.

Fontes: Históricas.

Os artigos mais recentes

100% Prático

publicidade





  • Mediateca
    Cap-vert

    Uhau

    Uhau

    blogs

    publicidade

    Newsletter

    Abonnement

    Copyright 2018 ASemana Online | Crédito: AK-Project