Cultura

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Entrevista: Músico Manuel de Candinho com projeto de levar Batucadeiras cabo-verdianas ao Brasil 27 Junho 2021

O músico, compositor e instrumentista Manuel de Candinho anuncia, em entrevista exclusiva ao Asemanaonline, que tem, neste momento, um projecto de intercâmbio cultural entre Brasil e Cabo Verde, em que pretende levar oito mulheres batucadeiras do nosso arquipélago, maioria das quais do conselho de São Domingos da ilha de Santiago, ao Brasil. Tudo com o intuito de ensinar as mulheres brasileiras a tocarem e dançarem este género musical cabo-verdiano. Candinho realçou ainda a sua participação num livro internacional na vertente cultural que,para além dos outros países, também será lançado em Cabo Verde. O artista nacional de renome fala ainda de vários outros projetos e aspetos realacionados com a sua carreira musical, que se pode conferir na entrevista que se segue.

Entrevista conduzida por: Maria Cardoso/Redação

Entrevista: Músico Manuel de Candinho com projeto de levar Batucadeiras cabo-verdianas ao Brasil

Agenda para os próximos tempos

Como está programado a sua agenda para os próximos tempos?

- Por agora estamos com um projecto de intercâmbio Brasil - Cabo Verde, que começa a ser implementado nos próximos messes. Vou levar um grupo de oito batucadeiras para nordeste do Brasil para participar numa oficina. Já temos financiamento por uma organização brasileira, mas ainda não temos uma data concreta. Estamos à espera de melhor voo sem ter de fazer escala em outros países e garanto que será breve. O nosso objectivo é mostrar o nosso batuco naquele país e ensinar as mulheres brasileiras a tocarem batuco e quem sabe um dia possa vir algum grupo de batucadeiras brasileiras para Cabo Verde. Este é o evento que temos mais próximo.

A minha agenda para outras actividades ainda está suspensa, visto que a minha agenda é mais a nível internacional e ainda não temos uma abertura total, de fronteiras. Portanto, isso irá depender de vários factores. Irá depender de como o país em que irei fazer o meu concerto estiver. Mesmo tendo algumas aberturas, tenho de vir reprogramar a minha agenda.

Outra novidadea. Fui também convidado para dar o meu contributo na vertente cultural, em um livro que será lançado brevemente no Brasil e também será lançado em Cabo Verde no mês de dezembro.

O senhor falou que irá levar oito batucadeiras para o Brasil. Essas batucadeiras são de alguma região específica de Santiago?

- Optei por dar prioridade às batucadeiras de São Domingos, porque sempre que tenho algo interessante a nível cultural, penso primeiramente no meu concelho, visto que São Domingos é um lugar muito bem falado a nível de cultura. Por isso, tento fazer com que este município tenha visibilidade a nível internacional. O meu plano é que as batucadeiras a serem levadas ao Brasil sejam maioritariamente de São Domingos. Não irei escolher um grupo de batuco específico, visto que, na hora da escolha tenho de levar em conta alguns requisitos.

Crise da Covid-19 e novos projetos

Como artista à solo, tem em mente algum trabalho?

- Estou com um projecto de gravação, mas só que o género de música que pretendo gravar não é comercial. Portanto, é um projeto que vai exigir patrocínio e no fundo, não é um projeto para servir-me enquanto músico e compositor, mas sim, para servir o país. E neste momento, é muito difícil ter rendimento através de gravação. Por isso, estou à procura de financiamento pra lançar mais um trabalho que é instrumental, porque sou conhecido como instrumentista. Expresso a minha música através de instrumentos.

Como tem driblado a situação da pandemia de covid-19 que está tendo efeito devastador na área da cultura e que o que se pode fazer, com a urgência, para ajudar os artistas sobretudo os da área da música?

- Com a pandemia não tínhamos como trabalhar. Portanto, um músico se ele vive da música, obrigatoriamente terá de estar constantemente nos palcos a fazer concertos, caso contrário, ele fica parado. Os músicos profissionais têm sofrido muito com a pandemia da Covid-19. E num país como Cabo Verde em que há escassez de recursos e planos para ressolver os problemas dos artistas, complica ainda mais a nossa situação neste momento de crise em que estamos a viver. Por exemplo, nos países desenvolvidos, os artistas pagam impostos e em situação semelhante ao que estamos a atravessar o país lhe sustenta. Dou um exemplo: tenho nacionalidade holandesa também. Se não tivesse amor à terra, poderia ir viver na Holanda, porque ali as coisas são diferentes. O nosso país ainda não tem uma estrutura ou ainda as autoridades não pensaram em fazer isso.

Penso que as entidades devem usar as suas competências a favor dessa situação no sentido de ajudarem os artistas. Acredito que eles já sabem o que têm de fazer para driblar essa situação.

Contributo às outras gerações da música cabo-verdiana

Na qualidede de músico e instrumentista, o que tem estado a fazer ou pensa fazer não só para relançar talentos consagrados, mas também novos talentos a nível da música cabo-verdiana?

- Eu tenho dado o meu contributo a nível da música em Cabo Verde e tenho plano em continuar a dar o meu contributo. Existem vários artistas como Neusa de Pina, Assol Garcia e entre outros, que hoje são artistas derivado a mim. Hoje são singrados na música, porque passaram por mim e lhes apoiei, influenciei e souberam tirar proveito e hoje são artistas já lançados, reconhecidos e já entraram no universo dos grandes artistas cabo-verdianos.

Como sendo natural de São Domingos, concretamente da localidade de “Chaminé”, quando é que teve o seu primeiro contato com a música?

- Tive o meu primeiro contacto com a música no seminário. Sou muito grato ao Seminário, entrei ali em 1974 e lá tive o meu primeiro contato com os instrumentos musicais. A seguir comecei a ter contatos com os ícones da música em São Domingos, como Ano Nobu, Pascual e entre outros. Depois de sair do Seminário, fui atrás deles porque na minha localidade não tinha instrumentos musicais. Foram eles que me ajudaram a manter o contacto com os instrumentos para poder realizar o meu sonho. Eu era muito sonhador e pensava muito longe. Consegui realizar quase todos os meus sonhos. O meu primeiro sonho era conseguir entrar num grupo musical para atuar num palco e ser visto. Em seguida, o meu sonho era conseguir viajar e conhecer pelo menos Portugal para conhecer os meus ídolos, de entre eles, Armando Tito. Consegui viajar para Portugal e consegui tocar e gravar juntamente com os meus ídolos. Um outro sonho era ser produtor musical e ver o meu nome em um disco, afirmo que consegui. Depois de Portugal, o meu sonho era estudar a música na Holanda e consegui estudar ali durante 3 anos.

Formação e produção musical

Tem em mente algum projecto na área de formação e produção musical?

- Criei uma associação há um ano e meio, denominado Oficina de Cultura e Cidadania Manuel de Candinho. Tive essa ideia, porque vivo em um bairro (Calabaceira), em que os jovens não têm muita ocupação e correm o risco de entrar na delinquência. E dentro dessa associação existe escola de música, escola de estética e beleza, permitindo que as meninas aprendam algo ligado a essa área e também damos possibilidade às mulheres que não têm condições de frequentar um salão de beleza de aprenderem a se auto-produzirem e aumentarem a auto-estima. Dentro da associação, pretendemos também criar estudos de gravação, salas de ensaios e também um pequeno restaurante.

Um balanço da sua carreira como artista. Quantos discos ou cds já gravou e auais têm tido maior sucesso?

— Eu comecei a gravar não para ter sucesso, mas para registrar as minhas obras. Eu queria também estar na lista dos compositores cabo-verdianos, dar a minha contribuição e ver as pessoas a ouvirem a minha música. Os meus primeiros discos eram cantados, mas depois percebi que deveria dar a minha contribuição a nível de instrumentos, porque nessa área me sinto melhor posicionado e capacitado. Eu tinha uma ambição que era ser produtor dos cantores sonantes do país e consegui. Fui produtor de Cesária Évora, Bana e de todas as vozes mais sonantes do nosso arquipélago e até mesmo dos mais jovens como Beto Dias, Gil Semedo e outros.

Gêneros musicais preferidos

Como multi-instrumentista, quais são os estilos e géneros musicais da sua preferência?

- Eu gosto de todas as músicas que sinto que são bons, mas como cabo-verdiano, optei pela música tradicional de Cabo Verde, tentando apresentar-lhe e dar-lhe a melhor qualidade possível. Fora disso, tenho outras opções e preferências pessoais. Como guitarrista, gosto muito de Gypsy Jazz, que é um jazz cigano e também gosto muito de ouvir bossa nova e blues. Portanto, quem me ouve a tocar, consegue sentir a mistura de todos esses géneros musicais.

Os artigos mais recentes

100% Prático

publicidade


  • Mediateca
    Cap-vert

    Uhau

    Uhau

    blogs

    publicidade

    Newsletter

    Abonnement

    Copyright 2018 ASemana Online | Crédito: AK-Project