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A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Mindelo tem olho do dono 07 Fevereiro 2019

Salamansa, destino turístico isto?! A deceção contrastará com a grata constatação de que o ’Caminho de Salamansa’, hoje, faz-se em minutos. O tempo ganho, mesmo se com desconforto, nos não sei quantos quilómetros entre o coração do Mindelo e o povoado piscatório. Bem longe da penosidade da marcha para chegar à Salamansa cantada por quem se dirige à "Armanda". A interlocutora silenciosa que será acompanhada até à selada — só. Tão só, como me parecem estes salamansinos, meio século depois de "Armanda".

Mindelo tem olho do dono

Por: Maria de Torre

A capelinha branca avistada da estrada é a nossa primeira visita. Num ponto cimeiro do povoado, como todas as edificações católicas soem ser, de tão planeadas: "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce".

Estou aqui para desfrutar a vista que alcança longe, daqui. — Olha em frente, a ilha-mãe desta! diz um. Será? - replica-se.

A festa de Santa Cruz é o grande dia da localidade, confirmam os dois anciãos. E depois de serem interrompidos no seu monólogo a dois, por perguntas de quem chegou, voltam ao statu quo ante.

Olha o menino traquinas que atira uma pedra ao pobre cão. Olha que estão de regresso ao fontanário apinhado de gente os baldes, latas, garrafões e até um bidon na sua segunda ou mais viagem. Mais acima é a sentina que está a fornecer água a crianças e mulheres que ainda carregam na cabeça. Carregadores, não, carregadeiras, sim, que vêm dos tempos fundos da memória, daqui e dos outros continentes. E não é carregador, que é da linguagem das novas tecnologias.

Tudo se vê deste alto, no terreiro da capelinha branca redonda dedicada à santa cruz que protege os homens do mar.

"Quem mora no alto não se salva" é um ditado que ouvi a minha mãe. Ela diz-me que a ouviu da mãe dela e remetendo para o avô, que me parece um sábio, decerto iletrado, nascido no século dezanove.

"Quem mora no alto…". É do alto que nos fere a vista a visão do homem, que, descobriremos dentro de segundos, usa a praia como sua latrina quotidiana, como fazia o Nhô David da ilha Fantástica há sessenta anos. Este Nhô David de 2019 caminha ladeando a faixa de areia dourada tão fina, como pudemos há pouco provar fazendo-a escoar por entre os dedos.

Salamansa, destino turístico isto?! A visão da praia-latrina provoca o início do grito que trocámos entre nós.

O grito completa-se quando vemos frustrada a tentativa de almoçar um bom peixe de Salamansa, povoado piscatório, porque ainda o dono não voltou da compra que foi fazer ao ...Mercado de Peixe da Morada.

O Mindelo que tem o olho do dono — o olho que cuida — é afinal bem restrito. A Morada bem cuidada contrasta como descobriremos, com as periferias Este Lazareto tão prometedor, o que foi feito em tantos anos? Esta Ribeirinha? Estas periferias longe da vista da Morada.

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