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Moçambique: "Fui expulsa pelos meus tios" fundadores da Frelimo —Exilada em Itália confessa 03 Novembro 2018

"Eu fui expulsa de Moçambique depois de ter estado no campo de Matutuíne, que era um campo de reeducação militarizado para jovens. Eu era a favor da Frelimo, mas tinha 18 anos, usava jeans, era uma pessoa livre, burguesa", diz Mickey Rebelo dos Santos em entrevista esta quinta-feira, 1, à ’Deutsche Welle’.

Moçambique:

Os exílios num país pequeno são um “partir” para “dar a volta”. Em Moçambique são o castigo imposto pela situação política, como contam as biografias de Sebastião Alba, da geração de 1940, exilado em Braga, ou de Mickey Rebelo Santos, da geração de 1960, exilada em Itália. Ambos pró-independência, viriam nos anos de 1980 a desiludir-se perante o rumo do país e acabaram no exílio.

Falemos hoje de Mickey Rebelo dos Santos, que ao ser expulsa do seu país perdeu a cidadania. Refugiada há mais de 30 anos na Itália, ficou quase 20 anos sem voltar a Moçambique e continua sem passaporte do país onde nasceu e viveu até aos quase 20 anos.

A expatriada Mickey Rebelo dos Santos — sobrinha de dois fundadores da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), Marcelino dos Santos e Jorge Rebelo – conta:
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"Eu fui expulsa de Moçambique depois de ter estado no campo de Matutuíne, que era um campo de reeducação militarizado para jovens. Eu era a favor da Frelimo, mas tinha 18 anos, usava jeans, era uma pessoa livre, burguesa, não tinha feito nada de mal, se não o facto de apresentar-me, não como uma comunista – neste momento, lembremos, Moçambique chamava-se República Popular de Moçambique –, ou seja, eu com o Mao Tsé-Tung [líder comunista e revolucionário chinês] não tinha nada a ver", considera.

"Eu não queria vestir chinês. Eu queria jeans, Beatles e Rolling Stones, eu era isso. Então, não foi justo. Mas eu percebo porquê aconteceu assim", explica.

"Não importa que tu és sobrinha de, neste caso, dois [políticos] muito importantes, que eram o Marcelino dos Santos e o Jorge Rebelo. Tu também vais para a reeducação", afirma.

Lembra: "Apanhei um choque, porque vinha de uma classe burguesa. Não tenho vergonha de dizer". "Tinha uma boa cultura e a prova é que ainda estou aqui e nunca traí o meu país. Nunca fiz política contra Moçambique, continuava a amar o meu país como amo hoje".

20 anos sem poder ir "a casa"

"Eu perdi a nacionalidade. Eu tenho que readquirir a nacionalidade, que é um processo diferente de quem perdeu só porque foi embora. Eu fui expulsa e, naquele momento, perdi a cidadania", explica.

Vinte anos depois conseguiu obter autorização para visitar a sua terra.

"Depois, soube que tinha sido a minha avó que tinha dado o ultimato ao Marcelino dos Santos e disse: ’Olha, tu encontras a minha neta ou eu vou te bater’. E o Marcelino, que amava profundamente a sua mãe, pôs-se à minha procura e conseguiu encontrar-me. Depois que eu estive com o Marcelino, ele disse-me: ’Podes entrar em Moçambique", recorda.

"Então eu fiz a minha primeira visita a Moçambique. Uma emoção enorme porque é a tua terra. Quando chegas, sentes o cheiro da terra, da chuva, as pessoas, o amor, a comida", diz.

Lamenta não ter agradecido a Afonso Dhlakama pela oposição

A simpatizante da Frelimo fala com estima do líder histórico da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), Afonso Dhlakama.

"Entre os meus planos havia esse de ir cumprimentá-lo e agradecer-lhe, porque de todas as maneiras não pode haver uma democracia sem uma oposição".

"Acho que o Dhlakama fez muito por Moçambique e era importante a sua imagem", considera.

"Com a Frelimo, fiquei bastante desiludida”, diz referindo-se ao Governo de Armando Guebuza. “Há muitas coisas que não foram esclarecidas. Chissano, acho que fez um bom trabalho. Mas depois dele, acho que houve um desastre. Não foi bom. Moçambique foi-se muito abaixo", avalia.

Passaporte moçambicano: pelo coração

A moçambicana expatriada espera poder entrar em Moçambique com um passaporte nacional.

"O problema do passaporte é um problema de coração, não é um problema de necessidade de ter um passaporte. É triste eu ter de estar duas horas à espera porque sou estrangeira, não? Eu não sou estrangeira, eu sou moçambicana", conclui.

Fontes: Entrevista radiofónica à Deutsche Welle. Foto do Facebook de Mickey Rebelo dos Santos.

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