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Moda escravidão : Pèzinhos das chinesas em sapatos artísticos inspiram celebridades 15 Setembro 2019

Muita tortura sofrem as chinesas durante mais de mil anos para ter pés pequenos, tamanho 30, igual a uma criança de sete anos, para caber nos sapatinhos artísticos como o exemplar exposto - desde o dia 13 - no museu de Pequim (foto). Pés de Cinderela, ideal de beleza feminina surgido na China Imperial e que no século XVII entrou nas cortes europeias. Mito de beleza torturante morreu? Veja.

Moda escravidão : Pèzinhos das chinesas em sapatos artísticos inspiram celebridades

As celebridades sobretudo estrelas pop, que aparecem nos tapetes vermelhos e outros pódios da fama em cima de plataformas com formas (foto) que parecem improváveis de as sustentar, sabem porque o fazem – pela fama, já que a exposição mediática do insólito, nem que seja alguns minutos no noticiário do dia, pode ter efeitos multiplicadores.

Mas as jovens de saltos altos que, nas nossas ruas onde ainda não chegou o último piso suave, mal se equilibram e precisam muitas vezes da ajuda duma amiga para não cair no duro empedrado, porque é que se dão a tal tortura, com riscos para a integridade física no imediato e para a saúde geral a longo prazo?

Sofrer para ser bela, sussurram ou dizem alto nos salões cabeleireiros. Fenómeno universal, ninguém irá contestar que mais sofrem as ainda muitas que não aderiram à moda dos cabelos naturais (que frágeis contudo pedem muita manutenção) e se submetem a rituais incompatíveis com esta canícula mundial, de que não se tem memória histórica.

Mas a prática dos pés ligados para manter numa mulher adulta um pé de boneca ultrapassa todas as torturas em nome dum discutível padrão de beleza.

Relatos históricos dão conta que foi em fins do século nono que na corte imperial uma das esposas do imperador teve a ideia de ligar os próprios pés, tornando-os ainda mais pequenos. Gáudio do imperador que ele demonstrou colocando-a acima das outras. A moda pegou.

Ao longo de mais de mil anos, as mães chinesas escolhiam de entre as filhas as que teriam mais potencial para ’casar bem’— as destinadas aos trabalhos duros não podiam ser mutiladas porque isso ia prejudicar a sua capacidade laboral.

As escolhidas eram submetidas aí por volta dos seis anos e até aos doze à prática quotidiana do pé dobrado para ser ligado com faixas. A renovação das ligaduras tinha de ser diária para manter o grau necessário de aperto. Depois dos dedos vinham os ossos próximos que sob a pressão se partiam. Ao longo dos anos, os dedos e esses ossos desapareciam debaixo da planta do pé.

Justificava-se a iniciação aos seis anos. Nem antes nem depois. Antes dos seis, não tinha a maturidade para perceber que era em seu interesse. Era necessário preparar a menina em tempo prévio adequado. Ensiná-la através de mensagens subliminares a suportar a dor que o processo acarretava.

A menina era assim preparada para ser ela própria a aderir à prática, consciente do seu valor para o futuro. A história da Cinderela chinesa contada através das gerações tornou-se pois parte do processo de adesão.

A moda corrente durante parte da história da trimilenária China Imperial, até à sua queda em 1912, alegadamente morreu com o Império. Mas estará ainda vigente em meios fechados na China atual, resistindo ao advento da República, a todas as mudanças sofridas na China ao longo do século XX.

A iniciação dava-se aos seis anos: havia que preparar em tempo prévio adequado a criança. Ensiná-la através de mensagens subliminares a suportar a dor que o processo acarretava.A menina era preparada para ser ela própria aderir à prática, consciente do seu valor para o futuro. A história da Cinderela chinesa contada através das gerações era parte do processo de adesão.

O mito do pé pequeno chegou à corte francesa, ainda não se sabe bem como. Mas a hipótese mais forte é que tenham sido os irmãos Grimm os responsáveis. Eles que, a partir do universal conto popular da ascensão social como prémio após uma infância e adolescência maltratadas, decidiram pôr no centro do mérito o pé pequeno.

Hoje o mito do pé certo para o sapatinho de cristal, que os Grimm criaram no imaginário europeu, tornou-se um símbolo universal. Mesmo se ninguém é obrigada a automutilar-se, o "veja" (acima) mostra que o mito não morreu.

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