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Montrond é nome de conde francês e orgulhoso apelido de centenas de cabo-verdianos 13 Janeiro 2020

A viagem do aristocrata e engenheiro militar francês Armand Montrond a Cabo Verde, há quase 150 anos, mudou a história do arquipélago, tornando-o numa lenda que vive hoje nas centenas dos seus descendentes cabo-verdianos.

Montrond é nome de conde francês e orgulhoso apelido de centenas de cabo-verdianos

À procura de aventura, em fuga da Europa ou a caminho de outro local, o conde Armand Montrond aportou nas ilhas de Cabo Verde no início da década de 80 do século XIX, fixando-se inicialmente no Mindelo (São Vicente) e depois na Praia (Santiago), até chegar, ao fim de três anos, ao Fogo.

Segundo os historiadores, na ilha do vulcão teve pelo menos 12 filhos de diferentes mulheres, até morrer em 13 de junho de 1900, com 56 anos, mas os descendentes cabo-verdianos multiplicaram-se ao longo dos anos e povoaram a região, começando por Chã das Caldeiras, a quase 2.000 metros de altitude.

“Em França, não sabemos como era Armand Montrond, mas aqui era uma boa pessoa. Ajudava muitas pessoas do Fogo e também fez muitos filhos, por isso a família é grande”, conta à Lusa, sempre risonho, Ramiro Montrond, bisneto do francês.

Aos 62 anos, sempre fez vida em Chã das Caldeiras, por entre erupções do vulcão vizinho da sua loja e do cultivo que lhe dá o sustento. É apenas um entre - estima-se - centenas de Montrond, de todas as idades, que vivem na ilha do Fogo e quase todos se conhecem. “Somos muito unidos. Somos uma família unida. Primos, irmãos, tias, tios, avós, netos, somos muitos, mas somos unidos”, garante Ramiro.

De empresários a deputados, passando por músicos ou agricultores, o apelido francês Montrond tornou-se cabo-verdiano, com a maioria a manter as caraterísticas físicas herdadas de Armand: tez clara e olhos esverdeados.

“Ainda hoje não se sabe bem porque é que decidiu sair da Europa, do conforto do seu palacete – os Montrond ainda hoje têm posses consideráveis na Bretanha, norte de França -, ou o que o levou a demandar paragens completamente inóspitas”, explica à Lusa o historiador da ilha do Fogo Fausto do Rosário.

Naquela ilha, onde foi sepultado, no cemitério dos Mosteiros, Armand Montrond foi-se deslocando, com o passar dos anos, das zonas urbanas e da capital, São Filipe, para o interior, até chegar à aldeia no topo do vulcão. Pelo caminho, até chegar praticamente a Chã das Caldeiras, ajudou a construir estradas e teve várias mulheres e, claro, filhos.

“Mas Armand Montrond não chegou a povoar Chã das Caldeiras. São os descendentes, sobretudo dois filhos – Manuel Filipe e Pedro -, que estão diretamente ligados a este processo, que começa 14 a 17 anos depois da sua morte”, explica Fausto do Rosário.

Segundo Ramiro Montrond, familiares franceses já visitaram Chã da Caldeiras nos últimos anos, à procura de um reencontro. “Quando chegam cá, procuram conhecer os familiares Montrond”, conta.

O próprio pai de Ramiro, neto de Armand Montrond, esteve em 2011, pela primeira vez, no solar da família na Bretanha, norte de França. Nho Djonzinho (Joãozinho) Montrond, que entretanto faleceu, era então o mais antigo e conhecido violonista de Chã das Caldeiras e foi precisamente atuar em França, onde conheceu os familiares do lado francês.

“Foi um orgulho”, recorda Ramiro.

Em Chã das Caldeiras, aldeia junto ao vulcão do Fogo edificada há cerca de 100 anos, destruída e reconstruída após sucessivas erupções, todos se conhecem. Máximo Montrond, 53 anos, já trabalhou em Portugal, mas decidiu regressar à aldeia, a sua terra, para trabalhar na agricultura. Conta que é ali, junto ao vulcão, que se sente em casa.

É também bisneto de Armand Montrond e já tem ele próprio três netos Montrond, que vivem em Portugal.

“Somos muitos, centenas. Alguns aqui na zona, outros espalhados pelas ilhas e no estrangeiro. Mas o centro está aqui no Fogo”, relata. E com uma família desta dimensão, que inclusive chegou a levar à edição de uma revista própria, festa é algo que não falta: “Convívios, conversas. É muito bom”.

Sobre Armand, o bisneto recorda os relatos de quem com ele conviveu ou tem memória: “Era um homem espetacular, dizia a minha avó (…) desenhou muitas estradas da ilha do Fogo”.

À Lusa, Fausto do Rosário admite que “ainda falta saber muito” sobre Armand Montrond, que o próprio nunca desvendou em vida, como a escolha de Cabo Verde.

O historiador explica que durante o seu percurso e permanência no Fogo, o francês “teve uma prole bastante grande”.

“Foi um homem de muitas mulheres e deixou uma descendência grande”, recorda, descrevendo-o, tendo em conta as informações que chegaram até aos dias de hoje, como um “engenheiro militar com alguns conhecimentos de medicina”, que utilizou “em benefício da população”.

Até aos dias de hoje, distribuídos por todas as ilhas, os Montrond de Cabo Verde mantiveram os laços entre si, distinguindo-se, explica o historiador, como "empreendedores e ousados".

Criou-se “uma espécie de clã que acabou por influenciar toda esta região, com características físicas muto marcantes, de olhos claros, esverdeados, tez clara, por vezes loiros”, aponta Fausto do Rosário. C/ a Lusa

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