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“Morte de Estaline” e crise diplomática em pano de fundo: Kremlin proíbe filme “ofensivo” e persegue cinemas 03 Abril 2018

Tem estreia mundial, esta quarta-feira 4, o filme do realizador britânico Armando Iannucci que trata em tom de comédia o tema das lutas internas no Kremlin, nos últimos dias de vida do ditador em 1953. Moscovo proibiu a sua exibição em toda a Rússia e o ministro da Cultura levou a tribunal o único cinema de Moscovo que exibiu o filme.

“Morte de Estaline”  e crise diplomática em pano de fundo: Kremlin proíbe filme “ofensivo”  e persegue cinemas

Em plena crise diplomática entre “O Ocidente” e a Rússia, a estreia do filme que satiriza a figura histórica do cognominado “paizinho” Estaline vem deitar achas para a fogueira.

No filme A Morte de Estaline, o cineasta, escritor, produtor e caricaturista político Armando Iannucci — conhecido por séries televisivas como "Veep" e filmes em que satiriza a política dos Estados Unidos em particular e do "Ocidente" em geral, com figuras comparáveis aos atuais detentores do poder político — deixa a atualidade e recua ao ano de 1953. Tal como o título indica, o filme baseia-se na história do fim de Joseph Estaline. Mas não é uma aula de história que Iannucci quer dar às audiências. Como escreve a revista Hollywood na sua última edição: "Para quem conhece a obra deste realizador, não causa surpresa que Ianucci vá a fundo e transforme a história numa comédia negra, que fala aos cinéfilos de hoje e leva as audiências a refletir sobre este nosso tempo e lugar, hoje, seja onde for que estivermos, no planeta".

Entrevista sobre o filme

Aqui, traduzimos a mais recente entrevista que Armando Iannucci deu ao “Hollywood”.

Como é que alguém escreve sátira política, seja ela qual for, mas em especial para filmes, nestes tempos em que vivemos. Eu, não consigo sequer perceber como é que consegues.

Digo que de certa forma eu não faço isso, só estou a olhar para 1953 num outro país. Vê bem: penso que a tentativa de transformar em ficção o que está a acontecer agora só ia fracassar, porque o que está a acontecer agora é tão absurdo. Quando a pessoa no centro disto tudo é o seu próprio comediante, que produz conteúdos para o espetáculo, é muito difícil fazer algo que consiga exagerar essa realidade. Ou seja, as piadas, a sátira são formas exageradas de algo que é verdadeiro, mas que é torcido, moldado para ter um efeito cómico. Mas se a pessoa no centro do poder torce os factos e a verdade e molda-os, já não para ter um efeito cómico, mas para chegar aos seus fins efetivos, então já não há mais nada a fazer.


É interessante que, a meu ver, os comediantes que têm conseguido fazer algo com o que está a acontecer são mais do tipo jornalista, tipo repórter, por exemplo, John Oliver, Bill Maher, Samantha Bee, Seth Meyers, Stephen Colbert, que têm equipas para fazer trabalho de recolha em que baseiam o seu guião, com um ponto de vista, uma opinião, … para poderem no fim deixar os factos falarem por si.

Concordo. Eles só têm de apresentar o acontecimento e falar sobre ele com humor. É isso mesmo: "O que está a acontecer é tão louco que só tenho de dizer o que está a acontecer mesmo. É de loucos, não é? Obrigado, ponto final. Até amanhã, se ainda houver amanhã". (Risos.)

Triste mas verdade, é um grande "se". Mas há uma grande diferença entre “O nosso Presidente de Cartune” que transforma Donald Trump em Peter Griffin. Parece-me que o outro ponto da minha primeira pergunta é que as pessoas vão perceber logo a alegoria. Veem A Morte de Estaline, dizem "Ah! Isto é sobre Trump!" Como é que se tem de aceitar isso? Porque é de de doidos, também.

Bem, devo dizer ... começamos a filmar no Verão de 2016, antes mesmo de Trump ser nomeado o candidato dos Republicanos. No entanto, eu tinha uma razão para escolher este tema (…). Quis fazer um filme sobre um ditador de ficção, atual. Tinha essa impressão que algo de estranho estava para suceder nas democracias atuais, com os eleitorados a fazerem coisas estranhas. Elegeram partidos que antes nunca tinham sido eleitos. Movimentos nacionalistas, populistas e celebridades na Itália que formaram partidos e ainda por cima temos os Putin, Berlusconi, Erdogan e outros do mesmo tipo, figuras fortes, muito autoritárias que mudam as regras da democracia para obter mais poder.

Estava então a pensar num filme desse tipo e aparece o livro ’A Morte de Estaline.’ Mandaram-mo, interessei-me porque pensei na hora: "Isto é tão esquisito, absurdo, uma farsa mas que é uma história assustadora. É verdadeira, e é por isso que eu vou trabalhar nela".

Mas não tenho problema nenhum com as comparações que as pessoas fazem com o que está a acontecer hoje na Casa Branca. O que está a acontecer hoje na Casa Branca é o tal caminho que eu receava, a tal figura autoritária, o homem-espetáculo, o propagandista, a pessoa que quer ter tudo a arranjar-se só por um estalar de dedos, e depois fica chateado, muito chateado por não acontecer como ele queria e deita as culpas a outrem, sempre. Esta era a minha ideia inicial do filme. Depois veio o Trump – quem me dera que não, mas ele aí está – e se as pessoas veem paralelos, então só tenho de estar satisfeito com isso, na verdade.

LS

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