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’Morto’ na Ucrânia tem 2ª vida em castelo de França 12 Dezembro 2022

Em Odessa, a família de Dmitri Malinovsky chorou a morte do homem de 32 anos, o nono deputado ’suicidado’ — metáfora para as execuções ordenadas por oligarcas — em três meses, entre fins de 2014 e início de 2015. Oito anos depois, esta quinta-feira o tribunal de Nancy, no leste francês, condenou o ucraniano dono do castelo de Rochepot a quatro anos e meio de prisão efetiva por "branqueamento de capitais".

’Morto’ na Ucrânia tem 2ª vida em castelo de França

O estrangeiro que, através de várias intermediações, comprou em 2015 por 2,5 milhões de euros o castelo Rochepot à trineta do presidente Sadi Carnot — cuja esposa fez a compra em 1892, um ano antes de enviuvar — dizia sonhar tornar-se viticultor. A descendente dos Carnot, que vive em San Francisco, perante o desenlace em que o edifício volta ao mercado já disse que não está interessada em o reaver.

Durante mais de três anos, entre a primavera de 2015 e o outono de 2018, o estrangeiro que comprou o castelo ’joia da Borgonha’ foi o pulmão que fez viver a sonolenta vilazinha de Rochepot.

Despertava ainda atenção por ser o primeiro oligarca de leste que pisava a região vinícola da Borgonha muito mais habituada aos ingleses e americanos.

Além disso, havia a curiosidade por ser pai de três pares de gémeos e o facto de que as visitas da esposa com os dois pares de gémeos — que chegavam pelo aeroporto de Lyon — nunca coincidiam com as visitas da namorada Olga e de mais um par de gémeos que o motorista ia buscar ao aeroporto de Genebra.

À grande e à francesa

Durante quatro anos o “morto” vive literalmente à grande e à francesa, dá festas, recebe convidados do estrangeiro como a sua "viúva" Alla Malinovsky e os seus quatro órfãos ou a namorada Olga com quem teve também gémeos.

“Monsieur Rodolphe”, como os empregados do castelo se lhe referiam junto dos fornecedores e ao marcarem reservas nos restaurantes, viera atraído pelos vinhos da famosa região vinícola, que consumia “abundantemente”. Os seus consumos nos restaurantes borgonheses – "onde despertava uma descarada curiosidade" — chegavam aos nove e dez mil euros duma assentada.

Essas faturas pagas sempre em dinheiro vivo estão entre os indícios coletados paulatinamente pela equipa de investigação do tribunal de Nancy – especializado em crimes financeiros e por isso preferido ao tribunal de Dijon.

Nos interrogatórios, Dmitri Malinovksy apresenta-se como descendente duma linhagem aristocrática, pai industrial da química, mãe cientista. Ele estudou "ciências comerciais e de logística". Em 2006, com apenas 24 anos, foi eleito para a assembleia municipal de Odessa pelo Partido das Regiões, pró-russo sob a liderança do ex-presidente Viktor Ianoukovitch e financiado pelo oligarca Rinat Akhmetov. Este que é o homem mais rico da Ucrânia opera na indústria do carvão e metalúrgica, é dono do club de futebol Chakhtar Donetsk.

Odessa, "reino do contrabando e das máfias de leste". Segundo a investigação jornalística do Newsweek, uma misteriosa onda de “suicídios” de políticos autarcas atingiu a cidade portuária do Mar Negro em 2014 e 2015. “Em menos de três meses oito deputados alegadamente suicidaram-se”, por diversos meios incluindo a defenestração dum nono andar.

“Os oligarcas lutam para preservar ou alargar a sua influência e executam todos os que os ameaçam”, conclui a longa reportagem que esse semanário dos Estados Unidos publicou em 2015.

Prisão

A vida pródiga termina em 5 de outubro de 2018. Manhã cedo a pacata La Rochepot acorda sobressaltada com uma vasta operação policial. Bem cedo, veículos da polícia sobem a única rua que leva ao castelo. Atónitos, os habitantes veem-nos passar a ponte-levadiça do século XII e recentemente restaurada, bater à porta e declarar o mandado judicial para buscas no interior.

Longas buscas até à tarde nas quarenta divisões da ‘joia da Borgonha’. Ao fim de longas horas de busca, as autoridades saem com duas metralhadoras, um revólver com silenciador, valiosas joias, relógios de luxo, cabides com fatos Hermès, conjuntos de malas Louis Vuitton, além de malas recheadas de notas de 500 euros. Na garagem ficou um carro de 350 000 euros que, agora nesta quinta-feira, o tribunal declara perdido para o Estado. É um Rolls-Royce Phantom VI, o modelo de que se fabricaram exclusivamente trezentos e setenta e quatro exemplares entre 1968 e 1991.

Recusa ser extraditado

Três semanas depois da detenção, as autoridades de Kiev pedem a extradição de Dmitri Malinovsky, que recusa alegando: “Na Ucrânia corro perigo de vida”.

Mais: em vez de aproveitar a liberdade condicional, requer às autoridades francesas que o mantenham preso. Para sua segurança, pois alega “é fácil eu morrer, até de um tropeção estúpido, na rua ou na prisão ucraniana”.

Alla condenada a um ano de prisão

A jovem "viúva" Alla Malinovsky contou à polícia em Odessa que o marido, nesse 24.10.2014, a caminho do tribunal morreu num acidente de carro. As cinzas estão numa urna. A polícia decide não investigar mais. Oito anos depois, Alla é condenada a um ano de prisão por esta cumplicidade sobre as cinzas — que não podem ser de Dmitri… que está vivo.

Fontes: Le Figaro/Newsweek/ Fotos: O escroque ucraniano. A ’joia da Borgonha’ é um castelo do século XII que com as suas múltiplas torres neo-góticas, os fossos e bosques circundantes parece saído do conto da Bela Adormecida. Esteve durante séculos abandonado até que a senhora Sadi Carnot o adquiriu e se empenhou em lhe restituir o esplendor medieval, com os fossos a serem revitalizados com diversas espécies da fauna e flora.

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