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Movimento Civil para as Comunidades Responsáveis: Manifesto público de protesto à forma como a Câmara da Praia e outras entidades fazem abate em massa de cães abandonados 12 Agosto 2018

O Movimento Civil para as Comunidades Responsáveis (MCCR: https://www.facebook.com/comunidaderesponsavel ) diz, num manifesto público remetido a esta jornal, estar indignado pela forma como a Câmara Municipal da Praia e demais entidades de Cabo Verde estão « a abater em massa os cães abandonados», como forma de controlo da população canina. Protesta que, «além de retrograda, bárbara, cruel, anti-ética e contra a declaração universal do Direito dos animais da UNESCO ( A Declaração Universal dos Direitos dos Animais foi proclamada pela UNESCO em sessão realizada em Bruxelas - Bélgica, em 27 de Janeiro de 1978 ), o extermínio por envenenamento ou eletrocussão nunca resolverá a sobre-população canina». Confira a posição do movimento, através do Manifesto de Protesto ( está também em petição online http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT90293), que publicamos a seguir.

Movimento	Civil	para	as		Comunidades	Responsáveis: Manifesto público de  protesto à forma como a Câmara da Praia e  outras entidades fazem abate em massa de cães abandonados

Movimento Civil para as Comunidades Responsáveis Cabo Verde -
Praia, 08.08.2018:

NÃO AO EXTERMÍNIO DOS CÃES ABANDONADOS QUE VIVEM NAS RUAS! SIM A GESTÃO ÉTICA DA POPULAÇÃO CANINA!

Tomamos conhecimento, com profunda mágoa e repugnação das ações de extermínio massivo dos cães que vivem abandonados nas ruas do nosso país. Esta medida adotada como política oficial de controle da população canina nos choca por não estar de acordo com os padrões éticos e científicos atuais, agravados com a crueldade e a barbárie com que é executado o que provoca dentro e nós uma profunda repulsa e revolta.

O cão é um ser senciente igual ao ser humano, além de ter consciência, inteligência tem emoções, sente alegria, sabe amar, mas também sentem tristeza e a dor.
Os cães são recolhidos com brutalidade (ver fotos ), às vezes transportados em carros de lixo, para que depois sejam colocados em condições não menos indignas à espera da sua electrocução, presenciando a morte de seus companheiros. A electrocução acontece num armário de ferro com uma pinça,ambos enferrujados transmitindo pelo menos 380 Volt (ver fotos ) que são introduzidas através do nariz e/ou no ânus. A morte desta forma não é imediata, as veias dos cães se arrebentam e muitas vezes o sangue sai com explosão e o corpo deles convulsiona em agonia por vários minutos em extremo sofrimento até perder a vida. Também temos tido conhecimento do enforcamento dos cães em público para depois serem levados amontoados em carrinhas de mão. No enforcamento os animais relutam, choram e agoniam vários minutos até ficarem estrangulados. Fotos testemunham que os cães nalguns sítios, nomeadamente em Ribeira Grande, Santo Antão, foram transportados em modo de afogo pelo pescoço e pelo rabo . Tivemos também conhecimento de envenenamento de cães (ver fotos). O envenenamento é um método igualmente cruel que pode causar até 36 horas de sofrimento em convulsões dores lancinantes e hemorragias internas. Estas são as medidas estabelecidas e oficiais, decididas em Assembleias Municipais e executadas por seres humanos obedecendo ordens superiores, sem constrangimentos ou peso na consciência.

Perguntamos que valores éticos, morais e comportamentais estabelecem e oficializam os municípios através das suas políticas adotadas? Se é este o comportamento aprovado pelos municípios, então não se poderá condenar ninguém ao torturar e matar gratuitamente animais , mesmo que seja por divertimento. Sabemos que os seres humanos que torturam animais podem estar a um passo de fazerem mal a um ser humano e invariavelmente já o fizeram. Esta é uma grande responsabilidade em se promover a violência que pesa encima dos municípios. Questionamos também a saúde mental das pessoas que fazem esses serviços e até que ponto estarão a ser alimentados sociopatas de sangue frio.

Todos nós, caboverdianos, por diversas razões, estamos ansiosos por ver resolvida a situação dos animais que vivem nas ruas. Quase podemos ter a certeza que, se perguntarmos, ninguém vai dizer que a situação dos cães nas ruas está bem.

Mas, a grande maioria da população caboverdiana condena os atos acima descritos e praticados pelos municípios e mais do que isso, não estão de acordo, em absoluto, em tirar a vida aos cães.

A verdade é que o extermínio dos cães foi praticado desde sempre em Cabo Verde e até hoje, mas nunca em nenhum Concelho o problema ficou resolvido.

Os municípios não procuraram ainda analisar as razões e tomar medidas humanas e cientificamente comprovadas que têm sucesso comprovado.

As causas deste fenómeno são o abandono e a exposição à vida de rua dos animais pelos seus donos. Nenhum cão ou gato que anda nas ruas vem da floresta ou de áreas selvagens. Nalgum momento em suas vidas foram abandonados e colocados na rua ou foram os seus progenitores os vítimas de abandono. Mas infelizmente, foi sempre o cão a pagar com a sua vida.

Cabo Verde e recomendações da OMS

Cabo Verde não é o único país que se confronta com este problema. Estamos a falar de um fenómeno que é comum a quase todos os países, cidades e aldeias na nossa grande aldeia chamada Terra. Sim, o problema já foi estudado por organizações internacionais como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Sociedade Mundial para o Bem-estar dos Animais (SMBA), entre outras. O trabalho publicado em 1990 como anexo à resolução da OMS VPH/83.43 sobre o controlo da raiva, desenvolvido a nível mundial analisando as práticas de vários países dos 5 continentes, discute e apresenta amplamente o fenómeno, as suas razões, as experiências, os resultados obtidos e as soluções mais eficazes e eficientes, assim como as legislações adotadas neste sentido. Qual é o problema e quais são as suas causas?

O cão e o gato vivem inseridos na sociedade humana há muitos milhares de anos. O problema consiste por um lado na sobrepopulação e por outro lado nas doenças e aspetos comportamentais destes animais que vivem e reproduzem-se descontroladamente nas ruas.

Há alguns anos que o nosso Movimento estuda o fenómeno dos animais abandonados através de observação e trabalho no terreno e constatamos o seguinte:

1. Muitas pessoas deixam os animais a viver na rua, embora se declarem seus donos.

2. Cães que ficam infetados de carrapatos e pulgas em vez de serem tratados, são colocados na rua. 3. Durante a construção das casas, os guardas trazem um cão que vive livremente à volta da obra, incentivado a defender o local, e depois da sua conclusão ele fica abandonado. 4. Os animais deste modo abandonados reproduzem-se livremente aumentando a população canina na cidade.

Observamos entretanto que entre aproximadamente 4 casas, uma cuida dos animais abandonados das mais diversas formas, alimentando-os, oferecendo água limpa e procurando cuidados veterinários e mesmo castração. A tendência é para crescer a adoção comunitária.

Situações e crenças

Além disso verificamos algumas situações e crenças que agravam o quadro:

1. A crença de que a sarna com a qual muitos cães são infetados pega nas pessoas e periga principalmente crianças está amplamente vulgarizada. Até o ponto que recentemente o líder do PTS fez esta declaração publicamente. Esclarecemos: Existem vários tipos de sarna. A sarna com qual a maioria dos cães em Cabo Verde é infetada não pega em pessoas e é facilmente curável. As vezes bastam duas injeções de IVOMECTRINA no espaço de duas semanas, para eliminar completamente a doença.

2. Contrariamente do que se pensa, outras doenças de pele, ou que aparentam ser de pele como algumas doenças sexualmente transmissíveis entre cães, igualmente não representam perigo para o ser humano.

3. Os cães são referenciados como um problema de saúde pública, nunca referenciando ou tomando medidas contra problemas reais da saúde pública, como as fezes e cuspos humanos espalhados no litoral e em diversos espaços públicos ou a falta de higiene no manuseamento dos alimentos.

4. As vacas, ovelhas, cabras e outros animais que trazem rendimento diretamente ao ser humano não são recolhidos ao deambular em espaços públicos e mortos em 48 horas se seu dono não os reclamar. Suas fezes, doenças e parasitas também não são publicitados na comunicação social. Até parece que o cão deve levar todas as culpas.

5. A eutanásia é utilizada como sinónimo de tirar a vida a um animal. Esclarecemos: A eutanásia significa tirar a vida a um animal que esteja com uma doença irreversível (incurável) em estado terminal e em extremo sofrimento, tendo como objetivo o mesmo que no caso dos seres humanos: aliviar o seu sofrimento.

6. A população não tem informação sobre os principais parasitas que afetam os cães e os gatos, nem sabe como combatê-los, como p.ex. as carraças ou pulgas que são os mais frequentes. Além de não terem informações, os medicamentos não são acessíveis para a grande maioria devido ao preço elevado praticado no mercado.

7. A castração também não é conhecida por todos como meio de controle de natalidade. As pessoas preferem ter machos para não ter que confrontar-se com os filhotes das cadelas, assim elas são obrigadas a viver nas ruas e seus filhotes já nascem condenados. A castração não é vulgarizada e nem é acessível, por um lado porque não há veterinários suficientes que o pratiquem, por outro lado pelo preço praticado.

O nosso Movimento que conta com numerosos voluntários amantes dos animais que dedicam altruisticamente seu tempo à causa, está a desenvolver um trabalho no terreno, junto da população para divulgar conhecimentos, promover campanhas de desparasitação e organizar através de voluntários a sua continuidade periódica, recensear os animais e a necessidade de castração.
Identificamos e promovemos a adoção dos cães que vivem nas ruas com muito bons resultados. Aproximadamente 100 cães encontram lar mensalmente e outros 100 que são adotados comunitariamente obtêm melhores cuidados. A relação afetiva entre humanos e cães tem trazido imensa alegria às famílias, idosos e crianças.

Registo de animais e falta de programa nacional

Estruturamos e implementamos o sistema nacional de registo de cães e gatos acessível via WEB que está pronto para ser operacionalizado junto dos veterinários e entidades competentes na matéria que disponibilizará estatísticas sobre todos os cães identificados.

Verificamos que não existe nenhum programa a nível nacional ou dos municípios de educação da população sobre as matérias acima referidas, nem de desparasitação ou castração e colocamos a pergunta:

Porque é o cão que deve pagar com sua vida a ignorância, negligência e falta de cuidados humanos?
Estamos a promover a parceria com instituições também para que passem para a população conhecimentos e recursos que ela precisa. Neste particular também já temos tido várias ações conjuntas de desparasitação, educação e adoção com bons resultados. Divulgamos e adotamos as boas práticas indicadas pela OMS e vários países que conseguiram implementar a gestão ética da população canina.

Na Europa, por exemplo, é proibido tirar a vida a qualquer animal de companhia, mesmo que viva abandonado, com exceção se estiver em sofrimento extremo e com doença sem cura. Esta prática está cada vez mais vulgarizada no mundo e a adesão dos países cresce todos os dias. No Brasil, vários estados servem de exemplo para o mundo. Na Turquia também já existem bebedouros e comedouros para animais comunitários.

Ética da população canina

Em que consistem as boas práticas, chamadas de gestão ética da população canina que cada vez mais países seguem? Poderíamos resumi-las em 3 pontos que garantem a resolução do problema de forma eficiente e ética e de vez:

1. Educar os seres humanos para cuidar, tratar e amar os seus animais e em circunstância alguma abandoná-los ou colocá-los em risco deixando-os sem supervisão e controlo nas ruas.

2. Responsabilizar os seres humanos pelos seus animais através da obrigação de registo e vacinação quando aplicável. O ser humano que adota um animal de companhia é responsável por este até o fim da sua vida.

3. Controlar a natalidade dos animais através da castração. Mesmo os animais que não encontrem um lar humano que os acolha e continuem a viver nas ruas, podem ser adotados e cuidados por comunidades. Com a sua castração, não irão se reproduzir e assim, com a sua morte natural, a população animal irá se reduzindo gradualmente.

A Comissão Europeia na sua Assembleia Parlamentar já em 1979 declara que a sobrepopulação de cães e gatos tem na sua raiz a ignorância humana que deve ser sistematicamente atacada, o que indica que há 39 anos este problema foi identificado.

A OMS no estudo referido inicialmente apresenta o caso da Roménia, como das piores práticas que não quis dar-se ao trabalho de educar a população humana e desenvolver o trabalho sistemático da adoção comunitária. Em 7 anos foram mortos cerca de 150 mil cães a custo de 9 milhões de Euros. Não se conseguiu resultado algum quanto ao número de animais nas ruas. Mas os animais à espera da morte passaram por sofrimentos brutais, iguais aos que passam em Cabo Verde, torturados fisicamente, sem água e comida as vezes durante vários dias e depois electrocutados durante vários minutos através do nariz e do ânus, envenenados de diversas formas causando hemorragias internas e convulsões até a morte as vezes durante 36 horas, espancados ou deitados em precipícios, etc. E, finalmente, a Roménia entendeu que a medida não resolvia . Quantos animais inocentes sofreram pela falta de ética e empatia, a ignorância, a brutalidade e o desleixo humano?

Atitudes correctas e trabalho conjunto

Acreditamos que com a implementação das atitudes corretas e um trabalho conjunto entre instituições e a sociedade civil conseguiremos diminuir significativamente o número dos cães que vivem nas ruas, mas também de restituir a dignidade no relacionamento entre humanos e cães. O cão é o melhor amigo do homem e honra este compromisso todos os dias! É companheiro, salvador, polícia, cuidador, guia, guarda ... e muito mais. Trabalhamos para que o homem também honre este o compromisso milenar que parece ter esquecido.
Convidamos os municípios para que repensem a sua política e medidas, virem para as boas práticas atuais e honrem também este compromisso milenar entre o cão e o ser humano.

O Movimento Civil para as Comunidades Responsáveis está disponível para colaborar com os municípios que adotem os princípios da gestão ética da população canina. Fotos: Membros do ONG MCCR e arquivo

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