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Briga de deputados na AN: Jorge Tolentino escreve sobre «um dia mau» para a democracia 11 Novembro 2018

Na verdade, hoje a mancha caiu por inteiro sobre a Democracia cabo-verdiana e o país. É só ver a projecção da notícia na imprensa estrangeira. Por outro lado, é fundamental não subestimar a necessidade de não enviar mensagens erradas para a sociedade. O Deputado, nenhum Deputado, nenhum titular de cargo político pode (deve), pelo exemplo das suas acções, contribuir para elevar os níveis de violência na sociedade. Como esperar ou exigir que o comum dos cidadãos não cometa actos de violência (física) no dia a dia? Não está o titular de cargo político investido no dever de pedagogia? Não há um mínimo ético a cumprir? Estamos condenados a viver nesta permanente crispação política? Não deve a sociedade exigir mais e melhor?

Briga de deputados na AN: Jorge Tolentino escreve sobre «um dia mau» para a democracia

Um dia mau

1. Cumprido o que tinha programado para hoje, encontro agora sossego para exprimir a minha opinião sobre a notícia que abalou o país neste 9 de Novembro: o espectáculo de violência física na Assembleia Nacional, envolvendo dois Deputados nacionais.

2. Não é de agora que a classe política cabo-verdiana vem insistindo em dar tiros nos próprios pés, de cada vez contribuindo para aprofundar a apreciação negativa que dela vai tendo a sociedade no seu todo. Mas hoje foi-se longe demais. A violência verbal, essa, é corriqueira no Parlamento; acrescentando agora a violência física, ultrapassou-se a linha vermelha. ‘Agressão’? ‘Briga’? ‘Legítima defesa’? Isso não é, neste contexto, o mais importante para identificar o facto em concreto: violência física, dentro do Parlamento, envolvendo dois Deputados nacionais. Não há como nem por onde amaciar o ocorrido: ele é grave, gravíssimo. Nunca poderia ou deveria ter ocorrido. Urge agir. Ir além da mera troca de versões ou razões... do facto.

3. Por conseguinte, o pior que se poderá fazer será tentar disfarçá-lo por entre as proverbiais disputas ou quezílias político-partidárias. A gravidade do ocorrido impõe que haja averiguações, que os factos sejam apurados e haja consequências. Doa a quem doer. A questão não é dos envolvidos apenas e nem do Parlamento por si ela é exclusiva. Trata-se de uma questão nacional. À Nação não é indiferente o desempenho dos seus Representantes. Se assim é, e porque assim é, ela tem direito a uma satisfação. Tem de ficar claro se no Parlamento é ‘normal’ o recurso à violência. Parece-me essencial que todas as forças políticas presentes no Parlamento convirjam na resolução do problema – que existe!

4. Na verdade, hoje a mancha caiu por inteiro sobre a Democracia cabo-verdiana e o país. É só ver a projecção da notícia na imprensa estrangeira.

5. Por outro lado, é fundamental não subestimar a necessidade de não enviar mensagens erradas para a sociedade. O Deputado, nenhum Deputado, nenhum titular de cargo político pode (deve), pelo exemplo das suas acções, contribuir para elevar os níveis de violência na sociedade. Como esperar ou exigir que o comum dos cidadãos não cometa actos de violência (física) no dia a dia? Não está o titular de cargo político investido no dever de pedagogia? Não há um mínimo ético a cumprir? Estamos condenados a viver nesta permanente crispação política? Não deve a sociedade exigir mais e melhor?

6. Em não havendo o tratamento adequado do ocorrido hoje na Assembleia Nacional, ficará muito complicado fazer o caminho da credibilização da classe política. Ou seja, serão fatais quaisquer eventuais sinais de ‘normalização’ desse ocorrido. Bem pelo contrário, tem de ficar inequívoco para todos que na Democracia cabo-verdiana não há espaço para a violência como forma de resolução de problemas ou divergências. Dito de outra forma, ‘normalizar’ equivale a abrir caminho a factos de idêntica ou superior gravidade no futuro, a qualquer momento.

7. Para já, irá a classe política tirar alguma lição do que hoje aconteceu? Irão as sessões parlamentares subir a fasquia no que se refere à qualidade da linguagem e à civilidade? Custa assim tanto?!... A ver vamos...

8. Entretanto, o espectáculo de violência física ocorrido no Parlamento deu, involuntariamente, um ‘contributo’ muito importante e que é o seguinte: se porventura alguma dúvida havia quanto à urgência de rever a natureza das listas de candidatos a Deputados, ela terá já desaparecido. As próximas eleições terão de acontecer com uma outra formatação e uma maior implicação da Cidadania. Convém que, melhor cedo do que tarde, todos percebam tal urgência. (Post colocado na sua página de facebook)

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