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Nascido mulher, Murray Hall deposita voto no tempo em que só homens votavam 19 Setembro 2019

A foto mostra o político Murray Hall a depositar, em 1876, o seu voto na urna, durante a eleição do Senador Nacional pelo Estado de New York nesse ano do centésimo aniversário da independência. Vinte e cinco anos depois, o segredo que carregava foi desvendado e levou a um projeto de lei para obrigar os eleitos municipais a deixar crescer o bigode.

Nascido mulher, Murray Hall deposita voto no tempo em que só homens votavam

Nessa eleição da Circunscrição Municipal de Manhattan e Bronx, que constituía o 13º Distrito de Nova Iorque (no edifício da foto), o autarca Hall então com trinta e seis anos ganhara o muito restrito direito de votar.

Ironicamente, ganhara o direito de ser eleito antes de poder votar, nesse caso devido à idade. Também dez anos antes, em 1866, a candidata ao Congresso Elizabeth Cady Stanton, proibida de votar, por ser mulher, formalizou a sua capacidade como elegível (por voto).

Murray Hall nasceu Mary Anderson em Govan, na Escócia em 1841, identidade que só recuperou na emissão da certidão de óbito em 1901. Nasceu mulher, viveu como homem, morreu mulher.

Entre as duas datas extremas, Murray Hall casou, prosperou, foi pai, político respeitado. As biografias não relatam em detalhe, mas terá decidido assumir a identidade de homem quando lhe morreu o irmão — que o criou, pois os pais morreram cedo — e herdou o seu guarda-roupa.

A primeira mulher parece ter sido decisiva para a sua emigração para a América. Os biógrafos dão-no como perseguido na Escócia, o que o levou a fugir para Londres, onde, vestido com as roupas do defunto irmão mais velho, embarcou num barco para Nova Iorque.

Na América, voltou a casar e teve uma filha da segunda mulher. Entretanto singrara na vida política empresarial como bondsman (atividade vigente nos Estados Unidos e em vias de extinção, pela qual o agente de fiança atua como garantia — traduzível em dinheiro ou propriedade — de que o réu irá comparecer no tribunal).

Murray Hall teve a última etapa da vida coroada com mais de um quarto de século de sucessos — até um cancro lhe encurtar o percurso aos sessenta anos.

"Que ela descanse em paz, pobre Murray"

A expressão de pesâmes, proferida pelo colega senador Burnay Martin, veio no New York Times de 19 de janeiro de 1901, três dias depois da morte de M. Hall. Pelo mesmo diapasão de condolências, afinaram os demais colegas políticos abordados na imprensa, diz um repositório no Smithsonian Institute.

Nenhum político esteve no enterro, referem as fontes. Murray Hall de novo Mary Anderson foi a enterrar com um vestido, voltando a ser do sexo feminino com que nascera.

O referido diário novaiorquino no dia 20-1-1901 titulava: "O Homem-Mulher Foi a Enterrar com Roupas de Mulher". Informava ainda que o autarca fora "enterrado numa campa sem nome".

O seu caso tornou-se objeto de várias teses de Psicologia, então recente ciência. Em entrevistas que deu e em publicações até 1937, o psicólogo Havellock Ellis dissertou largamente sobre o caso de Murry Hall que nasceu Mary Anderson.


Lei do bigode

O autarca Hall subverteu as leis, mas não pagou nada por isso. Os relatos contemporâneos (da data da revelação de que "ele era ela") contam que um dos adversários de Hall, o líder republicano Abraham Gruber, expressou que deveria haver uma lei para obrigar os autarcas a "usar bigodes" para que nenhuma mulher pudesse votar novamente.

Outro político, o senador estadual John Raines — famoso pela Lei Federal Haines, aprovada em Washington DC, que proibia a venda de áloool ao domingo —, aproveitou para provocar os adversários democratas: "Vocês, membros do Tammany ( 13º Distrito de Nova Iorque), são muito matreiros. Não me admira que tenham ali resultados tão estrondosos, quando podem vestir as mulheres para votar".

Hábito e monge, calças e homem

Mas mais que um caso psicológico, não seria este um objeto de estudo de empreendedorismo avant la lettre? A empreendedora Mary Anderson aproveitou uma circunstância fortuita — a herança de um guarda-roupa masculino — para beneficiar de direitos básicos negados às mulheres. Todos os privilégios vieram-lhe de ter revertido o ditado "o hábito não faz o monge" tornando-o em "as calças fazem o homem".

Fontes: New York Times/Referidas/Estudos de Havellock Ellis. Foto: O edifício histórico renovado, ao centro.

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