OPINIÃO

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Nhamita Pereira: Figura incontornável do mundo do batuku e finason 18 Janeiro 2018

Batuku e a sua história: batuque é provavelmente o género musical mais antigo de Cabo Verde, mas só há registos escritos acerca do batuque a partir do século XIX. Presentemente só se encontra na ilha de Santiago, e é no Tarrafal onde se vive com mais intensidade este género musical. Todavia, há indícios que já existiu em todas as ilhas de Cabo Verde. Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Por:Nataniel Vicente Barbosa e Silva

Nhamita Pereira: Figura incontornável do mundo do batuku e finason

Quem corre por gosto não cansa, lá diz o velho ditado. Nessa trajectória vem à baila desta feita o nome de uma figura simples do meio rural cuja voz ultrapassou fronteiras, levando a nossa cultura às mais diversas partes do mundo: Josefa Mendes Pereira

Significado do Nome Josefa

Josefa: Significa “aquele que acrescenta”, “acréscimo do Senhor” ou “Deus multiplica”.

É a variante feminina de José, que tem origem no hebraico Yosef, que quer dizer “Ele acrescentará”, em referência a Deus.
Tornou-se bastante popular na Inglaterra do século XIX, sob a forma de Josepha, na altura em que a versão masculina do nome era muito popular.

Mas, quem é Josefa Mendes Pereira?

Josefa Mendes Pereira ou simplesmente “Nhamita Prera” como popularmente era conhecida nasceu no seio de uma humilde família de camponeses em Chã de Ponta da freguesia de São Miguel a 13 de Março de 1926. Entretanto, os pais: Joaquim Mendes e Justina Pereira vieram fixar a sua residência em Espinho Branco a escassos quilómetros de Calheta, onde cresceu a futura “deusa” da finason. Sabe-se pois, que Nhamita Prera começou a revelar muito cedo os seus dotes pelo batuque. Não conheceu os banquinhos da escola à semelhança de muitas crianças da sua época mas tinha uma extraordinária capacidade imaginativa pouco comum numa rapariga da sua idade.

Breves traços sobre percurso de Nhamita Prera

Nada se sabe sobre a infância e juventude de “Nhamita Prera” e tão pouco também se sabe sobre sua trajectória no mundo do batuku. Os escassos dados facultados por uma das filhas não nos permitem infelizmente traçar um historial alargado sobre a vida desta grande figura da nossa cultura tradicional.

Nhamita Prera muda o seu “status social”

Nhamita Prera contraiu o seu matrimónio julga-se em idade muito jovem na antiga igreja de São Miguel Arcanjo na ribeira do mesmo nome com um rapaz da sua zona, (ignora-se a data do enlace). Juntos trabalharam e constituíram família e foram abençoados com 9 filhos: 2 rapazes e 7 raparigas, sendo quatro dos quais já falecidos. Os 5 vivos alguns dos quais seguiram as pisadas da mãe. Assunto que iremos destacar um pouco mais a frente.
Ora, como na vida nem tudo são rosas Nhamita Prera apesar de ser “mudjer di sabi” passo o termo, passou também por alguns dissabores: A perda da sua primeira filha, o falecimento dos outros três nos anos posteriores e por último o próprio marido.
Recuando bem ao tempo pouca gente sabe que Nhamita Prera herdara essa arte de cantar “batuku” da avó segundo as afirmações da D.nª Lena uma das filhas. Nhamita Prera não conservou essa dádiva apenas para si, transmitiu-a aos filhos. A maneira simples e tão rica de conteúdo como interpretava a sua finason cativava muita gente e entusiasmou sobremaneira a um etnólogo, escritor e poeta francês muito conhecido em Cabo Verde: Jean-Yves Loude, levando-o a gravar em 2001 à “Maison da Radio France” um álbum intitulado:

Cap-Vert - Batuque et Finaçon.
Artiste : Nha Mita Pereira
Nom : Cap-Vert - Batuque et Finaçon
Parution : 2001
Label : Ocora Radio France
Format : Cristal
Durée totale : 69’11
Prix : 12,50 €
Interprètes : Nha Mita Pereira, chant, et Douze Batucadeiras, chœur, percussions sur pagne et claquements de mains.

Nha Mita Pereira".... (Jean-Yves Loude).

Dotada de uma voz cálida e melodiosa, Nhamita Prera encontra-se hoje enquadrada entre às melhores intérpretes da nossa cultura tradicional. Embora tardiamente se fez conhecer no mundo do batuque e com saúde já bastante debilitada apesar disto Nhamita conseguiu junto do público num curto espaço de tempo granjear um certo respeito e admiração tanto dentro como fora do território nacional. O lançamento do seu album a catapultou para um patamar ainda maior no mundo do batuku.

Quis o destino que partisse um pouco cedo da nossa convivência quando muito tinha ainda para brindar o seu público que tanto amava. Mas, como costuma-se dizer os artistas nunca morrem. O seu jeito picante, poético e desafiador de se manifestar através das suas letras vai de certo perdurar por longos anos na memória desta e da próxima geração.

O sangue do “batuku” corre nas veias da família “Prera”

Celina Pereira, a sua última filha (kodé) que vive actualmente em França, canta e encanta a todos com o seu grupo de batucadeiras. (uma autêntica fotocópia da mãe). “Fidju di pexi sabi nada”. (Filho de peixe sabe nadar.) Sabe-se entretanto que existe também na diáspora ainda uma outra filha “Cundoti Bala” (uma verdadeira bala d’aço). Com seu grupo constituído apenas por gente jovem (filhas) (L.N.P) (lembrança Nhamita Pereira) segue a mesma caminhada da mãe, levando bem alto a bandeira da família sob o lema: batuku e noz tradison, batuku e noz erdansa .Noz e di kel raça ki ka ta xinti medu”. “ Efectivamente raça de gente “sabi” que sabem fazer às pessoas felizes com a sua forma peculiar de estar na vida.
Motivos também mais que suficientes para proclamar bem alto: a velha máxima: Filhos de peixes na verdade sabem nadar.

É de se realçar que Nhamita Prera apesar da sua grande pujança no mundo do batuku não ganhou assim tanta fama no mundo do batuku na ilha de Santiago como já se fez referência em relação às outras artistas da nossa praça: Nha Bibinha Cabral do Tarrafal, o “rei de terreiro” N toni Denti d’ oro de São Domingos e a “rainha de finason” Nha Nacia Gomi de Santa de Cruz. Os dois primeiros já reverenciados num dos espaços dos meus artigos: Asemanaonline (14 de Junho de 2015 e 04 de Abril de 2017), respectivamente.

Nhamita Prera faleceu aos 75 anos de idade na Praia, em consequência de uma prolongada doença a 30 de Setembro de 2001 exactamente no ano da gravação do seu CD, deixando um legado rico de batucadeiras (filhas e netas) que vai prolongando a velha tradição da mãe.

Nhamita Prera é um nome que o tempo certamente não vai apagar assim tão cedo.
Termino com uma palavra de estímulo às nossas batucadeiras: que continuem manifestando o vosso saber para o bom nome da nossa cultura. Bom ano a todos.
Ad aeternum

Tarrafal, aos 16 de Janeiro de 2017

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