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José Maria Neves enaltece figura do artista Kaká Barbosa 04 Maio 2020

Numa espécie de homenagem póstuma, o antigo Primeiro-ministro de Cabo Verde resolveu, na sua crónica desta segunda-feira, também publicada na sua página de facebook, enaltecer a figura do artista Kaká Barbosa que faleceu no dia 01 e que diz ter sido seu amigo e companheiro de muitas lutas em prol de Santa Catarina de Santiago. «Perante Homens grandes, nós os comuns mortais devemos inclinar-nos em sinal de respeito. Só Homens transcendentais morrem no dia em que nasceram! Inclino-me perante ti, meu irmão, meu amigo, meu companheiro de todas as lutas que travei, em sinal de respeito e de gratidão». José Maria Neves descreve que Kaká era assim na pluralidade das suas vidas: emotivo, sincero, honesto, criativo, orgulhoso, teimoso, corajoso e trabalhador. «Não falava mal de ninguém e sempre que me procurava era para cantar uma música, mostrar-me uma nova criação, propor uma nova ideia... um homem que nos ajuda a crescer, em todos os momentos, em todas as dimensões», destaca Neves, para depois concluir: «Quando a morte nos arrebata um irmão deste quilate não há lágrimas que abafem a dor, uma dor infinita de já não poder contar com a irmandade presente de Kaká Barbosa». Veja o artigo a seguir.

José Maria Neves enaltece  figura do artista Kaká Barbosa

LAMBUZA-TE DE FLORES

Fiquei, de repente, sem palavras.

A morte é algo inexprimível. Perde-se a preciosidade da fala, ofusca-se a grandiosidade do olhar e inviabiliza-se a possibilidade da escrita. “A morte é curva da estrada” e “morrer é não ser visto”.

Para alguém que é poeta, escritor, compositor, letrista, cantor as perdas são infinitas. Já não há mais versos, já não há mais notas nem claves dedicadas ao sol, já não há vozes, nem vida para viver!

O futuro já não existe, só o passado, ainda que iluminado pela grandiosidade da obra, das obras!

A notícia foi metálica e cortante. Trazia a ferocidade da dor.

Não sei, nunca soube (será que aprenderei algum dia?), lidar com a morte. É algo que me dilacera a alma e me deixa profundamente magoado, à beira do colapso... não tenho nervos de aço!

Perco um grande irmão, um grande amigo, um companheiro de momentos tão sublimes quão fantásticos da minha vida.

Em 2000, quando decidi candidatar-me a Presidente da Câmara Municipal de Santa Catarina, eram tempos de chumbo.

Pressentia-se o medo na respiração e na transpiração das pessoas. Ninguém queria comprometer-se, entrar na lista, credo!, tenho filhos para criar; estou à procura de emprego, se quiser falar comigo tem que ser longe, em lugar discreto; pode vir ter comigo à noite à minha casa, mas não estacione o carro à porta, nestes tempos até a escuridão da noite fala... assim, entre o espanto e o terror, as pessoas me respondiam quando as abordava para entrarem na lista ou apoiarem a candidatura. Ninguém queria enfrentar a dureza da luta política. Os custos da participação eram elevadíssimos.

Deu-me na cabeça ir falar com Kaká Barbosa. Foi uma conversa difícil, sentida, dolorosa, verdadeira. Estava profundamente desiludido com a política, não queria regressar... sou sincero, muito emotivo, não consigo esconder os meus sentimentos ou a dor de dar à luz... por outro lado, há tanto tempo não tenho ido à Assomada, disse-me ele num misto de angústia e ternura. Desejo-te sorte, não é fácil nos tempos de correm, admiro-te pela coragem de enfrentar as feras, e despedimo-nos.

No dia seguinte telefonou-me. Pensei muito, tenho que ir contigo, não posso dar as costas à luta nestes tempos tão difíceis para a democracia, a fuga martelar-me-ia eternamente a consciência. Não quero entrar na lista, mas vou contigo, vou apoiar-te, de corpo e alma, não sei fazer as coisas pela metade, temos pouco tempo, tenho que mudar de armas e bagagens para Assomada... estávamos nos primeiros dias de Janeiro, as eleições seriam a 20 de Fevereiro, não tinha nem um tostão para a campanha...

Mudamos literalmente, ele ficou em casa dos meus irmãos, e a 20 de Janeiro, Dia dos Heróis Nacionais, precisamente um mês antes das eleições, fizemos o nosso primeiro comício. O lema da campanha era “Por Amor a Santa Catarina”, mas nesse dia ele lançou a palavra de ordem que haveria de arrepiar Santa Catarina: UÍPO (tudo). Desta vez, disse ele, o nosso voto é “UÍPO em José Maria Neves”. Nem sonhávamos ganhar as eleições. O MPD, no poder, tinha 19 dos 21 Deputados Municipais, o PAICV tinha 2.

Kaká transformou-se num general da campanha, fez músicas, tocou, cantou, organizou jovens, animou comícios, foi incansável... andou comigo pelas ribeiras e achadas, redescobrimos Santa Catarina... e percebemos que a nossa terra sangrava de dor e esperança, queria renascer para a “eterna novidade do mundo”, almejava ter de volta a sua grandeza de outrora, a sua dignidade, afinal!

No dia 20 de Fevereiro, do nada, sem nada, ganhamos as eleições com maioria qualificada... sim, ganhámos! A humildade, a afetividade, a sinceridade, a força das ideias... ganhamos!. Falamos a verdade, debatemos ideias, não insultamos ninguém, aos insultos e agressões, que os houve e muitos, respondemos com propostas, com educação, com sinceridade.

Kaká era assim na pluralidade das suas vidas: emotivo, sincero, honesto, criativo, orgulhoso, teimoso, corajoso e trabalhador. Não falava mal de ninguém e sempre que me procurava era para cantar uma música, mostrar-me uma nova criação, propor uma nova ideia... um homem que nos ajuda a crescer, em todos os momentos, em todas as dimensões.

Quando a morte nos arrebata um irmão deste quilate não há lágrimas que abafem a dor, uma dor infinita de já não poder contar com a irmandade presente de Kaká Barbosa.

Perante Homens grandes, nós os comuns mortais devemos inclinar-nos em sinal de respeito.

Só Homens transcendentais morrem no dia em que nasceram!

Inclino-me perante ti, meu irmão, meu amigo, meu companheiro de todas as lutas que travei, em sinal de respeito e de gratidão.

Ajoelho-me para pedir-te desculpas. Não pude acompanhar-te à tua última morada, por causa desta maldita pandemia.

Juro-te, Kaká, do meu coração, nunca partirás!

Descansa em paz, lambuza-te de flores, que recitarei eternamente os teus versos... e ouvirei para sempre as tuas mais belas músicas!

Santa Catarina é testemunho de tanto que criamos, de tanto que amamos!

José Maria Pereira Neves
( Ex - Primeiro-ministro da Cabo Verde

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