OPINIÃO

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O Dia de África: Ceticismo com o comportamento daqueles que detêm o leme dos destinos do rico continente 24 Maio 2020

Sinto-me um africano realista e não daqueles que veem o continente num caleidoscópio feito à sua medida. Há que reconhecer que se trata apenas de uma constatação. O meu ceticismo prende-se com o comportamento daqueles que atualmente detêm o leme dos destinos das nações que compõem este vasto e riquíssimo continente. Tão rico que, incompreensivelmente, ainda hoje, tem dificuldades em alimentar e proporcionar uma educação, saúde e bem-estar ao seu povo, não obstante as riquezas naturais de que dispõe e das quais o povo não desfruta. São líderes que um dia serão julgados pela história por crime de alta traição, pelas incalculáveis fortunas subtraídas e enviadas para as terras dos que outrora colonizaram e exploraram a África e que de forma tão monárquica se comportam.

Por: Onestaldo Gonçalves*

 O Dia de África: Ceticismo com o comportamento daqueles que  detêm o leme dos destinos do rico continente

O Dia de África

Hoje, 25 de maio, comemora-se uma data tão importante para a vida dos povos de África. Um dia que, julgo eu, devia ser dedicado a reflexão sobre um continente de suma importância para o mundo, mas que, por razões sobejamente conhecidas, está sendo relegado, de forma propositada ao esquecimento. Sim, esquecido por todos, inclusive por aqueles que, por razões históricas, morais e outras, deviam ser os seus defensores, os seus filhos, mas que não o fazem e não o assumem, por falta de patriotismo e interesses pessoais mesquinhos. Um dia em que o continente se encontra mergulhado em guerras fratricidas e encomendadas, sob a batuta de famigerados maestros. De igual modo, onde é bem visível a fome, a nudez, e a carência de habitação, assistência médica e educação. E o seu povo, como é bem compreensível, tem poucas razões para comemorar essa data. Estou certo que hoje, por todo o nosso vasto continente, se fazem ecoar discursos acalorados de ocasião e com promessas vãs, desfiles militares e sonoras fanfarras, fartos banquetes servidos, hinos nacionais de forma empolgada entoados. Uma data em que muitos países comemoram com pompa e circunstância como feriado nacional.

Sinto-me um africano realista e não daqueles que veem o continente num caleidoscópio feito à sua medida. Há que reconhecer que se trata apenas de uma constatação. O meu ceticismo prende-se com o comportamento daqueles que atualmente detêm o leme dos destinos das nações que compõem este vasto e riquíssimo continente. Tão rico que, incompreensivelmente, ainda hoje, tem dificuldades em alimentar e proporcionar uma educação, saúde e bem-estar ao seu povo, não obstante as riquezas naturais de que dispõe e das quais o povo não desfruta. São líderes que um dia serão julgados pela história por crime de alta traição, pelas incalculáveis fortunas subtraídas e enviadas para as terras dos que outrora colonizaram e exploraram a África e que de forma tão monárquica se comportam. Esses mesmos líderes que detêm um poder, quase absoluto, agarrando-se e chamando para si todos os poderes, e que se confundem com o próprio Estado: “l´État c´est moi”. Aqueles que verdadeiramente se debruçam sobre a problemática africana contemporânea e que auguram por uma África na senda da democracia, desenvolvimento e progresso, certamente estarão de acordo comigo no meu raciocínio, que eu gostaria que não fosse tão apocalíptica e muito menos uma verborreia. Temos de apostar numa genuína democracia para a África e não numa democracia virtual, como até agora temos vindo a observar. Temos, por outro lado, de apostar fortemente no desenvolvimento de África, para que possamos ocupar uma posição longe da cauda do mundo e dos mais baixos Indicadores de Desenvolvimento Humano. A aposta deve ser numa educação de alto padrão, da instrução primária à universidade. Mas para que tal aconteça, há que realizar uma verdadeira revolução nos curricula e alocar verbas significativas para esse sector, em vez de estarmos a apostar na construção de estádios e injetar chorudas verbas para o sector da defesa e outros que não visam alavancar este continente e colocá-lo na senda do progresso e desenvolvimento. Os sectores da saúde e da educação não podem continuar a ser os “parentes pobres” na partilha do bolo. É chegada altura de reconhecermos que só sairemos desta “cepa torta”, quando colocarmos a educação como o epicentro do desenvolvimento deste rico continente. Vem-me à memória a célebre frase do físico, astrónomo e matemático grego, Arquimedes: ”Dê-me uma alavanca que moverei o mundo”. A educação, é a alavanca de que precisamos e tanta falta nos faz.

Não nos iludamos e vangloriemos com as riquezas naturais que jazem no subsolo, cuja parte salomónica, não nos pertence. Poupem-me nas palavras, não que eu não tenha coragem de o dizer, ou mesmo por falta de argumento, mas por entender que que o leitor destas linhas sabe bem, tanto quanto eu, a razão. Ela não ficará “em suspenso”, desde que não sejamos intencionalmente míopes.

Peço perdão aos mais sensíveis, e permitam-me a analogia, mas esta é a verdade nua e crua, a sensação que tenho sobre o nosso continente é a de uma carroça puxada por bois, em que a carroça é a África, e os bois, os outros países desenvolvidos. Quando é que deixaremos de ser carroça para assumirmos a posição de bois? Não sou pessimista, repito, não o sou, mas não se vislumbra num horizonte temporal tão curto que isso possa vir a acontecer. Chamar-me-ão de afro-pessimista. Peço perdão, uma vez mais, não o sou. E como gostaria de ter razões de não o ser.

Há que reconhecer, que não caminhamos a um ritmo desejado rumo ao desenvolvimento, e isso trará, num futuro próximo, consequências desastrosas e imprevisíveis para todas as nações. A não ser que estejamos interessados em regressar à data da pré-história, e, consequentemente, abrir o flanco para o surgimento do neocolonialismo.

Nesta data, no entanto, não posso e nem devo esquecer de render uma merecida e justa homenagem aos verdadeiros líderes e patriotas africanos, que, de forma abnegada e desinteressada, colocando de lado os seus projetos pessoais, se entregaram de corpo e alma na luta de libertação de seus povos das masmorras daqueles que os queriam escravizar. Mas não posso e nem devo deixar de mencionar os atuais líderes, infelizmente uma maioria, que se agarram e perpetuam no poder, como mexilhões encrustados nas rochas, e que estão indiferentes ao clamor dos seus povos e que parecem ter esquecido de onde vieram e para onde pretendem levar este continente.

Não podemos estar, de forma quase fastidiosa e insistente, em encontrar um bode-expiatório para todos os males que nos assolam. Não raras vezes, temos de reconhecer, a culpa está ao alcance das nossas mãos e olhares, e os seus autores facilmente identificados, sem necessidade de se recorrer ao divino ou a qualquer método investigativo. Líderes que quando lhes convêm e para “consumo interno”, tecem duras críticas aos colonialistas, mas que, a bem da verdade, os substituíram, por assim se comportarem. Por outro lado, e reconheço, e é bem verdade, o colonialismo e o neocolonialismo jogaram e têm vindo a jogar um papel determinante no atual estádio de desenvolvimento em que se encontra este “velho continente” (velho por ter sido o berço da humanidade), porém, há outros atores, porventura, tão culpados quanto os primeiros.

Eu não gostaria de terminar esta minha reflexão sobre o “continente negro”, sem antes fazer uma breve referência sobre o Tribunal Penal Internacional (TPI). Aquando da sua criação, pelo menos era esse o seu objetivo, e todos bateram palmas, inclusive eu, modéstia à parte, porque ele visava julgar os crimes contra a humanidade. Um tribunal, julgo eu, “ad hoc” e nos moldes do Tribunal de Nuremberg. Mas, infelizmente, pouco tempo depois, assim como um solo que sofre erosão por ação dos fenómenos naturais, expondo a sua camada mais profunda, eis que o TPI veio mostrar a sua verdadeira face. Ele, de forma muito seletiva e tendenciosa, tem vindo a escolher com lupa e cirurgicamente aqueles que devem ou não ser julgados. Somos testemunhas de crimes de lesa-humanidade, que se cometeram e que nos dias de hoje ainda continuam por este mundo fora, cujos autores ficaram e têm ficado impunes, pelo simples facto de eles se considerarem como os reais donos do planeta. Entendo que ele deve acertar a “bússola” e trazer a verdadeira justiça aos carris.

Termino, dizendo, que temos um dever moral de passar o facho, um legado, às gerações vindouras, nossos netos e filhos, um continente de prosperidade, paz e bem-estar, para que eles possam, num futuro não muito distante, fazer o mesmo e todos desfrutemos das riquezas, que têm aguçado tantos apetites daqueles que as cobiçam.

Praia, 21 de maio de 2020

*Médico

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